Anatomia de órgãos e sistemas

Nervo hipoglosso: da anatomia à clínica | Colunistas

Nervo hipoglosso: da anatomia à clínica | Colunistas

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Gabriel Salvestro

8 min há 176 dias

O nervo hipoglosso, representado pelo XII par craniano, apresenta características somáticas, motoras e majoritariamente eferentes, sendo de grande relevância para processos fundamentais à vida humana, como comunicação e alimentação, uma vez que é responsável pela inervação dos músculos que movimentam a língua. No presente artigo serão abordados aspectos neuroanatômicos e funcionais do XII par, bem como sua função associada aos músculos por ele inervados. Serão abordados também aspectos clínicos das disfunções do hipoglosso e suas etiologias, bem como seus sinais, sintomas e diagnóstico, cruciais para identificação, tratamento e consequente melhora da qualidade de vida de pacientes acometidos.  

Aspectos neuroanatômicos

            O nervo hipoglosso ou XII par craniano, classificado como somático, motor e eferente, possui origem real nos chamados núcleos do hipoglosso, localizados no tronco encefálico, ao nível do denominado trígono do hipoglosso. Sua origem encefálica aparente se dá através do sulco lateral anterior do bulbo, enquanto que sua origem craniana é dada por meio do canal do hipoglosso, na base do crânio. Em seu trajeto descendente, em direção aos músculos linguais, acumula fibras oriundas dos nervos espinais C1 e C2. Emite diversos ramos ao longo de seu trajeto, o qual se dá majoritariamente próximo à borda lateral da artéria carótida interna, acompanhando-a até as cercanias da bifurcação carotídea. Tais ramos são responsáveis pela inervação de distintos músculos linguais.

O XII par craniano tem sua função motora classificada como ipsilateral em relação aos seus núcleos, embora a comunicação entre o córtex cerebral e estes, mediado pelo trato corticonuclear, se dê de forma bilateral predominantemente cruzada. As informações corticais enviadas aos núcleos do hipoglosso têm origem nas porções do giro pré-central próximas à fissura lateral, sendo esta região amplamente desenvolvida em seres humanos em relação a outros primatas.  

Figura 1. Origem aparente do XII par craniano
Fonte: Google Imagens

Funções

O nervo hipoglosso é responsável pela inervação dos músculos associados à movimentação da língua, classificados como extrínsecos e intrínsecos a ela. Dentre os músculos extrínsecos da língua, destacam-se o genioglosso, o hioglosso, o estiloglosso, o gênio-hióideo e o tiro-hióideo. Já dentre os músculos intrínsecos da língua destacam-se o longitudinal superior e inferior, o transversal e o vertical. O primeiro grupo muscular está ligado à movimentação lingual propriamente dita, possuindo pontos de origem fora da língua e de inserção em seu interior, enquanto que o segundo grupo está associado a alterações da forma desta estrutura, possuindo seus pontos de origem e inserção na própria língua.    

A ampla gama de movimentos e alterações de sua forma apresentadas pela língua é fundamental a processos como articulação de sons, deglutição e mastigação. Também permitem sua manutenção em posição anatômica, sem que haja queda de base de língua associada à obstrução de vias aéreas. É importante ressaltar a existência do único músculo lingual não inervado pelo hipoglosso: o palatoglosso, classificado como extrínseco à língua.

Etiologia das disfunções do hipoglosso

As funções motoras do nervo hipoglosso podem ser alteradas por diversos processos associados à sua compressão, lesão, infecção ou desmielinização. Em razão de sua anatomia, tumores ou anormalidades ósseas relacionadas à base do crânio apresentam elevado potencial de compressão do XII par craniano. Não raras são também as compressões aneurismáticas desta estrutura, as quais podem evoluir para um acidente vascular hemorrágico ante o rompimento das artérias da base do crânio, comprometendo a irrigação dos núcleos do hipoglosso. Estes também podem ser afetados por infecções que acometem o tronco encefálico, o que pode resultar não apenas em alterações associadas ao tônus e à motricidade lingual, como também à função dos demais pares cranianos cujos núcleos se encontram no tronco encefálico. Ainda em relação aos AVCs, quando estes se processam em regiões corticais de onde partem estímulos ao núcleo do hipoglosso, também há prejuízo no que tange às funções do XII par, embora em menor grau dada a comunicação cruzada dos tratos corticonucleares neste caso.

