Anatomia de órgãos e sistemas

Fibrilação Ventricular | Colunistas

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Eduarda Tanaka Sperandio

6 minhá 14 dias

A fibrilação ventricular é uma arritmia cardíaca grave, frequentemente fatal. É a principal causa de parada cardiorrespiratória, por isso a importância em reconhecer essa condição e seu manejo.

Fisiopatologia da fibrilação ventricular

A fibrilação ventricular é caracterizada pela desorganização do ritmo cardíaco, apresentando-se como contrações rápidas e fracas, produzidas por múltiplos impulsos elétricos originados de vários pontos dentro dos ventrículos, e não do nodo sinusal no átrio direito, como deveria ocorrer. Essas grandes variações na despolarização e repolarização, impedem que os ventrículos se contraiam conjuntamente, resultando em contração ineficaz e parada circulatória devido à ausência de débito cardíaco.

É possível observar três fases distintas para os eventos de fibrilação ventricular:

  • 1ª fase – taquissistolia, com queda progressiva da pressão arterial;
  • 2ª fase – incoordenação muscular grosseira, que ocorre de 30 a 40 segundos após o início da parada cardiorrespiratória;
  • 3ª fase – tremor fino após 2 a 3 minutos do início do evento, podendo evoluir para uma parada completa da atividade elétrica.

Causas da fibrilação ventricular

As causas mais frequentes de fibrilação ventricular são secundárias ao comprometimento grave do miocárdio. A mais comum é a isquemia, pois, durante o infarto agudo do miocárdio, há uma queda extenuante de oxigênio nas células miocárdicas, promovendo alteração das concentrações de íons intracelulares e extracelulares, consequentemente, acarretando retardo na condução elétrica e favorecimento dos fenômenos de reentrada. Novas isquemias em pacientes com isquemias prévias podem facilitar a ocorrência de fibrilação ventricular.

Esta arritmia cardíaca pode ocorrer também por quaisquer outras cardiomiopatias graves, mesmo na ausência de isquemia, além de outros fatores desencadeantes, que incluem a ação das catecolaminas por defeito dos receptores de rianodina, síndrome de Brugada, síndrome do QT longo, podendo ser precedido por taquicardia ventricular ou Torsades de Pointes. A fibrilação ventricular primária, em que não há evidências de alterações cardíacas, é muito rara e causada por medicamentos, entre eles, alguns antiarrítmicos.

Manifestações clínicas da fibrilação ventricular

Os quadros de fibrilação ventricular apresentam inconsciência em 10 a 20 segundos após o início do evento e, geralmente, os pacientes já chegam no pronto atendimento desacordados e em parada cardiorrespiratória, podendo evoluir rapidamente para morte. A presença de palpitações devido à taquicardia ventricular pode preceder a ocorrência da fibrilação ventricular.

Ao exame físico, pode ser identificada a parada devido à ausência de pulso. Sempre checar os pulsos centrais, em especial as artérias carótidas.

Diagnóstico da fibrilação ventricular

Sempre que houver ausência de pulso deve-se pensar no diagnóstico de fibrilação ventricular,  podendo ser reconhecida no traçado eletrocardiográfico (ECG) e durante a monitorização cardíaca, e iniciar imediatamente a conduta.

A fibrilação ventricular, demonstrada na Figura 1, é caracterizada por ondas bizarras, caóticas, de amplitude e frequência variáveis, totalmente irregular, sem evidência de complexo QRS, e o tremor na linha de base pode ser mais grosseiro ou mais fino.

Figura 1. ECG: Fibrilação Ventricular.
Fonte: http://www.minutoenfermagem.com.br/postagens/2014/12/19/primeiro-estudo-de-pcr-fibrilacao-ventricular/

Manejo da fibrilação ventricular

Se o paciente estiver inconsciente e sem pulso, deve-se pensar em Fibrilação Ventricular, e iniciar imediatamente as compressões cardíacas, além de seguir o protocolo de ressuscitação cardiopulmonar até conseguir monitorizar o paciente, ou até a chegada de um Desfibrilador Externo Automático (DEA).

Em ambiente não hospitalar, na presença do DEA, o choque será recomendado assim que identificado automaticamente a presença de ritmo chocável, como a fibrilação ventricular, porém, este não faz a diferenciação dos ritmos.

Se em ambiente hospitalar a monitorização se torna mais acessível, dessa forma, logo que for identificado no monitor o ritmo de fibrilação ventricular, deve-se proceder com a desfibrilação elétrica.

Alguns fármacos são utilizados para auxiliar no retorno do ritmo cardíaco normal, a escolha inicial é a adrenalina/epinefrina que deve ser administrada na dose de 1 mg, por via intravenosa ou intraóssea, a cada intervalo de três a cinco minutos. Em caso de não reversão, pode ser administrado amiodarona na dose de 300 mg, intravenosa ou intraóssea, e, persistindo ritmo chocável, pode ser repetida após intervalo de três a cinco minutos, na dose de 150 mg. A amiodarona pode ser substituída por lidocaína, na dose de 1 mg/Kg a 1,5 mg/Kg, intravenosa ou intraóssea, e pode ser repetida em cinco a dez minutos, na dose de 0,5 mg/Kg a 0,75 mg/Kg.

Conclusão

A fibrilação ventricular é uma arritmia grave causada pela desorganização do ritmo cardíaco, que cursa com ausência de débito cardíaco. Ao exame físico, o paciente se apresenta inconsciente e com ausência de pulsos. É possível identificar facilmente a fibrilação ventricular no traçado cardiológico, caracterizada por tremor na linha de base, ondas caóticas e ausência de complexo QRS. O manejo do paciente deve seguir o protocolo de ressuscitação cardiopulmonar até obter um DEA, ou monitorizar esse paciente, sendo que a reversão para o ritmo sinusal é feita com desfibrilação elétrica e auxílio de fármacos como adrenalina, amiodarona ou lidocaína.

Portanto, fica expressa a importância de identificar as manifestações clínicas e reconhecer o ritmo de fibrilação ventricular no eletrocardiograma a fim de tomar as condutas adequadas, e em tempo hábil, para evitar a progressão dessa condição para a morte.

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Referências:

Arritmias cardíacas – principais apresentações clínicas e mecanismos fisiopatológicos – https://www.revistas.usp.br/revistadc/article/view/59056

Arritmias: fisiopatologia, quadro clínico e diagnóstico – https://portalrevistas.ucb.br/index.php/rmsbr/article/view/3328/2070

Mecanismos fisiopatológicos das arritmias cardíacas – http://www.arritmiaonline.com.br/files/fisiopatologia.pdf

O ano de 2015 na cardiologia: arritmias e terapia com dispositivos – http://www.arquivosonline.com.br/2016/10705/edicaoatual.asp 

Protocolos de Suporte Avançado de Vida – http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_suporte_avancado_vida.pdf

MATEOS, J. C. P; MATEOS, E. I. P.; LOBO, T. J. Taquiarritmias ventriculares. In: LOPES, A. C. Arritmias cardíacas. São Paulo: Editora Atheneu, 2016.

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