Clínica Médica

Novas diretrizes para o diagnóstico de fibromialgia | Colunistas

Novas diretrizes para o diagnóstico de fibromialgia | Colunistas

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Gabriela Bochi

6 minhá 166 dias

Antes de abordar as novas diretrizes para o diagnóstico de fibromialgia, é interessante recordar a definição dessa doença.

A fibromialgia é uma síndrome, caracterizada por uma dor musculoesquelética difusa e crônica. Há um distúrbio no processamento da dor associado a outras características secundárias. Ela não é uma doença autoimune ou inflamatória, mas pesquisas sugerem que envolve o sistema nervoso. O paciente com essa doença apresenta alta sensibilidade ao toque e à compressão da musculatura, pelo examinador ou por qualquer outra pessoa. Aliados a esse sintoma característico estão: fadiga ou cansaço, distúrbios do sono, rigidez matinal, parestesias de extremidades, sensação subjetiva de edema e distúrbios cognitivos, com alteração de atenção e memória.

A fibromialgia é uma doença reumatológica e, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, é muito frequente. De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, cerca de 5% dos pacientes que vão em um consultório de Clínica Médica são diagnosticados com fibromialgia, ao passo que 10 a 15% dos que vão ao consultório de Reumatologia apresentam essa condição. Ainda, a fibromialgia é mais prevalente em mulheres do que em homens, possivelmente devido a questões hormonais. De acordo com a American College of Rheumatology, 2 a 4% das pessoas são afetadas pela fibromialgia.

Em geral, a fibromialgia é uma condição diagnosticada mais em mulheres na faixa etária de 30 a 60 anos. O seu diagnóstico é clínico, sendo solicitados exames apenas para diagnóstico diferencial. Torna-se difícil diagnosticar os pacientes com fibromialgia na prática diária, visto que não há um marcador laboratorial objetivo ou indícios em exames de imagem. Sendo assim, por vezes, o diagnóstico varia com a experiência de cada médico.

A American College of Rheumatology descreve os critérios diagnósticos da fibromialgia, no exame físico do paciente. Os primeiros critérios que padronizaram o diagnóstico foram publicados no ano de 1990, os quais definiram os 18 pontos distribuídos no corpo que poderiam indicar sensibilidade aumentada. Contudo, embora aceitos no meio científico, esses critérios foram criticados por não abordarem com devida relevância os demais sintomas, como fadiga, distúrbios do sono e déficit cognitivo.

Sendo assim, a ACR publicou no ano de 2010 novos critérios, que incluíam esses sintomas secundários. O diagnóstico fundamentado nesses critérios é baseado no número de regiões dolorosas do corpo e na presença e gravidade da fadiga, do sono não reparador e da dificuldade cognitiva. Um ponto interessante dessa publicação é a exclusão da palpação dos pontos dolorosos.

            O paciente é diagnosticado com fibromialgia se as seguintes três condições são satisfeitas:

  • Índice de dor generalizada (Widespread Pain Index – WPI) maior ou igual a 7 e pontuação da escala de severidade dos sintomas (Symptom Severity – SS) maior ou igual a 5 OU WPI entre 3 a 6 e pontuação da escala de SS maior ou igual a 9;
  • Os sintomas devem estar presentes em um nível similar por no mínimo 3 meses;
  • O paciente não deve ter outra condição de saúde que explicaria a dor.

Widespread Pain Index (WPI)

Este índice avalia o número de áreas em que o paciente teve dor generalizada pelo menos nos últimos sete dias. Cada área corresponde a 1 ponto e este índice pode variar entre as pontuações 0 a 19.

As possíveis áreas dolorosas são:

  • Cintura escapular esquerda;
  • Cintura escapular direita;
  • Membro superior esquerdo proximal;
  • Membro superior direito proximal;
  • Membro superior esquerdo distal;
  • Membro superior direito distal;
  • Quadril (nádega, trocanter) esquerdo;
  • Quadril (nádega, trocanter) direito;
  • Membro inferior esquerdo proximal;
  • Membro inferior direito proximal;
  • Membro inferior esquerdo distal;
  • Membro inferior direito distal;
  • Mandíbula esquerda;
  • Mandíbula direita;
  • Região anterior do tórax;
  • Abdome;
  • Região posterior do tórax;
  • Região lombar;
  • Pescoço.

Aqui está uma imagem para nos guiar com relação a essas regiões:

Fonte: www.oregonpainguidance.org

Escala de Severidade dos Sintomas

            A Escala de Severidade dos Sintomas resulta em uma pontuação que é obtida pela soma da gravidade dos três sintomas principais: fadiga, sono não reparador e sintomas cognitivos e da gravidade dos sintomas somáticos gerais.

            Considere como sintomas somáticos gerais: dor muscular, síndrome do intestino irritável, cansaço, problemas de pensamento ou memória, fraqueza muscular, dor de cabeça, dor ou cãibras no abdome, dormência ou formigamento, tontura, insônia, depressão, constipação, dor na parte superior do abdome, náuseas, nervosismo, dor no peito, visão turva, febre, diarreia, boca seca, coceira, respiração ofegante, fenômeno de Raynaud, urticária, zumbido nos ouvidos, vômito, azia, úlceras orais, perda de ou mudança no sabor, convulsões, olhos secos, falta de ar, perda de apetite, erupção cutânea, sensibilidade ao sol, dificuldades auditivas, contusões fáceis, queda de cabelo, micção frequente, dor ao urinar e espasmos na bexiga.

            Primeiro, com relação aos sintomas principais, atribua a correta pontuação de acordo com o nível de gravidade desses sintomas ao longo dos últimos 7 dias:

  • 0 = nenhum problema;
  • 1 = problemas leves ou intermitentes;
  • 2 = problemas moderados ou frequentemente presentes;
  • 3 = Problemas intensos ou contínuos.

Em seguida, com relação aos sintomas somáticos gerais, pontuar se o paciente apresenta:

  • 0 = nenhum sintoma;
  • 1 = poucos sintomas;
  • 2 = um número moderado de sintomas;
  • 3 = muitos sintomas.

E como fica o teste dos pontos dolorosos?

            O diagnóstico de fibromialgia pode ser feito utilizando apenas os critérios publicados pela ACR em 2010, contudo a aplicação deles junto aos critérios de 1990 aumentam a probabilidade de um diagnóstico correto.

            O que se tem observado é que a medida dos pontos dolorosos não era muito utilizada na clínica e varia conforme a pressão exercida pelo examinador. Entretanto eles podem ser úteis no diagnóstico quando são utilizados em conjunto com os critérios de 2010.

            Muitos diagnósticos positivos de fibromialgia ocorrem quando são contados 6 a 18 pontos dolorosos e o diagnóstico é fortemente negativo quando são mensurados de 2 a 3 pontos dolorosos.

Autor: Gabriela Silva Bochi

Instagram: @gabriela_bochi

Facebook: gabriela.s.bochi

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