Víctor Miranda Lucas

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Doenças infecciosas prevalentes em períodos chuvosos e enchentes | Colunistas

Durante os períodos de chuvas intensas em locais cujo sistema de escoamento e gestão hídrica são insuficientes, as enchentes tendem a ocorrer ciclicamente. Em decorrência desses fenômenos a população sofre com o aparecimento de doenças típicas desse período, transformando um problema de má gestão num problema de saúde pública. Aumento dos casos Durante os períodos de aumento da precipitação, algumas doenças mais comuns dessa época apresentam maiores índices devido aumento de sua transmissibilidade. Seja pelo aumento dos vetores, quanto pela contaminação da água e/ou de alimentos, essas doenças podem alcançar uma maior parcela da população e causar surtos nessas áreas. Hepatites virais As hepatites virais compreendem um grupo de doenças causadas por diferentes patógenos virais que compartilham de algumas semelhanças, dentre elas o tropismo pelos hepatócitos, apesar de distintas em aspectos laboratoriais e clínicos.  Dentro do contexto das enchentes, as hepatites virais mais relevantes são a A e E, visto que suas transmissões são majoritariamente via fecal-oral, ou seja, pelo contato com água e/ou alimentos contaminados. A hepatite A já possui vacina prevista no calendário nacional, enquanto a hepatite E ainda não possui vacina. No quadro clínico dessas hepatites, o mais comum são dores abdominais, náuseas, vômitos, diarreia e o aparecimento de icterícia. Geralmente é autolimitado a algumas semanas, com raras complicações mais graves como falência hepática. Nas últimas décadas estas hepatites têm apresentado diminuição do número de casos graças à vacinação e à melhoria da infraestrutura. Leptospirose  Trata-se de uma doença causada pela espiroqueta Leptospira, uma bactéria transmitida através da urina de roedores contaminados, sobretudo os ratos. Devido à distribuição mundial desse roedor, a doença está presente em praticamente todo

O avanço da infecção por HIV/AIDS em idosos | Colunistas

O padrão epidemiológico da infecção por HIV passou por mudanças ao longo das décadas. Nos últimos anos observou-se o aumento na população idosa devido a fatores como estigma social, falta de políticas públicas direcionadas e esclarecimento sobre a doença. Notou-se que os idosos apresentam comportamento de risco para a infecção e carecem de cuidados e não devem ser negligenciados. Epidemiologia ao longo das décadas Depois do contágio do primeiro ser humano pelo HIV (até então um retrovírus desconhecido) em meados da década de 1920 na África, a infecção pelo vírus foi pouco estudada, o que propiciou a sua disseminação inicialmente pelo continente africano e posteriormente por todo o globo. No final da década de 1970 e início da década de 1980, homossexuais no continente americano começam a desenvolver a uma doença ainda de causa desconhecida que viria a ser chamada de AIDS (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida – SIDA em português), criando um grande estigma e preconceito com essa população. Durante esse período a doença ficou conhecida como GRID (Gay-Related Immunodeficiency Disease) e chegou a ser chamada no Brasil como “Peste Gay”. Já a partir da década de 1990, a doença começou a avançar nas demais populações. Observou-se um aumento do diagnóstico em heterossexuais e jovens, mas também em idosos e foram notificadas as transmissões verticais.  Durante muitos anos a transmissão por transfusão sanguínea foi muito relevante, contudo, atualmente, a transmissão ocorre basicamente por via sexual ou por acidentes de trabalho que envolvam materiais cortantes e exsanguinação, com exceção da transmissão vertical (principal forma de contágio em menores de 13 anos de vida). Vida sexual dos idosos A vida sexual ativa da população tem se estendido ao longo

Degeneração macular relacionada à idade (DMRI): os fatores mais relevantes | Colunistas

