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Minha Experiência no Internato da Especialidade de Cirurgia do Aparelho Digestivo | Colunistas

Minha Experiência no Internato da Especialidade de Cirurgia do Aparelho Digestivo | Colunistas

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Rafael Nôvo Guerreiro

5 minhá 47 dias

Para os acadêmicos amantes das áreas cirúrgicas nada é mais aguardado durante a graduação que os rodízios nessas especialidades. Aos que preferem “unicamente” a Clínica, sempre há oportunidade de se surpreender! Essa foi a minha experiência no Internato da Especialidade de Cirurgia do Aparelho Digestivo em um Hospital-Escola Referência vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS) na região norte do país.

O rodizio em área cirúrgica é de grande valia, uma vez que, para muitos discentes será o único contato curricular com especialidades cirúrgicas. Segundo o estudo “Demografia Médica no Brasil 2020”, realizado pela Faculdade de Medicina da USP em cooperação com o Conselho Federal de Medicina (CFM), em janeiro de 2020 haviam 478.010 médicos em atividade no Brasil, sendo que destes: 38.583 (8,9%) são especialistas em Cirurgia Geral e 3.232 (0,7%) são subespecialistas em Cirurgia do Aparelho Digestivo.

Tais números demonstram que menos de 10% dos médicos mantiveram aproximação com as práticas cirúrgicas após o ingresso ao mercado de trabalho. Corroborando, portanto, com a importância de se ter a oportunidade e a aproximação com as especialidades cirúrgicas durante a formação acadêmica.

No serviço onde fui interno, a jornada de trabalho era dividida entre as Enfermarias, os Ambulatórios e o Bloco Cirúrgico propriamente dito. Cada qual com suas características, os revezamentos entre as áreas de atuação permitem ao discente o contato de modo holístico com a jornada laboral do Especialista em Cirurgia do Aparelho Digestivo.

Durante os atendimentos ambulatoriais, tem-se o primeiro contato com os pacientes que, provavelmente, serão operados nas próximas semanas. Então, faz-se necessário e de suma importância exercitar, acima de tudo, o raciocínio semiológico, juntando os dados clínicos do exame físico com a avaliação de exames de imagem, a fim de se tecer o diagnóstico correto e fiel sobre as patologias que acometem os pacientes.

Nas Enfermarias, encontram-se os pacientes internados, podendo estar em estado pré-operatório, pós-operatório ou até mesmo em Cuidados Paliativos, a depender das especialidades médicas que são encontradas no hospital do seu rodízio. Nesse momento há a oportunidade de se ter contato mais próximo aos pacientes, conhecer e se inspirar com suas histórias de vida e acompanhar o curso das doenças diariamente. Além disso, há a oportunidade de se fazer network com acadêmicos e profissionais de outros cursos da área da saúde, como Fisioterapia, Enfermagem e Nutrição.

Por fim, o Bloco Cirúrgico (para muitos, o ápice do rodízio!). Engana-se, contudo, quem pensa que o aluno fica apenas em ortostase observando à distância monotonamente o ato cirúrgico: há uma grande transferência de conhecimento técnico, empírico e anatômico entre Cirurgiões, Residentes e acadêmicos. Com isso, como estava sitiado em um hospital-escola, tive a oportunidade de ser Instrumentador ou Auxiliar em alguns procedimentos cirúrgicos, por exemplo, em uma Gastrectomia Total em virtude de Neoplasia Gástrica e em uma Reversão de Ileostomia devido intercorrências.

É inegável que Sistema Único de Saúde (SUS) é de importância indiscutível para a população brasileira, porém alguns pontos negativos do rodízio seriam: o excesso de burocracias do sistema e a falta de alguns recursos que facilitariam a vida dos pacientes. A necessidade de papéis em demasia muitas vezes atrapalha, principalmente os mais idosos, por exemplo: algumas vezes são necessárias duas vias de cópias de algum exame, dois laudos de Risco Cirúrgico etc, sendo que a ausência destes, “por esquecimento de levar o papel”, implica na necessidade de remarcar a consulta e em uma nova ida ao Hospital futuramente.

É evidente que todos os exames têm importância, mas deveria haver alguma forma de desburocratizar o sistema para facilitar os trâmites para os pacientes, pois a imensa maioria destes são de baixa renda e acabam gastando mais do que é possível em seus orçamentos mensais entre idas e vindas em virtude de burocracia. Salientando ainda que muitos são de cidades interioranas e nem sempre possuem alojamento, tampouco condições de se manter na capital.

Em decorrência da pandemia do Coronavírus, muitos internos tiveram ou terão seus rodízios em Cirurgia do Aparelho Digestivo afetados negativamente, de modo a, em alguns centros, haver uma drástica diminuição nos cenários de prática e no quantitativo de pacientes atendidos. Uma solução para tentar reduzir os danos à formação seria a participação em Ligas Acadêmicas de Cirurgia, visto que os discentes conseguem manter o contato recorrente com os assuntos de técnica cirúrgica e, posteriormente, a depender da Liga, podem conseguir estágios extracurriculares ligados à área.

Em suma, mesmo que você tenha a certeza de que a área cirúrgica não lhe agrada, vá ao rodízio de Cirurgia do Aparelho Digestivo com a mente aberta para novas experiências e com a certeza que os médicos e os pacientes irão lhe ensinar muito. Este poderá ser seu único contato com a Especialidade, não havendo outras oportunidades futuras. Aproveite essa imersão em uma outra realidade médica!

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

Demografia Médica no Brasil 2020 –

http://www.flip3d.com.br/pub/cfm/index10/?numero=23&edicao=5058#page/1

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