Cardiologia

Fatores de risco para doenças cardiovasculares presentes na infância: fisiopatologia e impactos na vida adulta | Colunistas

Fatores de risco para doenças cardiovasculares presentes na infância: fisiopatologia e impactos na vida adulta | Colunistas

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Mayra Lisyer Dantas

8 min há 116 dias

A importância das doenças cardiovasculares

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morbimortalidade no mundo e estudos apontam que ela pode estar presente de forma insidiosa desde os dois anos de idade em indivíduos que nasceram sem alterações cardíacas estruturais ou comorbidades relacionadas. Em muitos casos, níveis diferentes de fibrose e inflamação arterial podem ser detectados ainda na adolescência (1).

A boa notícia é que a maioria dos fatores de risco para o desenvolvimento da doença são amplamente modificáveis, a má é que tais hábitos permeiam a infância da maioria das pessoas, desde os primeiros anos de vida, tornando cada vez mais difícil a adoção de medidas protetoras na vida adulta. A presença desses fatores na primeira infância é forte preditor de alterações como aterosclerose subclínica, patologias cardíacas e mortalidade. Além disso, estudos apontam que medidas farmacológicas para a maioria desses componentes não são eficazes na redução do risco.

Fatores de risco e fisiopatologia

Existem alguns fatores de risco clássicos para as doenças cardiovasculares e entre eles estão:

Obesidade

Definida como índice de massa corporal acima do p95 para a idade e sexo, a sua prevalência dobrou entre as crianças e mais que triplicou entre os adolescentes nos últimos 30 anos. Esse índice é pior quando analisadas as populações hispânicas e afro descendentes, principalmente em países emergentes, levando à superfície a insegurança alimentar a qual as populações economicamente mais pobres estão expostas.

O aumento do peso e da porcentagem de gordura corporal leva a um estado pró-inflamatório, com aumento do PCR, leptina, interleucina-6 e redução da adiponectina, levando a intolerância à glicose, resistência insulínica, aumento dos lipídios séricos, da pressão arterial, com maior predisposição a hipertrofia ventricular e aterosclerose independente de outras comorbidades ligadas à obesidade, o que, na idade adulta, aumenta consideravelmente a mortalidade por doenças cardiovasculares.

Figura 1 – Associação entre mortalidade por doença arterial coronariana e Índice de Massa Corporal na adolescência.

Outro marco sensível para o risco cardiovascular e intimamente relacionado a obesidade é a circunferência abdominal, um importante preditor da elasticidade arterial até em escolares, com uma correlação positiva entre pressão arterial, circunferência abdominal, índice de massa e porcentagem de gordura corporal

         Síndrome Metabólica

Ainda não é clara a definição de síndrome metabólica na infância e adolescência devido às intensas alterações hormonais, principalmente nos períodos pré-puberal e puberal. No entanto, de forma geral, podemos identificá-la a partir da presença de 3 ou mais das seguintes alterações:

  • Aumento da circunferência abdominal;
  • Resistência a insulina, identificada através do aumento da glicemia de jejum
  • Hipertensão, que em pediatria é definida como aumento da pressão arterial sistólica e diastólica acima do p95 para sexo, altura e idade ou acima de 130×70 em 3 ocasiões distintas;
  • Altos níveis de triglicerídeos;
  • Baixos níveis de HDL

Esses achados estão relacionados a maior risco de doenças cardiovasculares e diabetes, com maiores taxas de aterosclerose em adultos. No entanto, estudos observacionais mostraram que em cerca de 3 anos, metade das crianças previamente identificadas com essa condição evoluíram de forma favorável, com mudança no diagnóstico inicial.

Na Síndrome metabólica, o aumento do aporte energético, acima da capacidade de estoque dos adipócitos, leva a sua hipertrofia, com diminuição da vascularização local e necrose, além da liberação de citocinas como interleucinas 1, 6 e 18, e do fator de necrose tumoral, levando a um nível de inflamação crônica sistêmica. Essa resposta leva à resistência à insulina pela ação de fosforilação dos seus receptores. Em última análise, as consequências desses processos são a alteração no perfil lipídico de forma não dependente de hormônio e o dano inflamatório e proliferativo do endotélio vascular, culminando em aterosclerose e eventos trombóticos.