A DMRI é uma doença da mácula com potencial de cegueira que acomete a população na segunda metade da vida. Sua apresentação clínica é de perda da acuidade visual central, podendo ser rápida (forma úmida) ou insidiosa (forma seca). Sua etiologia ainda é desconhecida, a despeito dos fatores de risco que já foram consolidados. Em algumas situações a depender do grau de evolução, a única intervenção possível se dá sobre os fatores de risco a fim de evitar o agravamento da doença. Conhecendo a DMRI A Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) é uma doença que acomete o tecido da mácula (região central da retina) que cursa com perda progressiva da visão central (quase) sempre irreversível. A etiologia ainda é desconhecida, apesar disso, acredita-se que a doença decorre de um processo multifatorial envolvendo questões genéticas e ambientais.  A DMRI é a principal causa de cegueira irreversível na população maior de 50 anos nos países desenvolvidos, sua prevalência pode passar de 30% naqueles maiores de 75 anos. No Brasil, acredita-se que a prevalência seja de mais de 10% em pacientes com 80 anos ou mais. A doença apresenta 2 classificações clássicas com evoluções diferentes: seca (90% dos casos, de início insidioso, progressivo e sem tratamento específico) e úmida (apresentação aguda e que pode se resolver quando tratada rapidamente). FIGURA 1. Fatores de risco à DMRI Fatores de risco não-modificáveis A idade avançada é o maior fator de risco da DMRI, de modo que a partir dos 40 anos estes pacientes já apresentam certo grau de risco em desenvolver a doença. Notou-se que a população caucasiana apresenta maiores taxas de prevalência, sendo também considerada de risco.

Síndrome de burnout na área médica | Colunistas

A Síndrome de Burnout é um assunto de extrema importância na saúde pública. Na classe médica as repercussões são muito grandes no contexto pessoal e profissional, podendo interferir na qualidade de vida do médico e na qualidade do seu atendimento. Populações que convivem com estresse contínuo tendem a apresentar mais prevalência da condição, dessa forma, observou-se que as especialidades médicas com maiores taxas de SB foram Medicina Intensiva, Medicina de Família e Medicina de Emergência. Definição e critérios A Síndrome de Burnout (SB) foi descrita pela primeira vez no ano de 1974 pelo psicanalista Herbert Freudenberger, o qual passou a observar que o seu trabalho não lhe rendia mais a satisfação de outrora, além de que passou a apresentar falta de motivação e energia para as suas atividades profissionais. Com o passar dos anos e avanços nos estudos da área, em 1999, Christina Maslach e Michael Leiter cunharam a definição usada atualmente, na qual determina que a Síndrome de Burnout é composta pelo tripé: exaustão emocional, despersonalização e falta de realização pessoal. Por exaustão emocional entende-se um que o paciente apresenta cansaço mental que pode, inclusive, se manifestar como um cansaço físico que compromete as atividades. A despersonalização define um quadro no qual observa-se um declínio na capacidade comunicativa e de sentir empatia pelos colegas de trabalho, podendo resultar em isolamento. Por último, a falta de realização pessoal está estritamente ligada à sensação de incapacidade produtiva. Figura 1. Tripé da Síndrome de Burnout Burnout na área médica Tem-se que, profissões que submetem essa população a níveis de estresse muito altos e/ou constantes apresentam risco elevado de desenvolverem a Síndrome de Burnout. Sendo assim, profissionais da saúde continuamente são colocados sob

Suicídio em idosos: manifestações e fatores associados | Colunistas

A população idosa é a que mais cresce no Brasil. Junto disso, cresce também a preocupação com as taxas de suicídio nessa população, sendo que a consumação apresenta altas taxas em comparação aos demais públicos. Saber identificar as manifestações e os principais eventos desencadeantes para a ideação e tentativa de suicídio pode auxiliar consideravelmente essa população e evitar desfechos fatais. Ideação, tentativa e consumação A ideação suicida compreende uma série de manifestações verbais e/ou comportamentais que remetem à vontade de autoextermínio. Nota-se, na maioria das vezes, que os pacientes apresentam queixas como “cansaço de viver”, “falta de esperança” e extremo pessimismo. Essas manifestações podem ser percebidas pelos companheiros, médicos e familiares próximos que observam que o idoso apresenta alterações de comportamento. Já a tentativa é o ato contra a própria vida, sendo que a via pode variar na população idosa, sobretudo considerando o grau de dependência e autonomia desse paciente. Por último, a consumação é quando o paciente consegue efetivar a tentativa. Ressalta-se que na população idosa a proporção entre a tentativa e a consumação é bastante próxima. Estudos indicam que essa proporção pode chegar a 2:1, contrapondo a população jovem de 36:1. Além disso, quando a tentativa não é consumada, frequentemente causa algum tipo de sequela nessa população. Figura 1. Ciclo de idealização, tentativa, fracasso e consumação do suicídio Manifestações verbais Apesar de ser bastante variável, alguns pontos parecem ser mais comuns na população idosa que já apresenta ideação suicida ou está sob grande risco de iniciá-la. No caso dos pacientes idosos com ideação suicida, nota-se que muitos deles podem ser mais incisivos no assunto e comentam sobre o desejo com amigos e