No que tange à compressão iatrogênica e, mais raramente, à lesão iatrogênica total ou parcial do XII par craniano, estas são consideradas as complicações envolvendo nervos periféricos mais comuns durante as cirurgias para extração de tumor em corpos carotídeos ou de desobstrução arterial a nível da bifurcação carotídea (endarterectomia). Durante tais procedimentos, em razão da proximidade entre o trajeto do hipoglosso e a bifurcação das carótidas, é comum que o edema provocado pela intervenção exerça compressão do nervo em questão. Embora nestes casos a disfunção do XII par seja benigna e de resolução espontânea num período de até seis meses, alguns pacientes demonstram alterações permanentes do tônus e da motricidade lingual, sobretudo aqueles que já a apresentaram em outros momentos em razão de outras etiologias. Vale lembrar que, dentre as causas desmielinizantes da disfunção do hipoglosso, destaca-se a esclerose lateral amiotrófica (ELA) ou doença de Lou Gehrig.

Sinais, sintomas e diagnóstico das disfunções do hipoglosso

            Em geral, as disfunções do nervo hipoglosso costumam manifestar-se como alterações da motricidade e do tônus lingual, havendo posterior atrofia por desuso da língua de modo ipsilateral ao nervo acometido, com desvio também ipsilateral desta estrutura quando é solicitada ao paciente sua protrusão. Como consequência destas alterações, o indivíduo acometido pode queixar-se de dificuldades durante a deglutição (disfagia) e durante a fala (disartria). Em caso de acometimento bilateral do XII par craniano, além da imposição de maiores dificuldades durante a fala e a deglutição, a queda da base da língua pode resultar em obstrução de vias aéreas, configurando emergência médica com necessidade de intervenção imediata por meio de medidas como a traqueostomia.

            O diagnóstico das disfunções do hipoglosso é eminentemente clínico (avaliação de volume, força, motricidade e destreza lingual através do uso de abaixadores, palpação por sobre a bochecha e movimentação ativa da língua com e sem imposição de resistência por parte do avaliador), embora devam ser utilizados também recursos como exames de imagem para a identificação de possíveis etiologias. Neste caso, considera-se o padrão-ouro a ressonância magnética, ideal para visualização de tumores, aneurismas, AVCs, dentre outras anormalidades ósseas e cerebrovasculares. Laboratorialmente, a punção lombar com posterior análise bioquímica do líquido cefalorraquidiano pode revelar etiologias associadas a neoplasias e infecções de tronco encefálico.  

Conclusão

            O nervo hipoglosso ou XII par craniano, definido como somático, motor e eferente, possui origem real nos núcleos do hipoglosso, os quais se comunicam com o giro pré-central cortical. Possui origem encefálica e craniana aparente no sulco lateral anterior do bulbo e no canal do hipoglosso, respectivamente. Inerva os músculos intrínsecos (associados à alteração da forma da língua) e extrínsecos (associadas à movimentação propriamente dita da língua) linguais. Deve ser clinicamente avaliado durante o exame neurológico para que sejam constatadas alterações de força, motricidade e atrofia lingual. A etiologia deve ser pesquisada por meio de exames de imagem e laboratoriais para que o tratamento se torne efetivo e eficaz. A história do paciente, bem como outros achados clínicos devem ser levados em consideração para diagnóstico etiológico. O conhecimento da neuroanatomia e da fisiologia do XII par craniano é de suma importância para que a medicina possa exercer impactos significantemente positivos na vida do paciente acometido por disfunções do hipoglosso, as quais podem se instalar de diversas formas, inclusive iatrogênicas, impossibilitando-o de realizar atividades corriqueiras como articular sons e se alimentar devidamente.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-cerebrais,-da-medula-espinal-e-dos-nervos/doen%C3%A7as-dos-nervos-cranianos/doen%C3%A7as-do-nervo-grande-hipoglosso

https://www.kenhub.com/pt/library/anatomia/nervo-hipoglosso-xii

https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3283542/mod_resource/content/1/Semiologia%20Nervos%20Cran%20e%20Sd%20Tronco%20Parte%205.pdf

https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-72992002000100012

https://www.neurologiapaulobrito.com/pdf/pdf_programa_residencia/pares_cranianos/Hipoglosso_Decimo_Segundo_Nervo_Craniano.pdf

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