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Long Covid: O que se sabe sobre os efeitos prolongados da COVID-19? | Colunistas

Long Covid: O que se sabe sobre os efeitos prolongados da COVID-19? | Colunistas

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Introdução

Inicialmente por muitos vista como uma doença respiratória aguda, a COVID-19  rapidamente se provou muito mais ampla, configurando uma condição de potencial acometimento multissistêmico, capaz de provocar impacto também nos sistemas cardiovascular, neurológico, hematológico e gastrointestinal, por exemplo.

Mas, além disso, tão logo a doença tomou proporções pandêmicas e atingiu milhões de pacientes ao redor do mundo, provocando inúmeras mortes, a doença também deixou um enorme número de sobreviventes. Exatamente neles foi possível observar que a apresentação da doença não é necessariamente apenas aguda, uma vez que uma considerável parcela dos pacientes não apresentava recuperação completa após o final do curso agudo, apresentando sintomas residuais, ou mesmo surgiam tardiamente novos sintomas.

“Long Covid”, a Covid prolongada

O termo “Long Covid” tem sido usado coloquialmente para descrever a persistência dos sintomas no paciente diagnosticado com a infecção pelo Sars-Cov-2. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda não existe um consenso com relação à definição e ao tempo de apresentação dos sintomas, mas alguns autores têm utilizado como referência a persistência por mais que 4 semanas como Covid subaguda e por mais que 12 semanas como Covid crônica. Os principais sintomas que persistem são dispneia, tosse, fadiga, dor torácica, síndromes ortostáticas, palpitações, dentre vários outros de uma ampla gama de alterações.

Segundo a própria OMS, dados de uma pesquisa britânica sugerem que aproximadamente 10% de todos os pacientes com teste positivo para COVID-19 persistem com sintomas por um período de 12 semanas ou mais. Isso evidencia a magnitude da carga que o Long Covid é capaz de provocar ao sistema de saúde, em um período em que já está sobrecarregado.

Fatores de risco para o desenvolvimento do COVID 19 subagudo ou crônico

Um estudo do Centro de Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos (CDC) listou a idade avançada e a presença de comorbidades como, além de preditores de doença mais severa, indicadores de prolongamento dos sintomas. Quanto às comorbidades, por exemplo, indivíduos com cinco ou mais condições pré-existentes têm risco cerca de quatro vezes maior de desenvolver Long Covid, quando comparados com os pacientes sem comorbidades.

Já quanto à idade, há a ressalva de que a proporção de pacientes jovens acometidos por Long Covid, embora menor que a dos indivíduos mais velhos, também é consideravelmente significativa. A análise do CDC mostrou que 26% dos pacientes com idade entre 18 e 34 anos não tinham resolução dos sintomas após 21 dias do início da infecção, enquanto em indivíduos com mais de 50 anos quase metade ainda tinham sintomas.

Fadiga persistente

Um dos sintomas persistentes que mais ocorrem após a COVID-19 é a fadiga. Um estudo italiano que acompanhou pacientes em sua recuperação após internação pela doença apontou que, após 2 meses, mais da metade deles ainda apresentava fadiga. Um estudo inglês semelhante, que acompanhou os pacientes por em média 54 dias após a alta da internação pela COVID-19, apontou que, após esse período, 69% dos pacientes ainda tinham fadiga. Tratam-se de números expressivos, que se traduzem em uma queda significativa da produtividade e da qualidade de vida, já que a fadiga limita as atividades a um patamar inferior ao que o paciente apresentava antes da doença.

Disautonomia

A disautonomia, uma condição de mal funcionamento do sistema nervoso autônomo, é uma das alterações de curso prolongado mais comumente observados após a COVID-19, contudo seu mecanismo ainda não é bem definido. É especulado que tenha causa imunomediada, já que é comum em casos de disautonomia desencadeada por infecção a presença de autoanticorpos contra receptores adrenérgicos ou muscarínicos, por exemplo. A restrição prolongada ao leito também é uma possível causa, já que diminui o débito cardíaco sustentadamente e provoca deterioração do barorreflexo e redução da resposta adrenérgica.

