Felipe Dias Gonçalves

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7 publicações

Tumor de Frantz: um enigma dos tumores de pâncreas (Parte 02) | Colunistas

O Tumor de Frantz é um tumor bem peculiar. Seu crescimento é bem lento, o que permite uma acomodação das estruturas, de modo que seus sintomas são mais relacionados com o efeito compressivo de massa, mas, mesmo assim, esses efeitos ainda podem não ser muito significativos frente a grandes dimensões do tumor, com os sintomas sendo ainda bem inespecíficos. Considerando-se uma grande massa se desenvolvendo no corpo e na cauda do pâncreas, é possível prever como sintomas o desconforto abdominal (existente em 36,8% dos casos), com sensação de um grande peso na região do abdome, que pode ou não ser seguido de dor abdominal (ou seja, de característica aguda ou crônica) e presença de massa palpável (presente em apenas 12,3% dos pacientes). Como a apresentação mais comum é no pâncreas distal, é bastante incomum a presença de icterícia ou sintomas relacionados com obstrução da saída gástrica. No entanto, com o desenvolvimento de uma grande massa no pâncreas, a sua compressão sobre a estrutural estomacal pode predispor a náuseas e vômito, levando a uma sensação precoce de saciedade com leve perda de peso (mas com perda ponderal bem menos significativa do que as neoplasias malignas). A fadiga, comum a tumores malignos também é bastante comum, o sendo também na apresentação de sintomas endócrinos. Deve-se considerar ainda que tal tumor não induz alterações em conhecidos marcadores tumorais, como CA 19.9 e CEA (Antígeno Carcinoembrionário). Dessa maneira, considerando tais características, é nítido perceber que seu diagnóstico precoce é bastante complicado, sendo reservado para achados incidentais, em que normalmente é feito um exame de rotina para uma condição e, em exames de imagem, há indícios de uma outra condição: uma pequena massa, de aspecto sólido-cístico, que ao ser analisada pela

Tumor de Frantz: um enigma dos tumores de pâncreas (Parte 01) | Colunistas

A neoplasia sólida pseudopapilar do pâncreas, conhecida também por Tumor de Frantz, é uma tumoração bem rara, mas também bastante peculiar. Embora apresente um excelente prognóstico, seu diagnóstico em fases iniciais é bastante complicado, se confundindo bastante com outras condições. Dessa maneira, conhecer um pouco dessa neoplasia, suas peculiaridades e forma de abordagem pode permitir uma boa prática médica e um ótimo desfecho, com a menor morbidade possível para o paciente. Como começa a história do Tumor de Frantz? Em 1959, a patologista Dra. Virgínia Kneeland Frantz descreveu 3 casos bem diferentes de tumor pancreático. Ao analisar as peças excisionadas, ela identificou um padrão diferente das neoplasias comuns do pâncreas: era um tumor encapsulado, com porções císticas e sólidas em seu interior. A neoplasia sólida pseudopapilar já havia sido descrita em 1933, mas apenas com os estudos da Dra. Frantz é que esse tumor foi identificado como um fenômeno separado, sendo identificado diferenças nele, como seu baixo potencial de malignidade. Com a continuidade de seus estudos, a patologista o nomeou como tumor papilar de pâncreas. No entanto, diferente de outros tumores, essa nomenclatura não se baseia na sua origem, mas sim exclusivamente na sua morfologia. Os estudos mais recentes permitiram especulações quanto a sua origem, com pesquisadores defendendo uma origem de epitélio ductal e neuroendócrina, de células-tronco pancreáticas pluripotentes, até células originadas do epitélio genital feminino (ou seja, de origem extrapancreática; o que até justificaria a alta prevalência em mulheres mais jovens). De todo modo, pode-se perceber que sua origem ainda permanece no plano especulativo, de modo que a cada revisão dos conhecimentos acerca dessa neoplasia, pode-se alterar o nome dela, para que seja mais significativa aos padrões observados ao ser estudada. Dessa maneira é que em 1996 a OMS renomeou o