Conhecendo as Grandes Síndromes Geriátricas | Colunistas

As Grandes Síndromes Geriátricas englobam o grupo de doenças de grande recorrência nos consultórios geriátricos e está entre os maiores motivos de encaminhamentos dessa população. As Síndromes causam importante redução da qualidade de vida dos pacientes e devem ser investigadas ativamente durante uma consulta em idosos. Quem são e por quê são assim chamadas? As Grandes Síndromes Geriátricas (ou também conhecidas como “Os Grandes “I’s” da Geriatria”) contemplam condições clínicas frequentes nos idosos, capazes de reduzir consideravelmente a qualidade de vida destes pacientes. Conceitua-se que o surgimento de uma das Síndromes acontece após a perda da autonomia e/ou da independência dos idosos. A autonomia refere-se à capacidade do idoso em tomar decisões por conta própria, sendo ela dependente do humor e da cognição. Por outro lado, a independência se refere à capacidade de realizar suas próprias atividades sem ajuda de outrem, esta depende do pleno funcionamento da mobilidade e da capacidade comunicativa dessa população (Imagem 1). As Grandes Síndromes Geriátricas são: incapacidade comunicativa, insuficiência familiar, incapacidade cognitiva, instabilidade postural, imobilidade, incontinência esfincteriana e a iatrogenia; O campo da geriatria é bastante rico em testes e questionários bastante reconhecidos e consolidados na medicina. Diversos deles são utilizados na investigação ativa das Síndromes Geriátricas e constituem papel fundamental durante a avaliação médica. Imagem 1. Grandes Domínios da Saúde do Idoso. Adaptado de Moraes, Marino e Santos (2010). Incapacidade comunicativa A população idosa é frequentemente acometida por condições que comprometem a comunicação, seja na audição, na fala ou na compreensão. Estas seriam as principais condicionantes relacionadas à incapacidade comunicativa. Quando a incapacidade comunicativa se instaura, a tendência é de que o idoso se isole socialmente, por encontrar dificuldade em interagir

Soft skills: uma desconhecida necessidade dentro da medicina | Colunistas

A procura por profissionais com conhecimento teórico e prático sempre existiu e é um critério de credibilidade relevante, contudo, observa-se cada vez mais a procura de profissionais dotados de aptidões comportamentais e sociais. Nesse sentido, as soft skills se apresentam como um pilar importante para o aumento da confiabilidade desse profissional. Definição As soft skills são atributos e características que determinam a capacidade do indivíduo em se portar de maneira harmônica e afetiva diante do cenário social e profissional. Portanto, essas habilidades demonstram a forma com que o indivíduo se relaciona com seus colegas de trabalho, com seus clientes e com seus gestores. Trata-se de uma inteligência emotiva e comportamental. Relevância Um bom relacionamento entre o profissional e o cliente se dá quando o vínculo entre eles é produtivo, harmonioso e objetivo. Essa relação, quando saudável, promove confiança e credibilidade mutuamente, caso contrário, dificilmente esse profissional criará vínculos com o cliente. Isso é particularmente importante quando se trata de profissionais gestores, onde a interdisciplinaridade e a interação entre diferentes setores são bastante presentes. Soft skills na medicina A relação médico-paciente é estudada há muito tempo e já é consolidada a necessidade de um bom vínculo entre ambas as partes. Sabe-se que a boa comunicação, a empatia e o compartilhamento de ideias são fundamentais para uma boa adesão a tratamentos, criação de forte confiança e, por consequência, melhores desfechos. Sendo assim, as soft skills caminham lado a lado com a boa relação médico-paciente: um médico empático, que mantém uma boa comunicação com o seu paciente, explica cuidadosamente os princípios do tratamento e discute com este as opções terapêuticas, além de ouvi-lo atentamente, demonstra uma avançada inteligência emocional e