Figura 2 – Inflamação e estresse oxidativo como precursores da síndrome metabólica. Retirado de https://doi.org/10.1590/1806-9282.63.01.85

Eventos sociais adversos

Estudos apontam que a exposição a eventos adversos na infância, como diferentes formas de abuso (físico, sexual, emocional ou psicológico), contextos familiares disfuncionais, negligência, bullying, dificuldades econômicas, perda de parentes próximos ou a experiência com doenças graves aumentam de forma independente o risco cardiovascular.

Outro dado importante leva a crer que tais episódios tendem a ser reincidentes, não necessariamente da mesma forma, mas com impacto semelhante. Estimativas apontam uma prevalência entre 52 a 82,8% desses eventos entre crianças e adolescentes, afetando principalmente aqueles com menor status econômico, em contextos de menores níveis educacionais, com cuidadores desempregados, e entre minorias étnicas e na comunidade LGBTQIA +. Cohorts anteriores avaliam que 61% dos indivíduos com doença cardiovascular ou fatores de risco apresentaram eventos adversos na infância.

Essa mesma cohort avalia que 4 ou mais eventos adversos aumentam a chance de desenvolver diabetes em 11% para cada evento, além do maior risco de infarto e AVC. Quando esse número excede 6 eventos, estima-se que esses indivíduos percam 20 anos na expectativa de vida, associado a uma maior chance de sedentarismo, sobrepeso, obesidade, diabetes, fumo e doenças cardiovasculares.

Tais resultados estão relacionados aos maiores níveis de catecolaminas liberadas mediante o stress crônico, aumentando os níveis de endotelina, insulina, pcr, fator de necrose tumoral, interleucina, ao efeito neuromodulador com modificações significativas da amigdala (mediadora da resposta ao medo), hipocampo (afetando aprendizagem e memória) e córtex pré-frontal (regulador das emoções e cognição), indução da metilação de DNA e encurtamento de telômeros.

Fatores de proteção

Foram identificados como fatores de proteção contra doenças cardiovasculares o uso de leite materno exclusivo até os 6m de idade, a restrição de açúcares na dieta, bem como do sódio e potássio, além da atividade física diária por 60 min, como orientado pela OMS e ausência de exposição a tabaco.

O cenário da pandemia

Durante o período de pandemia, o que vimos foi a deterioração da saúde mental das crianças, com aumento dos episódios depressivos e comorbidades relacionadas, como o uso de tabaco e álcool entre aqueles que utilizavam tais substâncias de forma eventual, obesidade e sedentarismo, além do aumento dos eventos adversos, como orfandade, e maiores dificuldades socioeconômicas.

O que podemos mudar?

Muito tem se discutido sobre as medidas de rastreio para os fatores de risco e comorbidades relacionadas ao maior risco cardiovascular nas consultas pediátricas e as condutas a serem adotadas em sua detecção

De forma geral, a maioria dos estudos analisados aponta para a maior efetividade de mudanças dos hábitos de vida, principalmente com o maior tempo de atividade física regular e o rastreio de comportamentos e condições de risco nas consultas pediátricas,  estando essas medidas associadas em menor escala ao uso de anti hipertensivos, por exemplo.

Se considerarmos o aumento na expectativa de vida da população mundial e os gastos em saúde acarretados pelas doenças cardiovasculares, haveria um comprometimento muito maior de sociedade e governos para a promoção de saúde de nossas crianças. 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

  1. Abrignani, M.G., Lucà, F., Favilli, S. et al. Lifestyles and Cardiovascular Prevention in Childhood and Adolescence. Pediatr Cardiol 40, 1113–1125 (2019). https://doi.org/10.1007/s00246-019-02152-w
  2. Barbalho, Sandra Maria et al. Síndrome metabólica, aterosclerose e inflamação: tríade indissociável?. Jornal Vascular Brasileiro [online]. 2015, v. 14, n. 4 [Acessado 23 Junho 2021] , pp. 319-327. Disponível em: . Epub 01 Dez 2015. ISSN 1677-7301. https://doi.org/10.1590/1677-5449.04315.
  3. Francisqueti, Fabiane Valentini et al. O papel do estresse oxidativo na fisiopatologia da síndrome metabólica. Revista da Associação Médica Brasileira [online]. 2017, v. 63, n. 1 [Acessado 23 Junho 2021] , pp. 85-91. Disponível em: . ISSN 1806-9282. https://doi.org/10.1590/1806-9282.63.01.85.
  4. Godoy LC, Frankfurter C, Cooper M, Lay C, Maunder R, Farkouh ME. Association of Adverse Childhood Experiences With Cardiovascular Disease Later in Life: A Review. JAMA Cardiol. 2021;6(2):228–235. doi:10.1001

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