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Hiperglicemia assintomática: o que devemos fazer nesses casos? | Colunistas

Hiperglicemia assintomática: o que devemos fazer nesses casos? | Colunistas

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Entenda o que é hiperglicemia assintomática, quais os seus riscos, como realizar seu diagnóstico e como tratar esse quadro clínico.

O que é hiperglicemia assintomática (HA)?

De acordo com o Ministério da Saúde (MS), a hiperglicemia assintomática é definida como glicemia ≥ 250 mg/dL, sem outros sintomas, além disso, usualmente, esse valor não ultrapassa 600 mg/dL e o paciente também não apresenta sinais de acidose ou hiperosmolaridade.

Dentro desse contexto, não se recomenda a investigação laboratorial adicional. Contudo, o MS preconiza que em casos nos quais a HA tenha sido identificada de modo incidental, após um teste aleatório de glicemia capilar, realizado durante consulta em Atenção Primária, por exemplo, é preponderante que o manejo desse evento envolva uma sequência de etapas voltadas para a investigação do fator precipitador desse quadro (tabela 1). Para tanto, é preciso que este paciente seja acomodado em um local calmo e tranquilo, no qual seja possível se realizar uma nova verificação de glicemia capilar, associada a monitorização de pressão arterial, frequência cardíaca e saturação de oxigênio.

Outro ponto que não pode ser negligenciado é a investigação de outros episódios similares e a existência de fatores ameaçadores da vida em meio a descompensação glicêmica, como os representados por: abuso de substâncias: álcool, cocaína; infarto agudo do miocárdio; acidente vascular cerebral; tromboembolismo pulmonar; pancreatite aguda; traumatismo; desidratação; infecções (respiratória, urinária, celulite, etc); queimadura, a identificação desse fator altera a conduta diante da HA.

Tabela 1 – Fatores com potencial de desencadear uma crise de hiperglicemia assintomática.

Quais são seus riscos?

A hiperglicemia foi associada ao aumento no risco de Doença Cardiovascular e mortalidade por todas as causas, além disso, a hiperglicemia aguda em pacientes diabéticos assintomáticos tem efeitos negativos significativos na mecânica miocárdica sistólica do Ventrículo Esquerdo, principalmente pela redução do Strain Longitudinal Global (Strain corresponde à medida da deformação do tecido miocárdico, avaliado a partir da imagem ecocardiográfica) e da tensão sistólica longitudinal e circunferencial de pico multicamadas, que não foi reversível após três meses de bom controle glicêmico.

As complicações micro e macrovasculares (a retinopatia, a nefropatia e a neuropatia) associadas a HA são bem estabelecidas. Uma revisão da literatura estabeleceu uma possível relação entre a hiperglicemia em níveis abaixo daqueles compatíveis com o diagnóstico de DM2 e anormalidades renais em alguns indivíduos.

Quando e como é diagnosticada?

A HA pode ser identificada durante o rastreamento de DM2, o qual, por sua vez, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) deve ser realizado em todos os indivíduos com 45 anos ou mais, mesmo sem fatores de risco, e para indivíduos com sobrepeso/obesidade que tenham pelo menos um fator de risco adicional para DM2 (Quadro 1). Esse rastreamento utiliza como critério de diagnóstico para DM a glicemia plasmática de jejum maior ou igual a 126 mg/dl, a glicemia duas horas após uma sobrecarga de 75 g de glicose igual ou superior a 200 mg/dl ou a HbA1c maior ou igual a 6,5%. Sendo necessário que dois exames estejam alterados. Quando somente um exame está alterado, é preciso que seja repetido para confirmação (Tabela 2).

Quadro 1- Indicações para rastreamento de DM2, de acordo com a SBD-2022.

Além disso, não menos importante, há que se mencionar um grupo intermediário de indivíduos, que apresentam níveis de glicose elevados, embora sem satisfazer os critérios acima mencionados, esses indivíduos são considerados pré-diabéticos (pré-DM) (tabela 3) e apresentam um elevado risco para desenvolver DM2. Considerando que 25% desses indivíduos progridem para DM2, 50% permanecem como estão, e que 25% revertem para a normalidade, em um intervalo de 3 a 5 anos, é interessante observar que aproximadamente 75% desta população apresenta HA por período prolongado e que este quadro tem sido associado ao aumento no risco de doença cardiovascular e mortalidade por todas as causas. Sendo, portanto, importante intervir para que esse risco seja diminuído.

