Colunistas

Infecções Sexualmente Transmissíveis na adolescência, dificuldades no acolhimento | Colunistas

Infecções Sexualmente Transmissíveis na adolescência, dificuldades no acolhimento | Colunistas

Compartilhar

Anna Amarilys

10 minhá 13 dias

Como conversar sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) com um adolescente? A adolescência já é em si uma fase dita “complicada”, a educação sexual, um assunto polêmico, como lidar com esses desafios na prática clínica? Que profissional deve realmente abordar esse assunto com um adolescente? Será função do pediatra? Clínico geral? Médico da atenção primária? Ginecologista ou Urologista? Ou até mesmo um infectologista? Essas dúvidas podem afogar nosso paciente e seu responsável e ele pode ir e vir de vários médicos sem o seu diagnóstico e tratamento correto, podendo gerar mais complicações do que a própria doença física. Veremos as dificuldades no acolhimento desse paciente e como podemos amenizar isso.

IST na adolescência

A IST por si só já é um grande tabu na nossa sociedade, na qual o ato sexual é reprimido, visto como inadequado, impróprio ou indevido, nessa idade principalmente, o que quase inviabiliza falar sobre o assunto em uma consulta médica com um adolescente. O adolescente para se abrir com algum profissional ou até mesmo seu responsável tem uma grande dificuldade, e devemos lembrar disso para tentar estabelecer uma relação médico-paciente mais sólida e confiável, o adolescente precisa sentir que tem um aliado para o qual se abrir sobre sua vida sexual.

Quem é considerado “adolescente”?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a adolescência se inicia aos 10 anos e termina aos 19 anos completos e assim também considera a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define essa faixa etária dos 12 aos 18 anos, e em situações especiais até aos 21 anos. O Ministério da Saúde considera ainda uma faixa etária maior, dos 10 aos 24 anos.

Com tantos intervalos diferentes a dificuldade só aumenta o atendimento do adolescente afligido, porém dos 10 aos 24 anos ao menos uma instância poderá apoiar o adolescente e a faixa coincidente possui uma maior segurança na hora de procurar ajuda. Deve-se lembrar que a heterogeneidade não é só na divergência desses intervalos, mas sim dentro do meio adolescente, que irá na maioria das vezes contra sua própria vontade na consulta, e o profissional médico deve saber lidar com esse tipo de paciente com certa habilidade e sabedoria.

O que é uma IST?

Mas afinal, o que é uma IST? A SBP define: “As IST são causadas por vírus, bactérias ou outros microrganismos, transmitidos principalmente por contato sexual (vaginal, anal e/ou oral) sem o uso de preservativo masculino ou feminino, com uma pessoa que esteja infectada. A transmissão pode ainda acontecer de mãe para filho durante a gestação, o parto ou a amamentação (transmissão vertical), e pela utilização de seringas, agulhas ou outro material perfurocortante partilhado”.

Na maioria das vezes, o adolescente não se abrirá facilmente sobre sua vida sexual, se ela é ativa ou não, ou se utiliza materiais perfuro cortantes em uso de drogas ilícitas, por isso os médicos devem pensar em alternativas de abordagem e explicação mais clara para melhor entendimento com menos termos técnicos, e também de uma forma não tão agressiva, porém que não menospreze a gravidade de cada doença. Lembrando que a OMS adotou o termo “infecção” ao invés de “doença” na sigla, IST para DST, para até deixar mais claro que a transmissão pode ser realizada mesmo se um dos participantes do ato sexual não tiver sinais ou sintomas.

Quais as ISTs mais comuns nos adolescentes do Brasil?

No Brasil, as ISTs ainda não são de notificação obrigatória (nem compulsória imediata ou semanal), por isso epidemiologicamente há um vácuo de informações sobre quantos adolescentes são infectados, ou se mesmo há a procura de um profissional de saúde. Geralmente só é procurado quando há exacerbação de um sintoma ou sinal. Sabendo disso, ainda se pode elencar algumas doenças como as mais comuns no país, tais como a Gonorreia, Clamídia, Sífilis, HPV e Herpes Genital, como se vê no gráfico a seguir:

Mesmo os dados não sendo estritamente sobre a faixa etária a que se destina este artigo, deve-se lembrar, que essas doenças podem levar a agravos como infertilidade, câncer, além de sintomas incômodos em qualquer faixa etária, e por isso deve ser investigada o mais precocemente possível por uma questão de saúde pública.

Além dessas, deve-se citar outras doenças, como o HIV, que sem tratamento pode evoluir para AIDS, e outras menos ouvidas, pois causam sintomas às vezes leves e/ou passageiros como, Candidíase, Tricomoníase, Vaginoses Bacterianas e Verrugas genitais. Essas citadas ainda são as mais “conhecidas” pelos adolescentes, porém saber somente o nome não ajudará nosso paciente.

Educação sexual, porque é necessária?

No que a educação sexual ajudaria o adolescente? A resposta mais básica para essa pergunta sobre um assunto polêmico no nosso país seria: prevenção. A prevenção é a chave da educação sexual precoce, no início da adolescência, aos 10 anos, como indicam as instâncias especialistas no assunto. A educação sexual, é uma forma do adolescente saber mais sobre o que acontece no seu corpo na puberdade, fase praticamente obrigatória ao ser humano, e por que passar por uma fase de mudanças tão grandes, difíceis, diferentes sem saber o que está acontecendo? No entanto, para uma boa parcela da sociedade é ainda “muito cedo para falar sobre isso” ou é até mesmo julgada como uma forma de “influência para iniciação sexual precoce” saber como se prevenir de doenças, infecções que só lhe causarão prejuízo.

