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Momento histórico: aprovação da primeira vacina contra a malária e sua importância|Colunistas

Momento histórico: aprovação da primeira vacina contra a malária e sua importância|Colunistas

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As doenças parasitárias afetam atualmente uma enorme parcela da população mundial, provocando muitos óbitos e atuando como fator limitante da qualidade de vida e do desenvolvimento de muitos países. A maioria das parasitoses que infectam os seres humanos são causadas por protozoários, dentre elas, destaca-se a malária, protozoose de distribuição mundial. Apesar do progresso obtido em seu combate, a malária ainda é um dos mais sérios problemas mundiais de saúde pública. Felizmente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou, em 6 de outubro de 2021, a decisão histórica de aprovar a primeira vacina contra a malária, que representa um enorme avanço para a ciência, para a saúde infantil e para o controle da doença.

O que você precisa saber sobre a malária

Aspectos gerais

A malária é uma doença parasitária causada por quatro espécies de protozoários do gênero Plasmodium: P. falciparum; P. vivax; P. ovale e P. malariae, sendo o P. falciparum o principal causador da malária clínica grave. A transmissão natural ocorre por meio da picada de mosquitos, principalmente fêmeas, do gênero Anopheles infectados. Outra forma de transmissão se dá pelo contato direto com o sangue de uma pessoa infectada através de transfusão sanguínea, transplante de órgãos ou compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis. Após a picada, os parasitos chegam ao fígado, onde se multiplicam rapidamente durante 8 a 30 dias ou até mais, tempo que corresponde ao período de incubação, e depois invadem os glóbulos vermelhos e se multiplicam até destruí-los, levando ao surgimento dos primeiros sintomas da doença.

O quadro clínico é caracterizado por febres intermitentes que, dependendo da espécie de plasmódio, ocorrem a cada dois ou três dias, dores de cabeça, dores no corpo, anemia, icterícia e hepatoesplenomegalia. Outros sintomas associados são calafrios, tremores, suores intensos, vômitos, diarreia, dor abdominal, falta de apetite, tontura e sensação de cansaço. Além disso, na malária cerebral também pode ocorrer o comprometimento progressivo do sistema nervoso central.

O tratamento da malária é complexo, longo e, muitas vezes, ineficaz devido à reinfecção do paciente, fenômeno muito comum em regiões endêmicas em decorrência da pouca acessibilidade às principais estratégias utilizadas no combate à doença, como a educação da população de risco, a quimioterapia eficiente, o controle do vetor através de inseticidas e o uso de mosquiteiros impregnados com inseticidas para evitar a infecção. Esse fato, somado a outros fatores, como o surgimento de cepas do P. falciparum resistentes aos antimaláricos atualmente disponíveis, justifica a atual posição da doença como um problema global de saúde pública, apesar dos avanços ocorridos nas últimas décadas.

Epidemiologia

A malária é uma doença de distribuição mundial, presente em 87 países, afetando principalmente aqueles localizados nas regiões tropicais e subtropicais. Nas duas últimas décadas, houve um enorme avanço mundial no combate à doença por meio do uso generalizado de mosquiteiros, diagnósticos rápidos e uso sazonal de medicamentos de prevenção à malária. Entre 2000 e 2015, com a implementação dessas intervenções, a incidência de casos entre populações em risco caiu 27%. Em 2019, a malária contabilizou 229 milhões de casos, estimativa anual que permaneceu praticamente inalterada nos últimos quatro anos, e 409 mil óbitos. Assim como nos anos anteriores, a Região Africana da OMS suportou e ainda suporta mais de 90% da carga geral da doença. Felizmente, desde 2000, com os avanços na luta contra a doença na região, houve a redução do número de mortes por malária em 44%, de 680 mil para 384 mil anualmente.

