Cardiologia

Hipertensão Arterial Sistêmica: o que dizem as novas diretrizes? | Colunistas

Hipertensão Arterial Sistêmica: o que dizem as novas diretrizes? | Colunistas

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Definição

A Hipertensão Arterial Sistêmica é definida como uma doença crônica não transmissível (DCNT), multifatorial, marcada por níveis pressóricos persistentes de PA sistólica (PAS) maior ou igual a 140 mmHg e/ou PA diastólica (PAD) maior ou igual a 90 mmHg. Os dois parâmetros podem ser elevados, ou só o Sistólico ou só o Diastólico (BARROSO, et al, 2020). Assim, a hipertensão arterial (HA) está relacionada com a ocorrência de doenças cardiovasculares, sendo um fator de risco importante.

Epidemiologia

Dessa forma, é possível observar que a HA acontece de forma mais prevalente entre mulheres com uma maior faixa etária e homens mais jovens, atingindo por volta de 20% da população brasileira. Além disso, é importante ressaltar que com o avanço das décadas, o número de pessoas com hipertensão arterial aumenta, podendo chegar até uma prevalência de cerca de 70% no Brasil, representando uma porcentagem preocupante devido aos riscos da doença (BARROSO et al., 2020). 

Cerca de 95-97% dos casos de HAS são enquadrados como primários ou essenciais, são os idiopáticos. São decorrentes da interação de vários fatores de risco. Os outros 3-5% dos pacientes apresentam a HAS secundária, quando existe uma doença de base responsável por elevar os níveis pressóricos. Entre essas, as principais são a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAHOS), Doença renal crônica e a Hipertensão Renovascular (KUMAR et al, 2010).

Uma vez tendo avaliado a PA do paciente, é possível classificá-la em 6 categorias. Na PA Ótima, os indivíduos possuem uma PA dentro dos valores de referência. Já na PA Normal, possuem a PAs entre 120 e 129mmHg e a PAD entre 80 e 84mmHg (BARROSO, et al, 2020). 

Classificação

Os indivíduos pré-hipertensos tem PAS entre 130 e 139 e PAD entre 85 e 89 mmHg, apresentam riscos cardiovasculares e geralmente são Hipertensos Mascarados. Por último, indivíduos com PAS ≥ 140 mmHg e/ou PAD ≥ 90 mmHg são hipertensos, variando em 3 estágios diferentes (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2019).

Quando a medição que ocorre dentro do consultório e fora são diferentes pode ocorrer o Efeito do Mascaramento e Hipertensão Mascarada. O “Efeito do Mascaramento” é determinado pela pressão menos elevada no consultório do que fora dele, mas sem mudança do diagnóstico. Na Hipertensão Mascarada, no consultório a pressão é menor que fora dele, mas muda o diagnóstico. A HM pode ser detectada em cerca de 7 a 8% dos indivíduos no consultório.

Pode ocorrer também o “Efeito do Avental Branco” e “Hipertensão do Avental Branco”. No primeiro, no consultório a pressão é maior que fora dele, sem a mudança no diagnóstico. Já na “Hipertensão do Avental Branco” (HAB): no consultório a pressão é maior que fora dele, mas há mudança no diagnóstico. A HAB pode ser detectada em cerca de 15 a 19% dos indivíduos no consultório. 

Fatores de Risco

A hipertensão arterial (HA) é uma doença crônica definida por condições multifatoriais para a elevação da pressão arterial sistêmica, portanto, o controle de fatores de risco modificáveis é um ponto chave para regular a pressão arterial, seja esse tratamento medicamentoso ou não  (BARROSO et al., 2020). Dentre os principais fatores de risco não modificáveis, encontra-se idade, sexo e genética como relevantee, com destque para a idade em consequencia do enrijecimento progressivo de grandes artérias com a senescência.  Já os fatores modificáveis são aqueles que podem ser mudados com novos hábitos, como a obesidade associada ao sedentarismo, cujas associações à HA são diretas e lineares, sendo a obesidade presente em 65 a 75% dos casos (BARROSO et al., 2020). A ingestão elevada de sódio parece ser o principal fator de risco modificável para prevenção de controle da HA e Doenças Cardiovasculares associadas, quando o consumo dele está superior a 2g/dia- a elevação da osmolalidade pelo sódio é compensada com aumento volêmico no sangue circulante, o qual eleva a pressão arterial. Ademais, a apneia obstrutiva do sono, ingestão de drogas, medicamentos e álcool também são fatores de risco modificáveis. 

Lesões Órgãos – Alvo

A evolução da HA provoca alterações estruturais e funcionais em órgão alvo- coração, encéfalo, rins e sistema arterial- a partir do choque mais constante e intenso do sangue na parede dos vasos. Portanto, HA é um fator de risco para doenças cardiovasculares e seus valores são usados para a classificação de risco cardiovascular, com uma relação linear  causal e contínua independente da classificação: quanto maior os níveis de PA e mais fatores de risco associados, maior é o efeito pró-aterogênico da HA nas doenças cardiovasculares. 

