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Libido: quais dúvidas mais comuns em uma consulta ginecológica?

Libido: quais dúvidas mais comuns em uma consulta ginecológica?

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Libido: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!

A libido é um importante marcador que auxilia na avaliação da saúde sexual. Durante uma consulta ginecológica, deve-se promover um ambiente de segurança que proporcione a paciente a expor suas questões relacionadas a sua saúde ginecológica, incluindo a libido.

A avaliação da libido ajuda o médico a compreender se existe alguma alteração ou disfunção sexual. Essa disfunção precisa ser tratada adequadamente.

Essa avaliação é comumente realizada na anamnese no campo relacionado aos antecedentes sexuais, como a presença ou ausência dessa atividade, de orgasmo, número de parceiros sexuais, anticoncepção e outros.

O que é a libido?

A palavra “libido” é derivada do latim e significa desejo ou anseio. 

Pela teoria desenvolvida por Sigmund Freud, um dos mais importante neurologista e psiquiatra do século XIX, a libido é como um impulso indispensável para preservação da humanidade pela perspectiva da psicanálise.

No contexto das ciências, o conceito da libido está apoiado na teoria de Freud, mas direcionada a energia sexual e se associa fatores emocionais e psicológicos. 

A resposta sexual humana é um conjunto de fenômenos que reúnem alterações anatômicas e fisiológicas ao estímulo sexual, na qual a libido está associada diretamente ao aspecto energético relacionada a esse estímulo.

A disfunção do desejo sexual hipoativo (baixa libido) pode derivar de fatores psicológicos e emocionais ou ser secundário a problemas hormonais e/ou intervenções cirúrgicas.

Contudo, as alterações da libido também podem ser secundárias a transtornos do orgasmo ou à dor durante o ato sexual (dispareunia, vaginismo e outras condições).

Como a libido impacta a saúde da mulher?

A diminuição ou o aumento da libido, do prazer e da receptividade sexual são alterações da função sexual que podem impactar muito a saúde da mulher, principalmente em sua percepção de bem-estar e qualidade de vida.

Existem várias etiologias relacionas as disfunções sexuais femininas, nas quais se destacam:

  • Hormonal/endócrina
  • Psicogênica
  • Neurogênica
  • Vasculogênica

Dessas, a hormonal é a que comumente desempenha o maior papel, interferindo na libido, ressecamento vaginal e outros fatores.

Para avaliar adequadamente os efeitos das disfunções sexuais nas pacientes, é preciso realizar uma boa anamnese e exame físico ginecológico que contemple principalmente a região pélvica.

Os exames laboratoriais para verificação do perfil hormonal também são recomendados e deve incluir o hormônio folículo-estimulante hipofisário (FSH), o hormônio luteinizante (TSH) e os níveis de testosterona e estradiol.

Principais condições que podem afetar a libido feminina

Múltiplas condições clínicas podem alterar a libido, seja aumentando ou diminuindo seu nível. Tais alterações podem sugerir, inclusive, doenças e/ou transtornos sistêmicos ou específicos. 

A diminuição da libido associada a sintomas como galactorreia, amenorreia e infertilidade pode ser associada a hiperprolactinemia, por exemplo, e o aumento associado a um quadro psiquiátrico de mania ou a sífilis.

De forma geral, essas situações ainda podem estar vinculadas ao uso de medicamentos como os inibidores seletivos dos receptores de serotonina (ISRSs), como sertralina e fluoxetina, por exemplo.

Métodos contraceptivos

Métodos contraceptivos medicamentosos como a injeção do acetato de medroxiprogesterona tem a diminuição da libido como efeito adverso muito frequente, assim como o ganho de peso.

A reposição hormonal é um outro tratamento medicamentoso comum que provoca a redução da libido. Especialmente em mulheres durante a menopausa, os SERMS podem ser indicados.

Os moduladores seletivos do receptor de estrogênio (SERMs) são drogas que atuam como antagonistas e agonistas do receptor de estrogênio e inibem a conversão de androgênio em estrógeno nos tecidos por inibição enzimática.

Como avaliar a libido?

Para avaliação da libido, é preciso destacar que os valores séricos da testosterona não são adequados para tratamento ou diagnóstico.

O diagnóstico sistêmico deve ser realizado por meio de entrevista com a paciente e a utilização de escalas como o Quociente Sexual – Versão Feminina (QS-F) pode ser muito útil para delimitação da causa.

Orientações em casos de baixa libido

A prevalência de baixa libido entre mulheres é tema de muitas pesquisas atualmente, mas que encontra limitações devido a complexa natureza e apresentações dos problemas sexuais do público feminino.

Condições que envolvem baixa libido podem estar relacionadas a alguns fatores, como:

  • Uso de medicamentos (antidepressivos como ISRs ou anticoncepcionais);
  • Fatores psicológicos como ansiedade e/ou tristeza;
  • Falta de interesse no(a) parceiro(a)
  • Entre outros.

De forma secundária a esses fatores, não é incomum que pacientes se apresentem com sentimento de culpa quando apresentam baixa libido. Nesse contexto, o papel do médico é assegurar que a paciente esteja ciente e bem assistida.

