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Julho Amarelo – Hepatites Virais Agudas | Colunistas

Julho Amarelo – Hepatites Virais Agudas | Colunistas

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Mariane Capitani Fraia

10 min há 51 dias

Julho Amarelo

Julho Amarelo é uma campanha que foi instituída no Brasil no Ano de 2019 com o intuito de prevenir a ocorrência das hepatites virais.  

Definição

Hepatites virais são infecções agudas causadas por vírus que atingem o fígado e causam lesões necroinflamatórias, podendo desencadear alterações leves, moderadas ou graves. Na atualidade as hepatites virais se dividem em 5 subtipos que são: Vírus da hepatite A (HAV), vírus da hepatite B (HBV), vírus da hepatite C (HCV), vírus da hepatite D ou delta virus (HDV) e  vírus hepatite E (HEV), pertencentes a famílias Picornaviridae, Hepadnaviridae, Flaviviridae, Deltaviridae e Hepeviridae. Além disso, alguns outros vírus como, Herpesviridae, citomegalovírus, Epstein-Barr podem causar a doença hepática aguda inflamatória 

Epidemiologia 

No Brasil as  hepatites mais comuns são as hepatites A, B e C, e podem ser encontradas ainda, em menor frequência, casos de hepatite D majoritariamente na região Norte e hepatite E. Atualmente existem 235 milhões de casos de hepatite B e C no mundo, no qual 1,4 milhões morrem por ano, sendo a segunda maior causa de morte no mundo após a tuberculose, nove vezes mais pessoas são infectadas com hepatite do que HIV.  No ano de 2017 foram infectados cerca de 2,85 milhões de pessoas no mundo. Nos anos de 2014 a 2018 foram notificados ao SINAN ( Sistema de Informação de Agravos e Notificações ) 632. 814 casos confirmados de hepatites virais. Atualmente há cerca de 689. 933 casos no Brasil, dos 5 subtipos a que mais predomina é a HCV com 262.815, consecutivamente a HBV com 254.389.

Fonte: http://indicadoreshepatites.aids.gov.br/
Tabela: TABNET-  MS/SVS/DCCI – Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Dados até 31/12/2020;

Fisiopatologia

A hepatite viral caracteriza-se por uma necroinflamação hepática aguda, acredita-se que a lesão hepática é mediada por uma reação citotóxica das células T contra o hepatócito, que foi infectado pelos organismos responsáveis por expressar o antígeno de superfície. Além disso, há uma ação das citocinas pró-inflamatórias, células NK ( glóbulos brancos que atuam na imunidade inata) e a citotoxicidade celular desencadeiam a função de necroinflamação nos hepatócitos. A eliminação do patógeno pode não ser  de 100% e em alguns casos desenvolve-se  a hepatite crônica, entretanto, isso está relacionado com o tipo de vírus infectante.

Em alguns casos de hepatites agudas microscopicamente podemos encontrar  uma necrose focal ou lobular (necrose dispersa) com um infiltrado portal muitas vezes mínimo ou até inexistente, com o tratamento correto ocorre a regeneração dos hepatócitos (desaparecimento dos hepatócitos necrosados e proliferação de células por mitose bi ou trinucleadas que se no final se diferenciam em hepatócitos ou células ductais), macroscopicamente podemos encontrar um aspecto normal ou com leves pontinhos, processos necróticos podem ou não serem encontrados.

Quadro clínico

Durante a fase aguda, os sintomas variam de assintomáticos, pré-ictérico, ictérico ou grave e fulminante. Após a infecção pelo vírus ocorre um período de incubação que de acordo com o agente causador pode ocorrer de dias a semanas. Durante este período os sintomas são inespecíficos mas, podem incluir náuseas, fadiga, perda de apetite, sintomas gripais como coriza, espirros ou dor no quadrante superior direito (QSD) do abdome (local em que se encontra o lobo direito do fígado).

Na fase pré-ictérica os pacientes podem apresentar sintomas imunomediados (quando o sistema imunológico começa a atacar as células que estão saudáveis) como, erupções cutâneas, urticárias, artralgias e febre que podem ser observada em cerca de 10% a 20% dos indivíduos, alterações laboratoriais como leucopenia e linfocitopenia podem ser encontradas. 