Controle

De tal modo, medidas dietéticas são alternativas positivas para prevenção, redução e controle da HA, em destaque para a dieta DASH, cujo foco está no controle da hipertensão, redução de riscos de AVE, morte cardíaca e doença renal (BARROSO, et al, 2020). Ela prioriza consumo de frutas, hortaliças, cereais integrais, oleaginosas com moderação e laticínios com baixo teor de gordura, além de redução do consumo de carnes vermelhas, bebidas com açúcar, doces e, principalmente, o teor de sódio nos alimentos, sem estabelecer teto calórico. A dieta mediterrânea também é uma opção viável para redução da PA, mas seu efeito geral na pressão é modesto se comparado ao efeito da DASH que reduz a PAS em até 9,3 mmHg e PAD em até 4.85 mmHg (BARROSO et al., 2020). 

Como aferir a pressão arterial no consultório?

Por outro lado, para que o resultado da aferição da pressão arterial, dentro do consultório, seja o mais fidedigno possível, Barroso, et al. (2020), orienta que o profissional deve estar atento caso o paciente esteja de bexiga cheia e a pouco tempo atrás tenha praticado exercícios físicos, fumado, se alimentado ou ingerido bebidas energéticas ou alcoólicas. Em suma, de acordo com o autor citado, utilizando o método auscultatório da aferição da PA, após a escolha do manguito adequado ao braço do paciente e constatado que o paciente está ciente dos procedimentos e em situação de conforto (antebraço e costas apoiados, paciente sentado há 5 minutos, pernas descruzadas, palmas da mão voltada para cima), a aferição poderá ser iniciada. O manguito deve ser posicionado a 2 ou 3 cm da fossa cubital e posteriormente inflado até que o pulso radial cesse (PAS estimada), depois o estetoscópio será posicionado sobre a artéria braquial e o manguito inflado rapidamente até ultrapassar entre 20 e 30 mmHg o valor estimado da PAS, então uma deflação lenta do manguito será procedida, o primeiro sim que for auscultado será considerado a PAS e o último som será a PAD, após o cessar dos sons ainda deve-se auscultar até 30 mmHg abaixo da PAD, por garantia, por fim os resultados devem ser ditos ao paciente.

Ademais, acordando ainda com as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial (2020), o procedimento a ser executado deve seguir as seguintes orientações: 3 medidas são necessárias e será anotada a média das duas últimas aferições, sendo que o intervalo entre cada procedimento não deve ser menor que 1 minuto, a fim de prevenir possíveis complicações que afetariam o resultado e poderiam lesionar o paciente, a exemplo da hiperemia reativa; deve-se frisar que caso os dois primeiros resultados diferirem em mais 10 mmHg, medidas adicionais podem ser acrescentadas. Além disso, outro fator importante é que na primeira a PA dos dois braços devem ser medidas e a referência será o maior resultado.

Álcool e Hipertensão

Um ponto importante a ser destacado é a relação que o álcool possui com a hipertensão arterial, sendo esse um dos possíveis fatores que podem desencadear a HA a longo prazo e responsável por cerca de 10 a 30% dos casos da Hipertensão arterial (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2019). Dessa maneira, o álcool, de acordo com Souza (2019), pode provocar um efeito chamado de “bifásico-dependente”, o qual se caracteriza por uma redução da pressão arterial (PA), seguida de uma vasodilatação, um aumento da frequência cardíaca e, consequentemente, uma elevação da PA. Esse fenômeno ocorre pelo fato do álcool atuar no sistema nervoso central e desencadear diversas respostas que influenciam o sistema nervoso simpático e a secreção de hormônios. 

Vale ressaltar que alguns empecilhos ocorrem quando procura-se entender como a substância no desenvolvimento da HA age, pois há diversas variantes atuando como a quantidade variável de consumo, as diversas bebidas e suas concentrações (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2019). 

Atenção Básica

Por fim, conclui-se que o controle dos níveis da pressão arterial sistêmica tem grande importância médica, logo, a atenção básica à saúde tem papel fundamental na melhoria das condições de saúde da população, quanto à prevenção da hipertensão arterial. Então dentro das possíveis medidas de prevenção primária da HA, o principal objetivo será estimular mudanças no estilo de vida (MEV) da população, com enfoque na prática de exercícios físicos, dieta saudável, controle de peso e controle do etilismo e tabagismo. Algumas estratégias podem ser tomadas para implementar o poder da atenção básica, a exemplo de programas educacionais voltados à conscientização quanto aos riscos da HA e a importância de MEVs, além da realização de campanhas periódicas de aferição da PA da população, podendo utilizar os dias Municipal, Estadual e/ou Nacional de Prevenção e Combate à HA, a fim de propalar mais fortemente as campanhas de prevenção (BARROSO et al., 2020).

Autor(a): Sofia Cisneiros Alves de Oliveira – @sofiacisneiros

Referências:

BARROSO, Weimar Kunz Sebba et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia [online]. 2021, v. 116, n. 3 [Acessado 9 Junho 2021] , pp. 516-658. Disponível em: https://doi.org/10.36660/abc.20201238.  Epub 23 Abr 2021. ISSN 1678-4170. 

KUMAR, Vinay; et al. Robbins e Contran: Patologia, Bases Patológicas das Doenças. 8ªed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Rev. da Soc. Bra. de Cardiologia. Vol. 107. Nº 3. Rio de Janeiro, 2019.

SOUZA, D. Álcool e hipertensão. Aspectos epidemiológicos, fisiopatológicos e clínicos. Rev Bras Hipertens, v. 21, n. 2, p. 83-86, 2014. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2018/03/881413/rbh-v21n2_83-86.pdf. Acesso em: 16 jun. 2021.

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