Aspectos subjetivos como a confiança e desenvolvimento da intimidade em relação ao próprio corpo e com o parceiro também podem influenciar diretamente na libido. 

A ooforectomia bilateral – retirada cirúrgica dos ovários – também pode ser listada como causa da diminuição da libido. Para essas pacientes, a reposição de testosterona deve ser avaliada.

Por fim, em termos gerais, a dosagem da testosterona pode ser recomendada nesses casos e é comumente utilizada como tratamento.

Orientações em casos de excesso de libido

A avaliação da libido excessiva deve considerar, principalmente, se existe alguma interferência na funcionalidade do indivíduo.

Queixas que expressam a insatisfação sexual independentemente da quantidade de atividade sexual, interferência na vida social ou na saúde mental e a busca desenfreada por sexo devem ser investigadas com atenção.

Nos contextos onde o excesso está relacionado a comportamentos, a indicação padrão é a busca por terapia psicológica.

Além disso, o uso de medicamentos que tendem a diminuir a libido como alguns benzodiazepínicos e inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs) podem ser utilizados.

Advertir a paciente sobre a importância de ter uma relação sexual segura é também uma das principais orientações que deve ser recomendada nessas circunstâncias, sobretudo para evitar as infecções sexualmente transmitidas.

Confira respostas para as principais dúvidas que aparecem no consultório sobre este tema

É necessário esclarecer a paciente que não existe um nível “certo” ou adequado para a libido. Mas que os extremos, seja positivo ou negativo, sempre devem ser investigados para investigar causas que indiquem distúrbios ou doenças.

Em casos em que os pacientes tenham histórico de problemas de saúde mental como:

  • Depressão
  • Ansiedade
  • Estresse ou traumas

Tanto as condições quanto os tratamentos devem ser avaliados em relação a sua interferência na libido.

Cabe dialogar com a paciente também que pode ocorrer uma diferença na percepção da libido quando há a troca de parceiro sexual. Contudo, isso está mais relacionado a aspectos subjetivos do que biológicos.

Fases da vida como a menopausa, gestação e a puberdade são conhecidamente períodos em que as alterações hormonais repercutem sistemicamente, inclusive na libido.

Nesses casos, a suspensão dos anticoncepcionais orais quando eles são a causa das alterações da libido pode ser uma alternativa em muitos casos. O uso do citrato de sildenafila, comercialmente referenciado como Viagra, também pode ser indicado quando a causa da disfunção sexual está interligada a alterações vasculares locais.

Ao contrário do que muitos pacientes acreditam, a sildenafila também pode ser utilizada por mulheres e é importante deixar isso claro na consulta.

Papel do ginecologista na manutenção da saúde e bem-estar da mulher

A avaliação das disfunções sexuais – grupo que inclui a libido – é muito importante para a saúde da mulher. Esse fator deve ser analisado adequadamente, de forma cuidadosa e progressiva, visando o bem-estar da mulher.

Para o sucesso dessa investigação, uma dica importante é assegurar a paciente que as consultas são totalmente sigilosas e que todo o trabalho e tratamento a ser desenvolvido é fruto de um acordo com a paciente.

O tratamento dos distúrbios sexuais inclui além da participação da paciente, o cuidado multidisciplinar em alguns casos específicos. Um bom acompanhamento tem a capacidade de influenciar diretamente no prognóstico. 

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Como visto, a libido não é apenas uma questão de ordem biológica, já que fatores psicológicos podem estar diretamente associados em casos de disfunção da libido. 

O ginecologista é o profissional mais adequado a lidar com as questões da saúde feminina, especialmente em relação a saúde sexual, planejamento familiar e contracepção. 

É importante que seja desenvolvido um vínculo de confiança com a paciente para que ela se sinta confortável e possa expor todas as suas demandas, dúvidas e queixas para que a condução adequada seja realizada.

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Referências bibliográficas

  • Freud, S. (1925). “The Resistances to Psycho-Analysis”, in The Collected Papers of Sigmund Freud, Vol. 5, p.163-74.
  • Tratado de Ginecologia FEBRASGO – 1. ed. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2019. BEREK, J.S.
  • RIBEIRO, C.; ROMEO, G.; CEDRO, M. Yellowbook Fluxos e Condutas: Ginecologia e Obstetrícia. Editora Sanar, 1ºEd, 410p, 2019. 
  • Belcher, R., Sim, D., Meykler, M., Owens-Walton, J., Hassan, N., Rubin, R., & Malik, R. (2023). A qualitative analysis of female Reddit users’ experiences with low libido: How do women perceive their changes in sexual desire? Journal of Sexual Medicine, 20(3), 287-297.
  • Berman, Jennifer R; Berman, Laura; Goldstein, Irwin. Female Sexual dysfunction: incidence, pathophysiology, evaluation, and treatment option. Urology Magazine, volume 54, issue 3, p. 385-391, Sep 1999. Disponível em: https://www.goldjournal.net/action/showPdf?pii=S0090-4295%2899%2900230-7. Acesso em 25 Set 2023.
  • Freitas F, Menke CH, Rivoire WA, Passos EP, organizadores. Rotinas em ginecologia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2011.

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