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Manifestações osteoarticulares prevalentes em pacientes com HIV | Colunistas

Manifestações osteoarticulares prevalentes em pacientes com HIV | Colunistas

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O aumento da prevalência de pessoas com HIV/AIDS

Diante da era do tratamento antirretroviral de alta potência, felizmente, existe um significante aumento da prevalência e expectativa de vida dos pacientes infectados pelo Vírus da Imunodeficiência Humana ou em Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.

Contudo, as consequências metabólicas perante o tratamento, e a própria doença em si, é fruto de várias pesquisas e publicações na literatura mundial. Esse texto tem como objetivo levantar as principais manifestações osteoarticulares e seus comemorativos nesse grupo de pacientes.

Diminuição da mineralização óssea

É unânime dentre os artigos a altíssimo porcentagem da alteração metabólica de diminuição da mineralização óssea, que cresce exponencialmente mais com a idade comparada ao grupo que não tem a doença.

A justificativa fisiopatológica é complexa, e envolve fatores presentes no hospedeiro, no vírus e nos antirretrovirais, porém a consequência de uma remodelação óssea desregulada mostrando o desequilíbrio entre a atividade metabólica de osteoclastos e osteoblastos é evidente.

Fonte: VÁRIOS AUTORES. CLÍNICA ORTOPÉDICA. BARUERI – SÃO PAULO: MANOLE, 2012.

Consequentemente, a osteonecrose da cabeça do fêmur (elucidada no meu texto anterior em https://www.sanarmed.com/osteonecrose-da-cabeca-do-femur-abordagem-sobre-aetiopatogenia-nao-traumatica-e-seus-enigmas-colunistas) e osteopenia/osteoporose.

Osteonecrose da Cabeça do Fêmur

Sendo a osteonecrose da cabeça do fêmur a alteração ortopédica mais encontrada na população soro positiva para HIV, e a articulação do quadril a mais acometida, convido-lhes a ler meu texto específico sobre o tema publicado anteriormente, em: https://www.sanarmed.com/osteonecrose-da-cabeca-do-femur-abordagem-sobre-aetiopatogenia-nao-traumatica-e-seus-enigmas-colunistas.

Dessa forma, toda dor em quadril e lombar devem ser altamente valorizadas nesses pacientes, os quais devem ser rapidamente encaminhados para avaliação ortopédica.

Osteopenia/Osteoporose

A definição de Osteopenia que em sua evolução natural conduz à Osteoporose, é, pela OMS (Organização Mundial da Saúde), baseada por valores resultantes da densitometria óssea, comparando-se a relação entre a densidade óssea do paciente com a média dos adultos jovens e ajustando-a para raça e sexo.

Parecido com a população geral, dentro dos pacientes com HIV/AIDS, a idade avançada, tabagismo, etnia caucasiana, baixo peso e baixo índice de massa corpórea (IMC) são fatores de risco importantes associados à perda óssea.

São diversos os fatores fisiopatológicos que têm efeitos diretos do vírus sobre as células osteogênicas, como ativação persistente de citocinas pró-inflamatórias (principalmente TNF alfa e interleucina-1), alterações no metabolismo da vitamina D, com deficiência da 1,25 di-hidroxivitamina D, e, não menos importante, participação de anormalidades mitocondriais relacionadas com a acidez lática e o desenvolvimento de doenças oportunistas.

Em relação específica à influência do tratamento antirretroviral, existem estudos mostrando risco relativamente maior quando utilizados inibidores de protease, sabendo-se que o indinavir inibe a formação óssea e o ritonavir inibe a diferenciação e função dos osteoclastos.

Além disso, outros fatores podem contribuir para acelerar a perda óssea, como: deficiências nutricionais, baixos níveis de cálcio sérico, imobilização, hipogonadismo, hipertireoidismo, hiperparatireoidismo, insuficiência renal, uso de opioides ou heroína, uso de corticosteroides, período pós-menopausa para mulheres, e consumo de álcool superior a 16 g/dia.

Diagnóstico e acompanhamento

O acompanhamento anual deve ser realizado pelo teste mais recomendado para o diagnóstico da osteoporose, que é a medição da densidade mineral óssea (DMO) pelo DEXA (dual energy x-ray absorptiometry test) de dois sítios, usualmente o fêmur proximal e a coluna lombar, sendo recomendado para pacientes portadores do HIV, com idade igual ou superior a 49 anos. Mulheres em período pós-menopausa também devem realizar anualmente esse exame, mesmo em idades inferiores.

Também, como exames laboratoriais anualmente são importantes: hemograma (dando atenção à anemia, macrocitose e microcitose); cálcio e fósforo séricos; função renal; função hepática; proteína total e frações; colesterol total e frações; fosfatase alcalina; vitamina D sérica (25-hidroxi-vitamina D); paratormônio, eletroforese de proteínas, TSH, VHS, calciúria de 24 horas, testosterona e prolactina.

Tratamento

O tratamento visa a prevenção de fraturas e aumento da qualidade de vida. Essa, por sua vez, pensando no mecanismo articular e biomecânico será altamente ampliada por meio de atividade física, especialmente exercícios de resistência para fortalecimento muscular.

Fonte: Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais

Quanto a medidas específicas, a combinação de suplementação de cálcio e vitamina D pode reduzir o risco de fraturas. A ingestão adequada de cálcio durante a vida é necessária para a aquisição do pico de massa óssea e subsequente manutenção da saúde óssea (Tabela 2). A ingestão maior que a recomendada tem um benefício limitado e pode aumentar o risco de litíase renal ou doença cardiovascular.

Fonte: Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais

Conclusão: Pacientes com HIV/AIDS versus complicações osteoarticulares.

É notável que as complicações osteoarticulares são prevalentes em pacientes com HIV, ou em AIDS, com uso de terapia antirretroviral de alta potência, com padrão de apresentação clínica, evolução natural da doença e resposta terapêutica diferentes da população geral. Desse modo, o olhar atento a esses pacientes na apresentação do primeiro sintoma é fundamental para um bom prognóstico ortopédico.

AUTOR: LEONARDO PARREIRA DE CASTRO

INSTAGRAM: @leonardoparreiradecastro

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

Vários editores, Filho, TEPB. Camargo, OPC. Camanho, GL. Clínica Ortopédica. Barueri – São Paulo: Manole, 2012.

Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de DST, Aids e Hepatites. PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS PARA MANEJO DA INFECÇÃO PELO HIV EM ADULTOS. Brasília – 2013.

Virais GOMES, LSM. Cirurgia Preservadora do Quadril Adulto. 1 ed. Cap. 24. Ed Atheneu.

Moore, Keith L. Anatomia orientada para a clínica. 6ed – Rio de Janeiro, RJ: Editora Guanabara. 2012.

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