Entretanto, o progresso tem diminuído nos últimos anos, particularmente em países com uma alta carga da doença e, em decorrência disso, entre 2015 e 2020, houve uma redução inferior a 2% nos casos. Ademais, a malária é atualmente a principal causa de doença infantil e morte na África Subsaariana, responsável pelo óbito de mais de 260 mil crianças africanas com menos de cinco anos anualmente, que representam cerca de dois terços dos óbitos.

Vacina contra a malária: trajetória e importância

A espera da OMS por uma vacina contra a malária que pudesse ajudar na reversão da atual estagnação dos avanços expressivos contra a doença teve seu fim em 6 de outubro, quando a organização aprovou o uso generalizado da vacina RTS, S/AS01 (RTS,S). Além dela, há outras 140 candidatas diferentes em desenvolvimento, mas até a RTS,S, nenhuma havia obtido aprovação formal.

Os dados que culminaram nesse evento histórico derivam de um programa piloto da OMS através do qual, desde 2019, mais de 800 mil crianças em Gana, Quênia e Malaui receberam ao menos uma dose da vacina. Contudo, a busca incessante pela vacina se iniciou muitos anos antes a partir de um estudo promissor de 1996, no qual os pesquisadores passaram duas décadas conduzindo estudos clínicos em países africanos. O processo foi lento e meticuloso, iniciando com testes em adultos e avançando até faixas etárias mais jovens, visando garantir a segurança da população-alvo da vacina, formada por crianças com idades entre 5 e 18 meses. Os principais resultados dos estudos de fase três foram publicados em 2015 e verificaram que o imunizante alcança 56% de eficácia em crianças entre 5 e 17 meses no primeiro ano após a vacinação, com uma redução de aproximadamente 20% no valor quando avaliado ao longo de quatro anos.

Já entre os principais resultados registrados pelo programa piloto, destacam-se a redução de 30% nos casos graves de malária entre crianças vacinadas, além de declínios obtidos em decorrência de outras intervenções, como o uso de mosquiteiros, e a constatação de que mais de dois terços das crianças em Gana, Quênia e Malaui que não dormem sob um mosquiteiro estão se beneficiando com a vacina RTS,S. Desse modo, se aplicada conjuntamente com outras vacinas infantis, uma grande parte da população infantil que atualmente não têm acesso a outras intervenções contra a malária teria ao menos a proteção fornecida pela vacina.

Além disso, em um estudo publicado no mês passado no periódico New England Journal of Medicine, pesquisadores concluíram que a associação da RTS,S com medicamentos preventivos antimaláricos poderia reduzir em 70% o risco de malária grave em crianças. Tais dados fundamentam a fala de Mary Hamel, epidemiologista da OMS que gerencia o Programa de Implementação de Vacinas Contra a Malária da organização. Ela acredita que a RTS,S é suficiente para fazer a diferença no combate à malária, mesmo que sua eficácia seja quase a mesma de um mosquiteiro, já que a vacinação associada ao uso já estabelecido dos mosquiteiros pode promover um declínio na morbidade e mortalidade da malária ainda maior do que o obtido sem o uso da vacina.

Portanto, os pontos que contribuíram para a aprovação da vacina incluem a entrega viável, com uma cobertura boa e equitativa da RTS,S vista por meio de sistemas de imunização de rotina, o aumento da equidade no acesso à prevenção da malária, o forte perfil de segurança, já que, até o momento, mais de 2,3 milhões de doses da vacina foram administradas em três países africanos e apresentaram um perfil de segurança favorável, a ausência de impacto negativo no uso de mosquiteiros, outras vacinas infantis ou comportamento de busca de saúde para doenças febris, o alto impacto em ambientes de vacinação infantil na vida real e o alto custo-efetividade em áreas de transmissão moderada a alta da malária.

A recomendação do uso da RTS,S pela OMS é para a prevenção da malária por P. falciparum em crianças que vivem justamente nas regiões com transmissão moderada a alta, visando a redução da malária e da carga da doença. A vacina deve ser fornecida em um esquema de quatro doses: três doses aplicadas em três meses, a partir dos 5 meses de vida, e, posteriormente, uma quarta dose de reforço, aproximadamente aos 18 meses. Entretanto, a necessidade da quarta dose ainda está sendo discutida. Ademais, nem todos os países afetados serão contemplados, já que a vacina age contra o P. falciparum, principal espécie causadora da malária na África, mas não em outros locais, como o Brasil, onde o principal agente causador é o P. vivax.