Estrongiloidíase: o mínimo que precisa saber (parte 02) | Colunistas

A estrongiloidíase, ou também conhecida por estrongiloidose ou anguilulose, é uma doença que tem origem na infecção por um nematelminto, o Strongyloides stercoralis. Aparentemente se parece com um caso simples, o que realmente é quando se tem uma boa experiência com esse tipo de infestação. No entanto, a escolha errada na propedêutica ou a não identificação precoce dessa condição pode resultar em desfecho não favorável ao paciente. Informações gerais, morfologia e ciclo de vida (continuação) É importante notar que essas duas vias de infecção, tanto ciclo direto quanto indireto, necessitam de condições específicas no solo, uma etapa importante no seu ciclo de vida. Assim como os ancilostomídeos, há necessidade de os ovos e as larvas se encontrarem sobre um solo arenoso, com bastante umidade e de temperatura amena, entre 25°C a 30°C, solo esse carente da incidência solar direta.  O ciclo se completa quando as larvas filarioides penetram no hospedeiro, seja pela pele ou mucosa oral, esofágica ou gástrica e, assim, chegam á circulação linfática ou venosa. Essa “caminhada” ocorre com o auxílio da secreção de melanoproteases (enzimas do tipo colagenase que são ativas contra glicoproteínas da pele e promovem alteração e dissociação de compostos com ác. Glicurônico, presente na constituição do ác. hialurônico), que facilitam tanto a penetração nos tecidos quanto também a migração por eles (a literatura chega a citar uma taxa de migração de 10cm/h nessas larvas).  É verdade que muitas dessas larvas morrem nesse processo, mas as que se mantém firmes prosseguem até atingir o coração e, principalmente, o pulmão. Lá nos alvéolos as larvas perfuram os capilares perialveolares, a membrana alveolar e chegam ao interior dos alvéolos, seguindo em trajetória rumo à faringe, onde podem tanto ser expelidas por expectoração, decorrente

Estrongiloidíase: o mínimo que precisa saber (parte 01) | Colunistas

A estrongiloidíase, ou também conhecida por estrongiloidose ou anguilulose, é uma doença que tem origem na infecção por um nematelminto, o Strongyloides stercoralis. Aparentemente se parece com um caso simples, o que realmente é quando se tem uma boa experiência com esse tipo de infestação. No entanto, a escolha errada na propedêutica ou a não identificação precoce dessa condição pode resultar em desfecho não favorável ao paciente. Um pouco de história… O S. stercoralis teve sua descoberta e descrição realizada pelo médico francês Louis Normand e pelo farmacêutico Bavay, respectivamente, no ano de 1876, período em que atuavam no Hospital Naval de Toulon, na França. Nesse período, diversos soldados franceses que retornavam após seu serviço do atual Vietnã (conhecido na época por Cochinchina) apresentavam fezes diarreicas em que nelas foi encontrado formas larvárias do helminto. Inicialmente o verme foi denominado por Bavay de Anguillula stercoralis, em referência ao termo em latim “Anguillula”, traduzido por “pequena enguia” ou “peixe longo”, devido ao seu formato, e a “Stercus”, palavra sinônimo de esterco. Infelizmente alguns desses infectados foram a óbito, muito decorrente da diarreia. O falecimento desses permitiu a realização de um estudo mais aprofundado por meio de necropsia, em que foram identificados vermes nas estruturas do intestino delgado, canais biliares e ductos pancreáticos, e esses diferiam dos primeiros encontrados nas fezes desses soldados, o que fez Bavay imaginar que fossem outros tipos de vermes e nomeá-los de Anguillula intestinalis. Pelo fato de o verme apresentar diferentes morfologias ao longo de seu ciclo biológico, algo que será visto em seguida, esse helminto recebeu diversas nomenclaturas, sendo apenas em 1902, por Stilles & Hassal, devidamente caracterizado e recebeu uma nomenclatura única, Strongyloides stercoralis (Strongyloides derivando de “Strongylos”, palavra grega que significa “arredondado” ou “esférico”).

Intoxicação por lítio: causas, sintomas e protocolo de tratamento | Colunistas

O Lítio, elemento químico de número atômico (Z) 3, pertencente à família dos metais alcalinos, é uma substância que é encontrada em diversos minerais, como a lepidolita, o espodumênio, a ambligonita e a petalita, e em desertos de sal, comumente localizados na América Latina. A sua aplicação se dá em diversas áreas, como na indústria química, na fabricação de materiais como plásticos, borrachas sintéticas e ligas metálicas, na indústria nuclear, como componente de reatores e bombas termonucleares, e na indústria farmacêutica, sob a formulação de carbonato/citrato de lítio, prescrito para pacientes que sofrem de transtornos psiquiátricos. Como qualquer composto, o seu excesso no organismo humano gera efeitos danosos, de modo que é imprescindível a compreensão por parte dos profissionais médicos de quais situações podem acarretar nesse acúmulo de lítio no organismo e os seus efeitos, como, também, identificar essa situação em seus pacientes e como proceder em casos assim. Fisiofarmacologia O lítio foi o primeiro agente terapêutico em que foi demonstrado capacidade de uso no tratamento do transtorno bipolar. Ele tem eficácia tanto no tratamento de quadros depressivos quanto na redução do risco de suicídio. Esse elemento age no organismo por diversos mecanismos, como na modulação de duas vias de transdução de sinais, através da supressão da sinalização via Inositol, pela depleção intracelular desse, e inibição da enzima glicogênio sintase quinase do tipo 3 (GSK3), com atividade correlacionada à diminuição dos processos neurotróficos e neuroprotetores, além de modular 3 neurossinalizadores, através da diminuição da liberação de norepinefrina e dopamina, pelos terminais nervosos, e aumentar, de modo temporário, a liberação de serotonina. A sua administração se dá sob duas formas: líquida, administrado como citrato de lítio, e sólida, sob a forma de carbonato de lítio. Após a administração oral desse

