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Mudanças climáticas e saúde – por onde começar? | Colunistas

Mudanças climáticas e saúde – por onde começar? | Colunistas

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Marco Aurélio Ferreira

8 min há 13 dias

O que são as mudanças climáticas?

Todos nós já ouvimos falar sobre o derretimento das geleiras, vivenciamos as queimadas no Pantanal, vimos o desmatamento desenfreado da Amazônia e já cansamos de escutar sobre os gases do efeito estufa e do aquecimento global. Estes termos estão amplamente presentes no cenário do século 21, estes termos podem ser substituídos por um simples termo: mudanças climáticas.

É nítido que o nosso planeta está em mudança, e ela é totalmente compreensível. Ao longo da história, a Terra passou por inúmeras fases e estados até se tornar o nosso querido lar. O grande problema da atual mudança, que ela está sofrendo atualmente, é que a humanidade quem está sendo o agente de transformação (e não necessariamente está sendo para o melhor!). Por conta do crescimento urbano caótico, avanço das cidades diante dos ecossistemas, a exploração prejudicial dos recursos naturais e o pior, o modo como se explora o planeta, está prejudicando de uma maneira quase irreversível toda a natureza.

Uma das principais consequências dessa relação desarmoniosa é a mudança climática. Mas afinal de contas, o que são as mudanças climática? Em termos gerais, são as variações climáticas: desde a precipitação da chuva, nebulosidade até a temperatura, numa escala global. Um ponto importante para se destacar é que quando se fala das mudanças climáticas, não se entende uma variação do dia para outro, mas sim ao longo prazo, ao longo de vários anos ou décadas. E o principal erro que muitos cometem é confundir que as mudanças climáticas são a mesma coisa que o aquecimento global.

O aquecimento global é uma consequência direta das mudanças climáticas (que já vem acontecendo ao longo de vários anos!), mas não é a única. Entretanto, se apresenta como um dos principais impactos que acometem o planeta no curto prazo. E o pior, impacta diretamente a saúde humana.

A mudança climática e a saúde

A humanidade sofre inúmeros impactos sobre diversos fatores, e um dos que mais geram influência é a mudança do clima, que ocasionará vários efeitos, em diversas intensidades e esferas: educacionais, econômicos, culturais, sociais, entre outros. É muito difícil e complexo avaliar todos estes efeitos, especialmente na saúde, por ser necessário uma avaliação interdisciplinar com os profissionais de saúde, climatologistas, cientistas, epidemiologistas e inúmeras outras ciências que se interrelacionam.

As mudanças climáticas estão intimamente relacionadas com a saúde humana, apesar das pesquisas não terem este objetivo como principal, e seguem diferentes vias. Um exemplo claro desta relação foi o caso do furacão Catarina, que atingiu o estado de Santa Catarina em 2004: por conta desta catástrofe, que aconteceu de forma pontual, a população foi impactada diretamente por esta adversidade do clima, perdendo moradias e sofrendo sérios prejuízos no curto prazo. Já por outro lado, o clima pode afetar também de forma indireta, através das alterações na natureza, como o aumento de doenças infectocontagiosas que decorrem por conta do desmatamento, ou até mesmo dentro do campo dos distúrbios de nutrição e alterações mentais.

Certas pesquisas mostraram que, por conta da elevação das temperaturas, microorganismos adquirem a habilidade de expansão para além de seus ambientes naturais, alcançado outras regiões geográficas. Isto impacta diretamente a saúde de pessoas mais vulneráveis, como os idosos que já possuem seu sistema imune enfraquecido, crianças e portadores de doenças crônicas.

Doenças infectocontagiosas como a malária, dengue e febre amarela são afetadas também: seus vetores conseguem se distribuir com maior alcance e estabelecem processos endêmicos e epidêmicos em regiões que nunca tiveram contato prévio.

As principais doenças influenciadas pela variabilidade do clima no Brasil

Algumas doenças possuem importante papel dentro do cenário epidemiológico brasileiro, e estão fortemente influenciadas pela variabilidade do clima. A seguir, confira algumas características delas, todas de acordo com o Pacto de Atenção Básica do Ministério da Saúde.

1-) Dengue

– O número de casos médios anuais, entre 2004 e 2008, foi de 315 mil.

– A porcentagem de casos por regiões brasileiras: 44% (Sudeste), 30% (Nordeste), 14% (Centro-Oeste), 10% (Norte) e 2% (Sul).

– Principais condicionantes ambientais: aumento da temperatura, umidade e precipitação

– Principais condicionantes socioeconômicos: características habitacionais, ordenamento territorial, saneamento básico e intermitência do abastecimento de água

2-) Malária

– O número de casos médios anuis, entre 2004 e 2008, foi de 470 mil.

– A porcentagem de casos por regiões brasileiras: 99% na Amazônia Legal.

– Principais condicionantes ambientais: forte variabilidade da precipitação, ocasionando aumento de locais propícios para procriação do vetor e alteração na cobertura vegetal.

– Principais condicionantes socioeconômicos: alteração no uso do solo, movimentos populacionais e mobilidade da população em áreas de risco.

3-) Febre amarela

– O número de casos médios anuais, entre 2004 e 2008, foi de 14.

– A porcentagem de casos por regiões brasileiras: 43% (Centro-Oeste), 20% (Sudeste), 19% (Norte) e 18% (Sul).

– Principais condicionantes ambientais: alteração na cobertura vegetal, aumento de temperatura e de precipitação e hidrografia

– Principais condicionantes socioeconômicos: não vacinação, alteração no uso do solo, proximidade de domicílio de locais de risco

– Mobilidade de população em área de risco

– Atividades de exposição profissional (trabalhadores rurais e extrativista) ou de lazer (turismo rural ou ecoturismo).

4-) Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA)

– O número de casos médios anuais, entre 2004 e 2008, foi de 25 mil.

– A porcentagem de casos por regiões brasileiras: 43% (Norte), 29% (Nordeste), 15% (Centro-Oeste), 10% (Sudeste) e 3% (Sul).

– Principais condicionantes ambientais: aumento na temperatura e queda de precipitação e alterações na cobertura vegetal (florestas tropicais).

– Principais condicionantes socioeconômicos: domicílios em áreas de risco e mobilidade de população em área de risco.

Estas foram só algumas das doenças que são influenciadas pelas mudanças climáticas, e também pela relação desarmoniosa que a população estabelece com a natureza. Todas elas são infecto-parasitárias, demonstrando que este grupo possui características que se relacionam diretamente com a natureza, especialmente com variáveis atmosféricas e geográficas. De acordo com a distribuição de chuvas, aumento na temperatura e remoção da cobertura vegetal ou desmatamento, seus números podem variar em uma determinada proporção, evidenciando o quanto as mudanças climáticas ditam sobre quais doenças acometeram a saúde humana.

Futuros desafios

Após tudo isso, pode-se perceber o quão íntimo a saúde humana está entrelaçada com as mudanças climáticas. E, remetendo ao início do texto, isto só é a ponta do iceberg. Quando falamos sobre mudanças climáticas e de todas as relações que estão envolvidas, o debate é grande e inúmeros desafios surgem com ele.

Estas alterações no planeta ameaçam até mesmo algumas conquistas e esforços que a humanidade fez para reduzir as doenças transmissíveis e não-transmissíveis. A temperatura, umidade e as chuvas podem aumentar os efeitos de comorbidades crônicas, como as respiratórias, além de aumentar a exposição aos poluentes atmosféricos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, metade destas doenças e 50% das agudas estão associadas à exposição a estes resíduos presentes na atmosfera.

As mudanças climáticas se mostram como um grande desafio a ser superado, especialmente no ramo da saúde. E um dos meios de se enfrentar é através do debate e da implementação de estratégias e planos que sejam realmente eficazes e que contemplem todas as relações interdisciplinares.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

1-) Mudanças Climáticas – Brasil 2. Meio Ambiente e Saúde Pública – Brasil I. Organização PanAmericana da Saúde. II. Ministério da Saude. III. Título.

2-) Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net; Ministério da Saúde – Pacto de Atenção Básica; Ministério da Saúde – Secretaria de Vigilância em Saúde (www.saude.gov.br/svs) e SUCEN (http://www.sucen.sp.gov.br/doencas)

3-) OMS – Organização Mundial de Saúde. Protential health effects of climatic change – Report of a WHO Task Group, Doc. WHO/PEP/90.10. Geneva: WHO, 1990.

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