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Minha Experiência no Internato da Especialidade Medicina Preventiva e Social no Amazonas durante a pandemia da COVID-19 | Colunistas

Minha Experiência no Internato da Especialidade Medicina Preventiva e Social no Amazonas durante a pandemia da COVID-19 | Colunistas

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Bruna Moraes

7 minhá 10 dias

Minha experiência no internato da Especialidade de Medicina Preventiva e Social esteve intimamente atrelada às mudanças que a pandemia da COVID-19 gerou no mundo. O atual cenário exigiu de todas as instituições novas adequações e novos planejamentos, para que o ensino continuasse a ser propagado e que futuros prejuízos fossem amenizados.

O método de ensino à distância (EAD) foi uma das estratégias adotadas por muitas instituições e, no meu caso, pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

O estado do Amazonas foi um dos mais afetados pela pandemia da COVID-19, sendo o pioneiro nas duas maiores ondas que assolaram o país. Desta forma, as universidades do estado se viram na necessidade de reajustar os seus métodos de ensino e garantir o acesso às bases da Medicina Preventiva aos futuros médicos do Amazonas.

Visando a reformulação dos métodos de aprendizagem, internos e professores da disciplina se reuniram via internet e delinearam uma nova grade de horários e os principais assuntos a serem abordados durante as reuniões semanais. Dentre os assuntos elencados, os docentes levaram em consideração as bases da medicina preventiva, fundamentos da medicina de família e comunidade e os temas mais recorrentes nas unidades básicas de saúde.

Durante todas as quartas-feiras dos meses mais críticos da pandemia no Amazonas, mais de 150 internos de medicina se reuniram com os docentes da disciplina de Medicina Preventiva e diferentes profissionais da atenção primária à saúde via Google Meet. Além disso, os docentes recebiam o suporte de um técnico em computação para que as aulas não contassem com grandes instabilidades operacionais.

Os alunos recebiam antecipadamente os temas que seriam abordados na reunião e o material para leitura complementar prévia.

Dentre os temas abordados, estavam: compreensão do método SOAP e o seu preenchimento no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), práticas integrativas e complementares do SUS, medicinas tradicionais e plantas medicinais, funções desempenhadas pelos membros da equipe de estratégia de saúde da família (ESF), funcionamento da residência de medicina de família e comunidade no Amazonas, entre outros.

Durante nossos encontros semanais tínhamos um sistema misto de aprendizagem, que mesclava aulas expositivas com discussões e reflexões sobre os temas abordados no dia.

Os assuntos aprendidos eram avaliados por meio do feedback dos internos aos professores ao final de cada aula, relatando quais os ganhos proporcionados pela aulas ministradas, além de casos clínicos dos temas e questionamentos levantados pelos docentes durante as reuniões.

A importância da Medicina Preventiva e Social no internato

Trazendo para a minha visão de colunista, a Medicina Preventiva e Social resgata as raízes do que é “ser médico”, por essa razão tornando-a uma das disciplinas mais relevantes durante o internato médico.

As suas bases, fundadas desde a Carta de Ottawa em 1986, resgatam premissas e valores éticos que todo médico deve carregar dentro de si. Dentre eles, a importância de se promover saúde, de se considerar todos os componentes biopsicossociais do indivíduo, de valorizar a relevância da família, da etnia, da religião, da comunidade, entre muitos outros fatores, no processo saúde-doença do indivíduo.

A Medicina Preventiva enxerga o todo do paciente, enxerga suas nuances muitas vezes não ditas em uma consulta, mas intrínsecas ao seu modo de se portar, de se vestir e de se comunicar com o mundo.

A Medicina Preventiva está no olhar de quem olha e enxerga, não apenas observa. De quem escolheu fazer medicina para entender o outro, seus medos, seus dilemas, seus conflitos sociais, raciais, econômicos e de gênero.

A Medicina Preventiva é a base do médico que vai além! Além da doença, além do prontuário, além do consultório. É o médico que enxerga a importância do todo e do determinismo gerado pelo mundo ao seu redor.

O que mais gostei

Dos pontos que mais gostei está minha grande surpresa ao perceber o quanto se pode aprender e se aprimorar mesmo estando dentro de casa.

As aulas EAD foram planejadas de um modo muito interativo, com assuntos nunca antes abordados na graduação e de extrema relevância no dia-a-dia médico, sendo um dos pontos altos diante do interesse dos alunos.

Outro ponto positivo foi a possibilidade de interagir com diversos profissionais da atenção primária à saúde oriundos de várias localidades do Amazonas, desde a capital até cidades do interior.

O Amazonas possui diversas características peculiares e dentre elas destaca-se sua geografia e economia fortemente fluvial, fator que muitas vezes impediu o conhecimento sobre a saúde das populações do interior do estado. Dessa forma, o método EAD proporcionou aos alunos mais essa troca de experiências.

O que menos gostei

Em relação aos pontos que menos gostei, está a impossibilidade de praticar com o paciente frente a frente, examiná-lo, ouvi-lo e atuar por meio dos princípios da Medicina Preventiva. Pontos esses que foram impossibilitados pela pandemia da COVID-19, mas que em breve será solucionado com a vacinação de todos os alunos.

Em relação ao método EAD, teria como sugestão a criação de uma grade fixa de horários, pois devido aos diferentes profissionais convidados, as aulas ocorreram em horários alternativos e seguindo as possibilidades dos profissionais. No entanto, trata-se de um ponto compreensível, já que se tratava de profissionais da saúde que estavam tentando levar conhecimentos mesmo diante de seu pouco tempo devido à pandemia.

Conclusão

O novo método de ensino da disciplina de Medicina Preventiva permitiu que no momento de maior isolamento mundial, fosse possível aproximar uma variedade de profissionais capacitados e experientes para dividir com os alunos os seus aprendizados. Durante as reuniões, os alunos tiveram a oportunidade de aprender com médicos e residentes de medicina de família e comunidade, enfermeiros da Estratégia de Saúde da Família, agentes comunitários, psicólogos, entre outros.

A reformulação do ensino proporcionou aos internos de medicina uma ampla expansão em seus conhecimentos sobre a dimensão da Medicina Preventiva, bem como os componentes abrangidos por ela, mesmo diante dos diversos desafios trazidos pela pandemia da COVID-19, demonstrando a capacidade que o ensino médico possui em se reinventar.

Deixaria como sugestão para o futuro da disciplina, a manutenção dos ganhos trazidos por esse método de ensino, integrando-o ao método tradicional e às práticas da Medicina Preventiva.

Autor(a):

Bruna de Moura Moraes

Universidade Federal do Amazonas – UFAM

@Brumoraes432

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

A Medicina de Família e Comunidade, a Atenção Primária em Saúde e o Ensino de Graduação: recomendações e potencialidades –

https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:YOnk9a97PbcJ:https://www.rbmfc.org.br/rbmfc/article/download/334/221/1040+&cd=14&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

Carta de Ottawa – https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/carta_ottawa.pdf

Formação do profissional médico: a aprendizagem na atenção básica de saúde – https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-55022007000100008&lng=pt&tlng=pt

Internato de Medicina preventiva e social: a formação médica no Amazonas para o trabalho no Sistema Único de Saúde brasileiro –

https://scholar.googleusercontent.com/scholarq=cache:sKJIgcGKLDQJ:scholar.google.com/+medicina+preventiva+no+internato+m%C3%A9dico&hl=pt-BR&as_sdt=0,5

Lei nº 9.394, de dezembro de 1996 – Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. – https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1996/lei-9394-20-dezembro-1996-362578-publicacaooriginal-1-pl.html

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