A alteração na função autonômica gera no paciente sintomas principalmente relacionados ao ortostatismo. Muitos dos pacientes apresentam queda brusca da pressão arterial quando assumem a posição ortostática, o que pode inclusive provocar pré-síncope ou mesmo síncope. Também é comum a presença de taquicardia ortostática, na qual uma resposta adrenérgica exacerbada é iniciada quando o paciente fica de pé. Como consequência, o paciente pode experimentar palpitações, falta de ar e dor no peito, por exemplo.

Alterações psicológicas e cognitivas

O impacto sanitário, econômico, político e social da pandemia da COVID-19 trouxe, por si só, transtornos em uma parcela significativa da população geral do ponto de vista psicológico. Mas, além disso, dados de um estudo britânico indicam que a própria doença é capaz de causar déficits neuropsiquiátricos nos pacientes, inclusive nos acometidos por doença leve. Foram encontradas quedas de performance cognitiva e alterações na capacidade de atenção visual seletiva e solução de problemas linguísticos, mais frequentemente nos pacientes submetidos à ventilação mecânica. No entanto, disfunção cognitiva também foi observada em uma parcela menor dos pacientes com sintomas leves e tratados ambulatorialmente.

Abordagem

Com uma gama ampla de manifestações, o Long Covid deve ser abordado com uma estratégia de avaliação holística e multidisciplinar do paciente, podendo ser necessária, além da participação do médico-assistente, o envolvimento da terapia ocupacional, medicina de reabilitação, fisioterapia, psicologia e psiquiatria, por exemplo, a depender do quadro do paciente.

Em pacientes com fadiga persistente, deve-se iniciar com a realização de exercícios físicos de baixa intensidade, observando-se a tolerância, seguido de aumento lento e progressivo da intensidade ao longo do tempo, de modo que, gradualmente, o paciente retorne ao patamar anterior à doença, ou ao melhor patamar possível, se houver dano permanente.

Nos pacientes com disautonomia e intolerância ortostática, exercícios não ortostáticos, como ciclismo e natação, devem ser encorajados. O paciente deve também ser orientado quanto a ingestão adequada de líquidos, para manutenção da volemia, além de evitar locais muito quentes e abafados, para prevenir desidratação. Deve, ainda, levantar-se cuidadosamente quanto sentado ou deitado, e evitar ficar de pé por longos períodos. A ingestão de grandes quantidades de alimentos em uma única refeição deve ser evitada, pois causa vasodilatação esplâncnica, capaz de prejudicar a distribuição da volemia. Meias compressivas e elevação de membros inferiores também podem ser úteis, para melhora do retorno venoso. Em casos de sintomas cardiovasculares refratários às medidas não farmacológicas, o médico-assistente pode lançar mão de certos fármacos, a depender do quadro: betabloqueadores, caso haja taquicardia importante e palpitações; clonidina ou metildopa, em caso de hiperativação adrenérgica; e fludrocortisona, em caso de hipotensão ortostática. A ressalva, no entanto, é que alguns desses fármacos frequentemente não são bem tolerados.

Pacientes com anosmia muito persistente podem se beneficiar de treinamento olfatório, na qual é realizada exposição a diferentes odores, de modo a estimular o retorno da capacidade olfativa.

Ademais, medidas como manejo da dor e otimização do tratamento das comorbidades são muito importantes no seguimento do paciente.

Conclusões

O curso agudo da COVID-19 trouxe e ainda traz enorme impacto à população e aos serviços de saúde. No entanto, a recuperação da fase aguda da doença nem sempre significa o fim das suas repercussões à saúde e qualidade de vida do paciente, o que demanda atenção dos profissionais que realizam seu acompanhamento, especialmente na atenção primária à saúde, de modo que, se presente, o Long Covid seja prontamente identificado e as medidas pertinentes sejam rapidamente implementadas, com o objetivo de otimizar a recuperação e a qualidade de vida do paciente.

Autor: João Vitor Borges Barbosa

Instagram: @joaovbbarbosa

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7850225/pdf/clinmed-21-1-e63.pdf

http://www.samj.org.za/index.php/samj/article/view/13141/9649

https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/pdfs/mm6930e1-H.pdf

https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/risk-comms-updates/update54_clinical_long_term_effects.pdf?sfvrsn=3e63eee5_8

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7661378/pdf/thoraxjnl-2020-215818.pdf

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