Estudos apontam que o risco de contrair uma IST somente aumenta de acordo com a falta de orientação. Números alarmantes mostram que essa faixa etária é totalmente vulnerável às ISTs, porque não sabem a importância ou como se utiliza um preservativo, ou que existem para ambos sexos biológicos, fatores culturais e sociais bloqueiam o conhecimento e orientações sobre as doenças que podem acometê-los. A baixa escolaridade também é outro fator que aumenta esse risco. Um estudo feito em Caxias, MA, mostrou que a maioria dos adolescentes conhecem o HIV/AIDS, e como lidar com a outra infinidade de doenças?

Figura 2:  Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) mais conhecidas pelos adolescentes estudantes de escolas públicas de Caxias – MA, 2016. Fonte: http://adolescenciaesaude.com/detalhe_artigo.asp?id=703

Ainda fica a dúvida, de quem deveria ser a responsabilidade de transmitir esse conhecimento, fornecer essas orientações, a educação em saúde, a educação sexual, é papel de quem? Pais? Escola? Governo? Existem várias Políticas Públicas, promovidas por organizações da saúde no país, porém serão elas o suficiente? Houveram até sugestões duras, como mostrou a Ministra Damares, responsável pelo ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que defendeu que as escolas orientem seus alunos à abstinência sexual. No entanto, instituições médicas preferem que seja feita a educação, porque incentivar a abstinência nessa fase deixa os adolescentes sem conhecimento sobre o assunto, deixando-os mais vulneráveis ainda após o início de sua vida sexual.

Quem poderia atender esse adolescente? Qual especialidade recorrer?

Existem ainda dúvidas depois disso tudo discorrido aqui, onde esse adolescente será atendido? Desde 1974 há no Brasil uma especialidade para essa faixa etária chamada Hebiatra. Pouco se conhece e é divulgada e é sempre atrelada à Pediatria, porém, os hebiatras são os médicos mais habilitados e preparados para lidar com os temas ligados à adolescência como a puberdade, estirão de crescimento, mudanças corporais, físicas e psicossociais. Caso não haja na região esse especialista, o Pediatra deve ser o mais recomendado para acolher esse paciente, e depois um Clínico Geral. Ainda no caso do sexo feminino, pode-se procurar um(a) Ginecologista/Obstetra. No sexo masculino, prefere-se um Urologista que também atende pacientes do sexo oposto, tal como o Infectologista que atende todas as faixas etárias e ambos sexos. O mais acessível à comunidade como um todo é o Médico de Família e Comunidade, ou mais conhecido como o médico do “postinho” ou UBS, que também tem competências imensuráveis para tratar todo e qualquer paciente na atenção primária.

Figura 3: Qual especialidade buscar?  Fonte: Autoria própria.

Conclusão

Durante todo o texto foi exposto as dificuldades no acolhimento do adolescente no contexto das ISTs, diante disso, vê-se que é possível acolher esse adolescente, sendo um especialista em adolescência ou não, tendo ponderações e melhor uso das habilidades médicas apreendidas para tratar essa faixa etária tão especial.

Mesmo o assunto sendo um assunto polêmico e de pouco conhecimento na comunidade, é possível com educação em saúde e educação sexual que esse quadro melhore, reduzindo os números alarmantes que ainda vemos de casos dessas infecções acometendo os brasileiros, e acometendo uma faixa etária tão importante para o crescimento e futuro do Brasil.

 Espera-se que o preconceito seja deixado de lado, que a ciência predomine nas decisões que devam ser por ela tomadas, e que o tabu sobre essas questões de saúde pública seja, um dia, inexistente, só assim o acolhimento do paciente poderá ser realizado de forma correta, clara, objetiva e eficiente.

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

Referências:

 REFLEXÕES SOBRE VULNERABILIDADE DOS ADOLESCENTES A INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS- https://periodicos.unifap.br/index.php/pracs/article/view/1668

 Conhecimento sobre as infecções sexualmente transmissíveis por estudantes adolescentes de escolas públicas. – http://adolescenciaesaude.com/detalhe_artigo.asp?id=703

 Infecções Sexualmente Transmissíveis na Adolescência, Guia Prático de Atualização, Departamentos Científicos de Adolescência e Infectologia, SBP –https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/21188b-GPA_-_Infec_Sexual_Transmiss_Adolesc.pdf

Manual de Orientação, Consulta do adolescente: abordagem clínica, orientações éticas e legais como instrumentos ao pediatra – https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/21512c-MO_-_ConsultaAdolescente_-_abordClinica_orientEticas.pdf

Infecções sexualmente transmissíveis na adolescência (ISTs) – https://ipemed.com.br/blog/ists-na-adolescencia/#:~:text=%C3%89%20estimado%20que%201%20a,v%C3%ADrus%20HPV%20(papilomavirus%20humano).

Abstinência sexual: entenda a estratégia da ministra Damares para combater a gravidez na adolescência – https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/01/abstinencia-sexual-entenda-a-estrategia-da-ministra-damares-para-combater-a-gravidez-na-adolescencia-ck5swry7j0b9o01mv88pk2b2e.html

A importância do hebiatra, o médico dos adolescentes – https://drauziovarella.uol.com.br/hebiatria/a-importancia-do-hebiatra-o-medico-dos-adolescentes/

Compartilhe com seus amigos:
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.