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Luxação da Patela | Colunistas

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João Hollanda

8 min156 days ago

A luxação da patela, também conhecida como rótula, caracteriza-se pelo deslocamento desta estrutura para o lado de fora do joelho. A patela fica habitualmente apoiada sobre um sulco do fêmur (osso da coxa), denominado de tróclea. As características anatômicas da tróclea estão diretamente relacionadas à luxação da patela, que acontece em pessoas que já têm uma certa predisposição para esta lesão.

Como acontece a luxação da patela?

A patela é normalmente mantida no seu local em função da anatomia côncava da tróclea e, também, por músculos e ligamentos que se prendem nela, com destaque para o Ligamento Patelofemoral medial.

O principal fator predisponente é a tróclea rasa, ou plana, presente em praticamente 100% dos pacientes com luxação da patela. Patela alta e inserção lateralizada do tendão da patela são outros fatores predisponentes eventualmente presentes.

Quando, após um movimento torcional, a patela se desloca, o ligamento Patelofemoral Medial se rompe. Este ligamento tem uma boa capacidade de cicatrização, mas eventualmente ele cicatriza um pouco mais frouxo e perde parte de sua capacidade estabilizadora, facilitando com que novos episódios de luxação aconteçam. Pacientes com diversos episódios de luxação da patela apresentam o que se denomina de luxação recidivante da patela. Cada vez que a patela se desloca os ligamentos estabilizadores ficam mais fracos e a patela se desloca com maior facilidade.

Quanto mais jovem for o paciente no momento da primeira luxação, maior o risco de desenvolver luxação recidivante da patela. Da mesma maneira, quanto menor a energia do trauma que provocou a luxação, maior a chance de isso acontecer.

O que o paciente sente após a luxação da patela?

Usualmente, o paciente tem a sensação de que a patela saiu e voltou para sua posição, imediatamente. O joelho fica inchado e o paciente apresenta dor na parte da frente e de dentro do joelho.

Eventualmente, a patela pode ficar presa na posição deslocada. O próprio paciente pode colocar ela de volta no lugar com a mão ou ao tentar esticar o joelho. Mas também é possível que ele chegue ao hospital com a patela ainda deslocada e o médico a colocará de volta no lugar.

Após algumas semanas, o joelho desincha e a dor é reduzida. Alguns pacientes apresentam melhora completa e levam uma vida normal. Ao desenvolver luxação recidivante da patela, o paciente pode ficar com uma sensação permanente de falta de segurança, como se a patela estivesse na eminência de se deslocar.

Uma das formas utilizadas para caracterizar a luxação recidivante da patela, inclusive, é o que denominamos de “sinal da apreensão”, um teste no qual o ortopedista especialista em joelhos tentará deslocar a patela e o paciente reage com uma forte apreensão e contração da musculatura, para evitar que a patela de fato se desloque.

Exames de imagem

Radiografias simples e tomografia computadorizada devem ser solicitadas para a avaliação dos fatores de risco para a luxação da patela. A ressonância magnética ajuda na avaliação da cartilagem da patela, do ligamento patelofemoral medial e ainda de eventuais lesões associadas. Quando realizada pouco tempo depois de uma luxação, pode apresentar um edema ósseo característico, que ocorre tanto na patela quanto no fêmur, ajudando a clarear o diagnóstico.

Fatores de risco para a luxação da patela

Pacientes que apresentam luxação da patela costumam ter uma anatomia óssea que favorece a luxação. Nos casos em que a patela se desloca repetitivamente, é importante pesquisar os fatores que estão contribuindo para a instabilidade. Essa investigação irá guiar o tratamento.

Os principais fatores do deslocamento da patela são a displasia da tróclea, a patela alta e a lateralização do tendão patelar, como veremos em detalhes, a seguir:

1. Displasia da tróclea

É o principal fator que predispõe uma pessoa a ter uma luxação da patela. Ocorre quando a tróclea (sulco localizado na parte da frente do fêmur) é mais rasa do que o habitual e, com isso, a contenção óssea da patela é limitada. Em geral, pessoas que não possuem displasia dificilmente terão um episódio de luxação, pois, nestes casos, as fraturas ou o rompimento dos ligamentos do joelho tendem a ocorrer antes da patela se deslocar.

Patela Alta

Pacientes com patela alta representam os poucos casos em que a luxação ocorre sem que exista uma displasia da tróclea. Nestas circunstâncias, o que ocorre é que a patela pode se desencaixar da extremidade superior da tróclea, quando o joelho está esticado.

Tendão patelar lateralizado

Algumas pessoas possuem o tendão patelar mais lateralizado, gerando um vetor de força que puxa a patela para fora da tróclea. Isso facilitará a luxação, quando associado a outros fatores que também geram predisposição para a luxação da patela.

Como é o tratamento da luxação da patela?

Primeiro episódio de luxação da patela

O tratamento da primeira luxação da patela é não cirúrgico, na maior parte dos casos. O objetivo inicial é a melhora da dor e do inchaço. Em seguida, o que se deseja é que o paciente recupere a mobilidade e tenha uma adequada cicatrização dos ligamentos estabilizadores da patela.

Nos primeiros dias será preciso fazer uso de medicações anti-inflamatórias, gelo e, eventualmente, imobilizadores. A mobilização do joelho fora dos imobilizadores deve ser iniciada o mais cedo possível, para evitar que o joelho perca mobilidade. Durante o primeiro mês, não se deve dobrar o joelho mais do que 90 graus (equivalente à posição sentada). Isso é necessário para permitir uma adequada cicatrização dos ligamentos.

Frequentemente, o paciente perde massa muscular durante esse período inicial. Por isso, o médico poderá recomendar um tratamento específico para a recuperação desta musculatura e da função do joelho.

Luxação recidivante da patela

Em casos de luxação recorrente, o tratamento inicial deve ser o mesmo descrito para o primeiro episódio de luxação. A diferença, neste caso, é que a recuperação tende a ser incompleta. Ainda que a dor e o edema melhore, a instabilidade e falta de segurança aumentam a cada episódio de luxação. O único meio de se recuperar a estabilidade, nestes casos, é através de cirurgia.

Reconstrução do Ligamento Patelofemoral medial

O primeiro objetivo da cirurgia deve ser recuperar a estabilidade, o que se consegue por meio da reconstrução dos estabilizadores da patela. O procedimento mais feito para isso, atualmente, é a Reconstrução do Ligamento Patelofemoral Medial, que pode ou não ser associado à reconstrução do Ligamento Patelotibial Medial.

O segundo objetivo deve ser melhorar o movimento entre a patela e a tróclea e corrigir os fatores anatômicos que predispõem a luxação da patela. Estes procedimentos adicionais poderão ser indicados de acordo com os achados dos exames de imagem:

Medialização da tuberosidade da tíbia

A medialização da tuberosidade da tíbia pode ser indicada em casos nos quais a força de tração do tendão patelar para fora do joelho é maior do que o normal. Isso pode ser determinado por meio de uma medida tomográfica denominada de TAGT.

Trocleoplastia

A trocleoplastia é um procedimento que visa aprofundar o sulco da tróclea, melhorando o movimento e aumentando a contenção óssea da patela pela tróclea. Ainda que a displasia (tróclea rasa) seja quase uma regra entre estes pacientes, a indicação para a trocleoplastia é bastante limitada e deve ser avaliada caso a caso, já que envolve considerável agressão à cartilagem articular.

Autor: Dr. João Hollanda, Ortopedista – Especialista em cirurgia do joelho; Médico da Seleção Brasileira de Futebol Feminino.

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