A fase ictérica nem sempre é comum, porém quando ocorre, podemos evidenciar fadiga, anorexia, náuseas, disgeusia (diminuição ou distorção do paladar), icterícia, colúria ( urina escura), acolia (fezes clara) e perda de peso. Ao exame físico podemos evidenciar, icterícia, sensibilidade hepática, hepatomegalia e esplenomegalias. Podem ser encontradas, nos testes laboratoriais altos níveis de bilirrubina sérica total  e direto, níveis de aminotransferase 10 vezes acima do limite. Além disso podemos ter uma associação de hepatite aguda colestática com a icterícia que em tempos prolongados podem desencadear prurido nos pacientes, os sinais clínicos e laboratoriais podem melhorar de 1 a 3 semanas, entretanto, alguns pacientes podem  sofrer recaídas.

As formas fulminantes caracterizam-se por sinais de insuficiência hepática, mudanças de comportamento, agressividade, distúrbios do sono, encefalopatia hepática. Em casos de extrema gravidade desencadeiam coma e hemorragia generalizada.

Fonte: Goldman Cecil Medicina – vol. 2. 24ª edição
Figura:  Mostra o curso típico da hepatite viral aguda.
Manifestações clínicas da hepatites virais    
Fases de infecçãoDuraçãoManifestações (podendo variar de acordo com o vírus)
Inoculação2 a 20 semanasVírus detectável no sangueNíveis de aminotransferase e bilirrubina normais Anticorpo não detectável
Pré-icterícia3 a 10 diasSintomas não específicos ( fadiga, anorexia, náuseas, dor no QSD)Aumento de níveis de aminotransferasePico de viremiaSintomas imunomediados (erupções cutâneas, urticária, artralgia, febre)
Icterícia1 a 3 semanasIcterícia, colúria, acoliaProgressão dos sintomas inespecíficosPode apresentar perda de peso, disgeusia e prurido Desenvolvimento de hepatoesplenomegalia Níveis de aminotransferase 10x acima da referência Aparecimento de anticorpos Diminuição da viremia Manifestações extra-hepáticas (Raras): meningite asséptica, encefalite, convulsões, paralisia, ascendente flácida, síndrome nefrótica, artrite soronegativa.
Recuperação Até 6 mesesDesaparecimento dos sintomas gradualmente Aumento dos níveis de anticorpos Normalização dos níveis de aminotransferase e bilirrubina
CrônicaApós 6 mesesSintomas inespecíficosEm alguns casos pode apresentar fadiga, distúrbios do sono, dor no hipocôndrio direito e entre outros.
Fonte: Goldman Cecil Medicina – vol. 2. 24ª edição
Tabela:  Mostra Manifestações clínicas da hepatite viral

Diagnóstico

O diagnóstico de hepatite aguda é baseado nos elevados níveis de séricos de aminotransferases, altos níveis de bilirrubina total e direta na fase subictérica ou ictérica, em casos de hepatite colestática nota-se elevados níveis de fosfatase alcalina. O teste sorológico é essencial para identificar o agente etiológico, já a biópsia hepática não se faz necessária. Assim que o caso de hepatite aguda é confirmado ocorre a notificação compulsória para o departamento estadual e/ou nacional de saúde assim como prevê a portaria de no – 204 de Fevereiro de 2016.

Tratamento

Para o tratamento ocorre uma associação de antiviral para o HBV e HCV, bem como, é solicitado ao paciente que  evite o consumo de álcool.  Relações sexuais sem o uso de preservativos devem ser evitadas, para os casos de hepatites subfulminantes ou fulminantes quando ocorre a insuficiência hepática é avaliada a possibilidade de um  transplante do órgão.

Prognóstico

O prognóstico de hepatite viral depende do tempo em que ocorre a doença, avaliando-se o tempo de protrombina, os níveis de bilirrubina e lactato, caso os níveis estejam abaixo de 40% do valor de referência pode ser indicado a hospitalização. Ainda, há casos fulminantes que podem levar à morte, entretanto são raros. Sinais de agravamento  persistente como icterícia, ascite, diminuição do tamanho do fígado podem indicar prognóstico ruim. Exames laboratoriais que indicam os níveis séricos da aminotransferase ou níveis de viremias não tem valor prognóstico.