Pancreatite aguda: da suspeita ao tratamento | Colunistas

Dentre as principais causas de abdome agudo, a pancreatite aguda apresenta um espectro clínico variado, mas com diagnóstico fácil quando investigado adequadamente. Trata-se de uma doença comum nos prontos-socorros e, apesar de não haver tratamento específico, o tratamento de suporte é vital para evitar o risco de complicações e reduzir a taxa de mortalidade. Definição A pancreatite aguda é uma condição clínica na qual se observa um processo inflamatório que se inicia dentro do pâncreas e pode se alastrar para os tecidos peripancreáticos e para órgãos distantes. O evento decorre da ativação precoce das enzimas pancreáticas ainda dentro do órgão, gerando um processo de “autodigestão pancreática” e com as repercussões advindas da perda funcional do pâncreas e progressão do quadro. É uma doença comum nos prontos-socorros com incidência estimada de 20 casos para 100.000 habitantes, com mortalidade que varia de 5,19 a 30%. O suco pancreático As enzimas pancreáticas são produzidas nas chamadas células acinares e são armazenadas ainda na forma ativa dentro de vacúolos chamados de zimogênios. Quando há ingestão de alimentos sobretudo gordurosos, o organismo estimula a secreção dessas enzimas no intestino delgado, as quais encontram-se diluídas numa solução isotônica e alcalina, a qual apelidamos de suco pancreático. Dentre as enzimas pancreáticas, destacam-se a lipase e a elastase, cujas funções fisiológicas são a degradação de gorduras e elastinas, justificando o fenômeno de digestão do próprio pâncreas e dos vasos intra e peripancreáticos quando estas são ativadas dentro do órgão. Fisiopatologia O processo fisiopatológico que circunda a pancreatite aguda envolve basicamente a ativação das enzimas pancreáticas ainda dentro do órgão. Independentemente da etiologia, observa-se um aumento da pressão dentro dos ductos intra-biliares, pelos quais o suco

Agravantes da pandemia na saúde mental dos profissionais da saúde | Colunistas

Os profissionais da área da saúde historicamente são muito mais  impactados em tempos de pandemia do que a população em geral. Por serem os responsáveis pelos cuidados de pacientes doentes, estes se veem sob constante pressão psicológica e desgaste físico que tendem a piorar à medida que a pandemia se prolonga. Diversos fatores explicam esse fenômeno, discuti-los e resolvê-los é a melhor solução. Carga de trabalho O aumento do número de casos da COVID-19, paralelo ao desconhecimento do mundo científico sobre o tratamento e a abordagem mais eficaz para a doença, acarretou um grande aumento da carga de trabalho  desses profissionais. O que se observou foi que, na maioria das vezes, o número de pacientes que procuravam auxílio médico extrapolava a capacidade de atendimento dos centros de saúde, gerando deficiência no atendimento. É importante mencionar também que, por se tratar de uma doença que exige isolamento dos infectados, quando um desses  profissionais é infectado, ele precisa se ausentar do serviço e outro precisa assumir o seu papel, reduzindo o quadro de funcionários disponíveis para assumir o trabalho, agravando o problema da sobrecarga de trabalho e predispondo à fadiga e exaustão. Falta de materiais de proteção A capacidade de produção e a logística (transporte, distribuição e venda) que envolvem os insumos para proteção individual não conseguiram acompanhar o aumento exponencial da demanda destes produtos durante a pandemia.  Observou-se também o aumento do preço desses materiais, sob a justificativa da conhecida “Lei de oferta e procura”. Com isso, serviços encontraram dificuldade na aquisição de máscaras, luvas, óculos, capotes e outros materiais de proteção essenciais. Ressalta-se a importância desses insumos para a máxima proteção dos profissionais e