Miocardite aguda em crianças com COVID-19 | Colunistas

A COVID-19 é uma doença recente que vem assolando a humanidade. De fácil transmissão e ação ainda não bem conhecida no organismo humano, seus efeitos são vários sobre a saúde física e mental dos indivíduos afetados. Dentre as múltiplas consequências decorrentes da contaminação pelo SARS-CoV-2 descritas na literatura, uma intriga grandemente os médicos e, mais especialmente, os pediatras: o surgimento de miocardite aguda em pacientes pediátricos. Embora as estatísticas apontem para uma menor exacerbação de sintomas em crianças e adolescentes, de modo que esses exibem apenas sintomas leves ou então se portam assintomáticos, o que resulta em uma menor incidência de casos fatais, a descrição de vários casos de complicações cardíacas em pacientes pediátricos preocupa bastante aos médicos, pelo tipo de dano resultante da contaminação viral e seu alto potencial de desfecho fatal. Miocardite: o que é? Para entender o alarde que os vários relatos de caso de miocardite infantil pós-infecção pelo coronavírus causaram, é primordial entender inicialmente o que é a miocardite. Essa é uma condição de inflamação do miocárdio, um dos três tecidos que formam o coração (endocárdio, miocárdio e pericárdio). As causas da miocardite são várias, desde o uso de fármacos, exposição a cardiotóxicos, doenças autoimunes e infecções (independentemente do gênero agressor: bactéria, fungo ou vírus). No caso de miocardite aguda, essa decorre normalmente de uma infecção viral, o que propicia um súbito desenvolvimento da doença e acometimento do tecido muscular do coração, condição essa de grave risco, pois a principal consequência é a falência do músculo cardíaco, que necrosa e propicia uma redução da eficiência de contração cardíaca, reduzindo sua capacidade de bombear o sangue para os tecidos periféricos, ocorrendo principalmente nos casos de lesão difusa do miocárdio; outra consequência é o

COVID-longo e a persistência de sintomas pós-infecção | Colunistas

Diferentemente de outras infecções comuns, como a da influenza, a COVID-19 vem intrigando pesquisadores e médicos em virtude dos efeitos que causa pós-infecção em seres humanos. Esperava-se, como as demais, que sua sintomatologia desaparecesse com o decorrer da melhora do quadro de saúde dos indivíduos afetados. No entanto, embora muitos recuperados aparentem não ter tido quaisquer sequelas da contaminação, outros sentem sintomas posteriores ao contágio, de modo persistente, que causam danos físicos e emocionais a esses indivíduos, fazendo surgir uma denominação para esse tipo de contaminação com danos pós-infecção: COVID-longo (tradução livre do termo em inglês “long COVID”). Sintomas persistentes Com o decorrer dos estudos iniciais sobre a infecção pela SARS-CoV-2, muitos sintomas foram identificados como sugestivos de contaminação, como febre, dispneia, cansaço, tosse seca, dor de cabeça, comprometimento cognitivo, erupções cutâneas, entre outros. Não obstante, mediante observação cuidadosa dos indivíduos recuperados, foi nítido o surgimento de sintomatologias pós-contágio, como anosmia (redução ou eliminação da capacidade de distinguir odores), disgeusia (alteração da capacidade de sentir sabores) e sensação contínua de fadiga, sendo essa última sintomatologia bem evidente em um estudo publicado na British Medical Journal. Em uma Brief Communication publicada nesse periódico, tendo por base um pequeno estudo realizado com 384 indivíduos que foram submetidos a cuidados hospitalares por conta da infecção por coronavírus, constatou-se que mais da metade desses permaneceu com quadros de dificuldade respiratória, relatando uma incessante falta de fôlego, em um acompanhamento de até 2 meses após o início da avaliação, com quadros de tosse (34% dos pacientes analisados) e fadiga (69% dos indivíduos estudados). Além dessas manifestações mais visíveis, estudos identificaram lesões que comprometiam o funcionamento de diversos órgãos, diminuindo as capacidades cardíaca e pulmonar em mais de 30% dos indivíduos analisados, chegando a afetar