A longo prazo, é quase certo que outras vacinas receberão a recomendação formal da OMS, especialmente aquelas com eficácia ainda maiores. Por isso, a meta definida desde 2013 é de que, até 2030, seja desenvolvida uma vacina contra a malária com eficácia de 75%. Atualmente, já há algumas candidatas ao título, como a R21, que, em um estudo de fase dois conduzido em 2019 com até 450 pessoas no distrito de saúde Nanoro, em Burkina Faso, alcançou uma eficácia notável de 77%. Sendo assim, embora ainda faltem muitas etapas até a distribuição da RTS,S e de outras vacinas contra a malária, as autoridades de saúde mundiais, a humanidade e, principalmente, as populações mais afetadas, podem ter um vislumbre de esperança.

Conclusão

A malária é uma doença parasitária de distribuição mundial, presente principalmente em países de clima tropical e subtropical, causada por protozoários do gênero Plasmodium, transmitidos ao homem pela picada de mosquitos do gênero Anopheles infectados. Caracteriza-se por febres intermitentes, que, dependendo da espécie de plasmódio, ocorrem a cada dois ou três dias, dores de cabeça, dores no corpo, anemia, icterícia e hepatoesplenomegalia. O tratamento é complexo, longo e, muitas vezes, ineficaz, em decorrência da reinfecção do paciente, o que contribui para que a doença seja considerada um problema global de saúde pública, apesar do progresso obtido nas últimas décadas.

Em 6 de outubro de 2021, a OMS aprovou a primeira vacina contra a malária, denominada  RTS,S, com base nos dados derivados de um programa piloto da organização através do qual, desde 2019, mais de 800 mil crianças em Gana, Quênia e Malaui receberam ao menos uma dose da vacina. Os fatores que contribuíram para a aprovação incluem a entrega viável por meio de sistemas de imunização de rotina, o aumento da equidade no acesso à prevenção da malária, o forte perfil de segurança, a ausência de impacto negativo no uso de mosquiteiros, outras vacinas infantis ou comportamento de busca de saúde para doenças febris, o alto impacto em ambientes de vacinação infantil na vida real e o alto custo-efetividade em áreas de transmissão moderada a alta da malária. É justamente para a prevenção da malária por P. falciparum em crianças que vivem nessas regiões que a OMS fez a recomendação do uso da RTS,S, de modo que nem todos os países afetados serão contemplados, já que a vacina age contra o P. falciparum, principal espécie causadora da malária na África, mas não em outros locais, como o Brasil, onde o principal agente causador é o P. vivax.

A aprovação da vacina é um vislumbre de esperança para as autoridades de saúde mundiais e, para as populações mais afetadas, já que, embora ainda faltem muitas etapas até a distribuição da RTS,S e de outras vacinas contra a malária, acredita-se que esse recurso, aliado às estratégias já implementadas, fará a diferença no combate à malária.

Autora: Maria Fernanda Lima

Instagram: @fxrnandasouza

Referências

Malária: aspectos históricos e quimioterapia – https://doi.org/10.1590/S0100-40422008000500060

Momento histórico: por que a OMS aprovou a primeira vacina contra a malária – https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2021/10/momento-historico-por-que-a-oms-aprovou-a-primeira-vacina-contra-a-malaria

OMS recomenda vacina inovadora contra malária para crianças em risco – https://www.paho.org/pt/noticias/6-10-2021-oms-recomenda-vacina-inovadora-contra-malaria-para-criancas-em-risco

OMS pede ação revigorada para combater a malária – https://www.paho.org/pt/noticias/30-11-2020-oms-pede-acao-revigorada-para-combater-malaria


O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto