Anatomia de órgãos e sistemas

Nervo acessório: o esquecido | Colunistas

Nervo acessório: o esquecido | Colunistas

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Bárbara Galardino

7 min há 204 dias

O nervo acessório, também conhecido como XI par dos nervos cranianos, é uma das partes que gosto de chamar de injustiçadas da neuroanatomia. Ficamos tão preocupados com outras estruturas “mais nobres”, que este pobre nervo acaba passando despercebido. Então hoje resolvi vestir minha capa e defendê-lo, mostrando que deve sim ser lembrado, pois, além de interessante – diria, inclusive, polêmico –, tem relevâncias clínicas.

Localização da origem do nervo acessório
Imagem disponível em: https://www.tuasaude.com/nervo-vago/

Recordando sua anatomia

            Para me auxiliar nesta tarefa, resolvi desempoeirar o grande Machado (não o de Assis, mas sim da neuroanatomia) para me ajudar. Ele nos revela que o nervo acessório é composto por duas raízes: uma craniana (ou bulbar) e uma espinhal.

            A raiz espinhal surge da face lateral dos cinco ou seis primeiros segmentos cervicais da medula, que se juntam e penetram o crânio pelo forame magno, para se juntarem à raiz bulbar, que, por sua vez, emerge do sulco lateral posterior do bulbo, formando um único tronco.

            Este tronco comum atravessa o forame jugular na companhia dos nervos glossofaríngeo e vago (as “primas blogueiras” do acessório), e se dividirá novamente em dois ramos: o externo, que contém as fibras da raiz espinhal e inerva os músculos trapézio e esternocleidomastóideo, e o interno, que contém fibras da raiz bulbar, que se une ao vago e distribui-se com ele.

            O ramo interno possui dois tipos de fibras: as eferentes viscerais especiais, responsáveis pela inervação dos músculos da laringe através do nosso conhecidíssimo nervo laríngeo recorrente, e as eferentes viscerais gerais, que inervam vísceras torácicas com as fibras do nervo vago (e você aí creditando tudo ao vago, não é?!).

Curiosidades anatômicas

            Antes de sair pelo forame jugular, o nervo acessório repousa sobre a artéria vertebral. Esta informação parece ser inocente, mas, se você parar para pensar, pode influenciar e muito a função do nervo, pois, se houver alguma calcificação na artéria ou caso esta seja acometida por alguma vasculopatia, poderá haver compressão do NC XI.

            Nosso querido nervo também é envolvido pelo ligamento denticulado, que, caso você não se lembre, é um septo de tecido conjuntivo que percorre desde a medula à dura-máter. Se houver uma tração do trato cervical, tanto muscular quanto vertebral, devido à presença desta estrutura, pode desencadear alterações acessórias.

A polêmica

            Por definição clássica, os nervos cranianos são nervos que emergem diretamente do encéfalo, o que vai de encontro com o que ocorre com o nervo acessório, havendo discussões no meio científico se ele realmente deveria ser considerado parte deste seleto grupo, afinal a sua parte craniana é minimamente associada à parte espinhal e rapidamente se separam, seguindo caminhos diferentes. Ou seja, a sua parte mais significativa surge abaixo do crânio.

Aplicações clínicas

Exame físico do nervo acessório

            Para realizar a avaliação de sua funcionalidade, basta analisar os músculos trapézio e esternocleidomastoideo. No caso do primeiro, devemos pedir ao paciente que encolha os ombros. Se houver paralisia, ele não conseguirá fazer o movimento e pela inspeção conseguiremos ver atrofia. Se ele conseguir encolher os ombros, devemos aplicar uma força neles. Caso o paciente não apresente uma resistência a esta força, podemos considerar que há alteração no nervo.

Já em relação ao esternocleidomastoideo, podemos analisá-lo pedindo ao paciente que ele vire a cabeça de um lado para o outro, tentando vencer uma resistência que aplicamos com as mãos.

Pela inspeção, poderemos notar incapacidade de manter a cabeça em uma posição neutra e deslocamento da escápula do lado acometido.

Lesões

            Falamos sobre como podemos analisar o NC XI, mas não sobre o que pode danificá-lo. Primeiramente, é importante saber que qualquer que seja a altura da origem da lesão do nervo acessório, ela irá se manifestar como paralisia dos músculos inervados por ele, ou seja, o esternocleidomastóideo e o trapézio.

            Podemos separá-las em iatrogênicas e diretas e, ainda, devido ao caminho relativamente longo do nervo, em lesões intra e extracranianas.

            As lesões iatrogênicas, na maioria das vezes, são extracranianas. Se devem a procedimentos cirúrgicos que envolvem principalmente a região cervical, como a endarterectomia de carótida, tireoidectomia ou até mesmo biópsias cervicais.

            Já as lesões diretas podem surgir na área cervical, no forame magno, no forame jugular ou ainda em área intracraniana. Dentre elas, é interessante saber que existem síndromes, como as de Collet-Sicard e Vernet, que causam paralisias em vários pares de nervos cranianos, entre eles o acessório, devido à compressão por schwannomas ou tumor glômico jugular do forame jugular.

Curiosidade clínico-cirúrgica

            Para afirmar um pouquinho mais a importância do nervo acessório, vou mostrar que, além de polêmico e responsável pela inervação de musculaturas importantes do nosso corpo, ele ainda é generoso, podendo ser utilizado como enxerto nervoso em casos de lesões dos nervos do plexo braquial, como o radial, supraescapular e axilar, também sendo usado em pacientes tetraplégicos, substituindo o nervo frênico.

Conclusão

Como vimos, o primo não famoso do vago e do hipoglosso também possui uma história importante e tem coisas a nos ensinar. Sua anatomia é interessante pelas suas duas origens e, além de possuir funções importantes, ainda é capaz de auxiliar no processo de revitalização de nervos danificados.

Espero que tenha conseguido cumprir minha missão de salvadora deste pobre oprimido e que ele possa ser exaltado – e não mais esquecido – por você daqui em diante.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

  • MACHADO, Angelo B. M.. Neuroanatomia funcional. 3 ed. Atheneu Editora, 2014.
  • ·         VANPUTTE, C., REGAN, J. – RUSSO, A. Anatomia e Fisiologia de Seeley – 10 ed. Amgh Editora, 2016.
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