CritériosNormalPré-DMDM2
Glicemia de jejum (mg/dl)*<100100 a 125>125
Glicemia 2h após TOTG (mg/dl)**<140140 a 199>199
HbA1C (%)<5,75,7 a 6,4>6,4
Tabela 2- Critérios laboratoriais para diagnóstico de DM2 e pré-diabetes, de acordo com a SBD, 2022.

DM2: diabetes tipo 2; GJ: glicemia de jejum; TOTG: teste de tolerância oral à glicose; HbA1c: hemoglobina glicada. * Considera-se como jejum a cessação de ingestão calórica por ≥ 8 horas. ** Carga oral equivalente a 75g de glicose anidra diluída em água.

Quando e como tratá-la?

O tratamento da hiperglicemia depende diretamente da identificação do agente desencadeador da crise, que, por sua vez, irá classificá-la em grave e não grave. A descompensação não grave ocorre, na maioria das vezes, secundária a diagnóstico prévio de DM2 com má adesão à terapêutica. Por outro lado, as demais causas prováveis de hiperglicemia (acidente vascular cerebral, traumatismo, queimadura, pancreatite aguda, entre outras) são consideradas graves e interferem diretamente na conduta diante da presença de HA.

Diante de quadro de hiperglicemia não grave, considerando a Atenção Primária à Saúde, o MS recomenda, a seguinte sequência de etapas:

  1. Verificar adesão ao tratamento medicamentoso;
  2. Otimizar tratamento anti-hiperglicêmico: iniciar/ajustar insulina e/ou hipoglicemiantes;
  3. Controle da glicemia capilar.

Contudo, se a causa da HA é grave, a conduta, ainda de acordo com o MS, deve se fundamentar em contato com Serviço de atendimento móvel/SAMU (192) e transferência do paciente para Serviço de emergência conforme regulação local.

Para os indivíduos com Pré-DM, a SBD recomenda a modificação do estilo de vida, incluindo redução do peso com dieta saudável e aumento da atividade física, o uso de metformina, associado a medidas de estilo de vida também é uma recomendação que deve ser considerada na prevenção do DM2 em pacientes com idade menor que 60 anos, obesos com índice de massa corpórea acima de 35 kg/m2, mulheres com história de diabetes gestacional, na presença de síndrome metabólica, com hipertensão ou quando a glicemia de jejum for maior que 110 mg/dL.

Conclusão

Diante de um paciente com Hiperglicemia Assintomática, é importante se identificar o possível agente precipitador do quadro, caso seja grave, é fundamental que o paciente seja adequadamente regulado para Unidade de Atendimento especializada. Por outro lado, em um contexto no qual o paciente não apresente condição ameaçadora à vida, é preponderante que o profissional da área de saúde saiba intervir de modo adequado, com o intuito de prevenir complicações de cunho micro e macrovasculares (Quadro 2).

Quadro 2 – Investigação de Hiperglicemia Assintomática

Autora: Lisiane Cristine Lopes de Oliveira

Instagram: @lisianeolliveira

Referência:

  1. Cobas R, Rodacki M, Giacaglia L, Calliari L, Noronha R, Valerio C, Custódio J, Santos R, Zajdenverg L, Gabbay G, Bercoluci M. Diagnóstico do diabetes e rastreamento do diabetes tipo 2. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2022). DOI: 10.29327/557753.2022-2, ISBN: 978-65-5941-622-6.
  2. Giacaglia L, Barcellos C, Genestreti P, Silva M, Santos R, Vencio S, Bertoluci M. Tratamento farmacológico do pré-diabetes. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2022). DOI: 10.29327/557753.2022-9, ISBN: 978-65-5941-622-6.
  3. Linhas de cuidado, diabetes mellitus tipo 2 Unidade de Atenção Primária, Hiperglicemia assintomática. Disponível em: <<https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/diabetes-mellitus-tipo-2-(DM2)-no-adulto/unidade-de-atencao-primaria/dm2-aguda/hiperglicemia/assintomatica/#pills-manejo-inicial>>
  4. Bogdanović J, Ašanin M, Krljanac G, et al. Impact of acute hyperglycemia on layer-specific left ventricular strain in asymptomatic diabetic patients: an analysis based on two-dimensional speckle tracking echocardiography. Cardiovasc Diabetol. 2019;18(1):68. Published 2019 Jun 3. doi:10.1186/s12933-019-0876-3

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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