Prevenção

Após serem apresentados todos esses dados podemos evidenciar a importância de prevenção e conscientização da população na campanha Julho Amarelo que atua no combate das hepatites virais. Mesmo  no Brasil as hepatites mais comuns sendo a Hepatite B e C é importante ainda fazer o controle de hepatite A que tem uma transmissão fecal-oral e pode acometer crianças menores de 5 anos. Para a prevenção da doença em específico da hepatite B é necessário que a vacinação esteja em dia, ou seja, em bebês a mesma ocorre aos 2, 4 e 6 meses, já pessoas que não foram vacinados na infância é necessário a aplicação de 3 doses com 6 meses de intervalo, a vacinação de hepatite B protege contra hepatite D, uma vez que o HDV precisa da cápsula viral do HBV para infectar a pessoa. Além disso, é de suma importância evitar relações sexuais sem o uso de preservativos (masculino ou feminino). É necessário ainda evitar a transmissão vertical (mãe para filho), por isso o ideal é que a gestante faça acompanhamento durante a gestação com o obstetra. Para a prevenção de Hepatite C é necessário evitar o compartilhamento de perfurocortantes como seringas ou agulhas. 

Não deixe de se cuidar, pois a prevenção é a melhor forma de viver bem!

Autor(a) : Mariane Capitani Fraia  – @marii_fraia

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

Anatpat: Anatomia Patológica para Graduação – Peças e Lâminas. Disponível em: http://anatpat.unicamp.br/lamfig1.html

BRASILEIRO, F. G., et al. Bogliolo Patologia. 9. ed. – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016. cap. 23 – Fígado

Brasil, 2016. Portaria nº 204, de 17 de fevereiro de 2016. Define a Lista Nacional de

Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública nos serviços de

saúde públicos e privados em todo o território nacional, nos termos do anexo, e dá outras providências. Brasília. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2016/prt0204_17_02_2016.html

Brasil, 2019 – Biblioteca virtual em saúde (bvs) – Ministério da Saúde, Julho Amarelo”: Mês de luta contra as hepatites virais. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/Lei/L13802.htm

Brasil, 2020. Boletim epidemiológico: hepatites virais

2020.Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2020/boletim-epidemiologico-hepatites-virais-2020

Brasil, 2020,  Departamento de doenças de condições crônicas  e infecção sexualmente transmissíveis – Ministério da saúde – O que são Hepatites virais. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/hv/o-que-sao-hepatites-virais

Brasil, 2020 –  Ministério da Saúde. Departamento de doenças de condições crônicas  e infecção sexualmente transmissíveis – Prevenção e Profilaxias -. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/prevencao-e-profilaxias

Cadernos de Saúde Pública, 1999 – 2020 – DATASUS – Hepatites Gerais. Disponível em: http://indicadoreshepatites.aids.gov.br/

PEREIRA, Gerson Fernando Mendes et al. HIV/aids, hepatites virais e outras IST no Brasil: tendências epidemiológicas. 2019. Disponível em: https://www.scielosp.org/pdf/rbepid/2019.v22suppl1/e190001/pt

 ROBINS & COTRAN, et al. Patologia: Bases Patológicas das Doenças. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. cap. 18 – Fígado e Vesícula Biliar

ROUQUAYROL, M. Z. Epidemiologia & Saúde. 8. ed. Rio de Janeiro: Medbook, 2018. cap. 11 – Aspectos Epidemiológicos das Doenças Transmissíveis, p. 187-216

TIMÓTEO, Maria Vitória Fernandes et al. Perfil epidemiológico das hepatites virais no Brasil. Research, Society and Development, v. 9, n. 6, p. e29963231-e29963231, 2020.

https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/3231/3678

WEDERMEYER , Heiner; PAWLOTSKY, Jean-michel. Hepatite viral aguda. In: GOLDMAN, Lee et al. Goldman Cecil Medicina. 24ª. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. v. 2, cap. 150, p. 1104-1105

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