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Infectologista relata complicações em pacientes por “tratamento precoce” de COVID-19

Infectologista relata complicações em pacientes por “tratamento precoce” de COVID-19

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Sanar

4 minhá 41 dias

O médico infectologista Fernando Martins Selva Chagas, diretor do Complexo Hospitalar Clementino Fraga, referência para tratamento da Covid-19 em João Pessoa, relatou ao G1 casos de pacientes que tiveram quadro de saúde agravado por causa do “tratamento precoce” de COVID-19, após o uso de cloroquina, azitromicina e hidroxicloroquina no início da manifestação dos sintomas. 

“Vários pacientes me relataram que tomaram os medicamentos [nos primeiros dias de sintomas da Covid-19] e não melhoraram. Um médico veio para o hospital, tinha tomado ivermectina, hidroxicloroquina, azitromicina, complexo de vitamina D e zinco. Ele evoluiu pra forma grave [da Covid-19], foi internado. Durante a internação, a gente conversou sobre o fato dos pacientes não responderem [ao tratamento precoce]”, disse o médico à reportagem. 

O infectologista, que está na linha de frente desde março de 2020, também relata situação parecida em pessoas que tomavam os medicamentos por acreditar que eles poderiam atuar de forma preventiva. Vale lembrar que cientistas já comprovaram que não há qualquer tipo de tratamento preventivo contra a COVID-19

“Atendi paciente que já vinha tomando ivermectina há seis meses, porque acreditava que não ia pegar COVID-19. Peguei paciente que ficou muito tempo internado porque começou a tomar corticoide no primeiro dia de doença”, relembra o especialista. 

Complicações do “tratamento precoce” de COVID-19

Apesar de muito difundida, a informação de que o tratamento precoce minimiza as complicações da doença no corpo carece de evidências científicas. “Já se criou uma imagem que, se começou a doença, tem que tomar azitromicina, ivermectina e hidroxicloroquina pra tentar tratar. Por conta dessa informação, que ficou difundida demais, o difícil é a gente desmistificar”, ressalta Chagas. “O que falta é orientação. Os pacientes entendem quando são bem orientados”. 

Além disso, há o risco de que medicamentos usados sem orientação médica, seja visando a prevenção ou o combate na fase inicial do contágio, provoquem outras doenças graves.

“Já atendi pacientes que desenvolveram, por exemplo, pancreatite por causa do abuso de medicamentos, principalmente ivermectina. Pacientes que estavam utilizando ivermectina há meses, desenvolveram Covid e foram pra forma grave. Pacientes com arritmia cardíaca possivelmente por conta da azitromicina e por aí vai”, relatou Chagas, que também é presidente do Comitê Municipal de combate à COVID-19 da capital paraibana. 

Vitamina não ajuda

A reportagem do G1 mostra ainda que o profissional da saúde destacou que há médicos que fazem recomendações de tratamento precoce. Chagas acredita que isso acontece porque é difícil filtrar a grande quantidade de informações dispostas em estudos na área da Medicina, mas também por causa de convicções pessoais. 

“Tem a questão ideológica associada, a questão político-partidária associada, que faz com que muita gente só enxergue os estudos que convêm, não aqueles que têm mais força no critério científico”, destacou.

O infectologista também lamentou o aumento na frequência de prescrição de vitaminas como tratamento. “Não existe isso. A gente descobriu que muita gente que evoluiu pra forma grave tem hipovitaminose D, tem déficit de vitamina D. Mas isso não quer dizer que vitamina D trate a doença. Não trata”. 

As únicas medidas que fazem diferença na prevenção à COVID-19 continuam sendo o uso de máscara e de álcool em gel e distanciamento social.

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