Colunistas

Nuances do tratamento medicamento ao transtorno por uso de álcool | Colunistas

Nuances do tratamento medicamento ao transtorno por uso de álcool | Colunistas

Compartilhar
Imagem de perfil de Josué da Silva Brito

O consumo excessivo de álcool é um dos abusos de substâncias com maior prevalência na população adulta mundial. Nos Estados Unidos, estima-se que ao menos 25% da população apresenta um consumo excessivo de álcool por ao menos um dia do mês. Apesar dos estudos serem escassos, no Brasil, a prevalência desse é de cerca de 14%, sendo superior no sexo masculino, jovens com idade entre 18 e 29 anos, pele negra e pacientes que fumam ocasionalmente.  O transtorno por uso de álcool, um transtorno psiquiátrico, caracterizado por um consumo excessivo e regular, associado a prejuízo social e clínico do paciente é causa importante de mortalidade e está associado a mais de 200 tipos de doenças e lesões (GARCIA; FREITAS, 2015; KRANZLER; SOYKA, 2018). Frequentemente associa-se a diversos outros transtornos psiquiátricos, como transtorno por uso de droga, transtornos depressivos maiores, entre outros (KRANZLER; SOYKA, 2018). Estima-se que atinja cerca de 10% da população mundial em algum momento da vida (GLANTZ et al., 2019).

Pelas definições trazidas pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), compreende-se como transtorno do uso de álcool o uso excessivo dentro de 12 meses, demonstrado por ao menos duas destas características: 1. álcool é usado em frequência em quantidades maiores por um período mais longo que o pretendido; 2. não se consegue controlar ou reduzir o consumo, a despeito de um desejo existe; 3. gasta-se muito tempo para se obter, usar ou recuperar-se dos efeitos do abuso; 4. há forte desejo de se utilizar álcool; 5. uso recorrente de álcool afeta no cumprimento de obrigações regulares; 6. uso continuado apesar de problemas sociais ou interpessoais associados ao álcool; 7. o uso resulta em abandono ou redução de atividades sociais, ocupacionais ou recreativas; 8. uso recorrente resulta em situações fisicamente perigosas; 9. apesar do conhecimento de problema, persiste-se no uso; 10. verifica-se tolerância pela necessidade de quantidades cada vez maiores de álcool ou há uma redução de efeito; e 11. síndrome de abstinência causada pela retirada ou uso de álcool para aliviá-la. Ademais, pode ser qualificado como leve, se houver 2 ou 3 sintomas, moderado, na presença de 4 ou 5, e grave, se houver 6 ou mais sintomas (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).  

Embora não se conheça todas os aspectos etiológicos e não se tenha desvendado completamente a neurofarmacologia desse vício, sabe-se que metade dos pacientes com o transtorno apresentam comportamentos hereditários, enquanto o restante é associado a estressores, como violência doméstica, doença psiquiátrica no núcleo familiar, histórico de prisão, abuso sexual, físico ou verbal, uso excessivo de substâncias lícitas ou ilícitas. Sabe-se também que o uso de álcool gera efeitos prazerosos e estimulantes ligados a liberação de dopamina no sistema mesolímbico (KRANZLER; SOYKA, 2018).

Neste artigo, busca-se discutir medicações pesquisadas para o tratamento do transtorno por uso de álcool. 

Benzodiazepínicos 

Os benzodiazepínicos consistem na primeira linha para o tratamento da síndrome de abstinência do álcool, sendo capaz de reduzir os tremores, náuseas, vômitos, sudorese, ansiedade, taquicardia, insônia e alterações de humor associadas a uma privação significativa. Além disso reduzem a ocorrência de delirium tremens e convulsões. A medicação que atua no receptor GABAérgico é utilizada nas fases de desintoxicação do álcool – processo que pode durar de dias até semanas com a cessação do uso (TEIXEIRA, 2022). 

Contudo, embora tenha papel na abstinência, a classe não é reconhecida como um tratamento do transtorno por uso de álcool (BRADFORD; ONYSKO; HEBERT, 2017). 

Carbamazepina e outros anticonvulsivantes

A carbamazepina atua inibindo os canais de sódio dependente de voltagem e potencializando a neurotransmissão associada ao GABA. Diferentes estudos mostraram pequenas evidências de que essa medicação é capaz de reduzir os sintomas da síndrome de abstinência de álcool, em doses diárias de 800 mg por dia, contudo os estudos que chegaram a essas conclusões foram limitados, qualificando a medicação como segunda linha no tratamento da abstinência e não do transtorno primário (BRADFORD; ONYSKO; HEBERT, 2017; TEIXEIRA, 2022). 

São escassas as evidências que gabapentina, valproato de sódio, levetiracetam, pregabalina e tiabapina possam reduzir o uso de álcool. Uma revisão Cochrane, com 25 estudos, mostrou que são capazes de reduzir os dias de consumo excessivo, contudo a deficiência dos estudos gerou incertezas nessa conclusão (PANI et al., 2014)

Naltrexona 

A naltrexona (50 mg/dia), um antagonista do receptor opioide que atua reduzindo o prazer de utilizar o álcool, incluindo a euforia e o desejo, foi capaz de reduzir o consumo de álcool em diversos estudos, contudo seus resultados são extremamente variáveis em nível individual, sendo mais eficaz em pacientes que já estão em abstinência quando se inicia o uso. (BRADFORD; ONYSKO; HEBERT, 2017). A eficácia ainda depende ainda da gravidade do uso de álcool, sendo maior naqueles com maior consumo (RAY et al., 2019).

A naltrexona é capaz de reduzir o consumo excessivo de álcool, o consumo diário e a quantidade de álcool que é ingerida (RÖSNER et al., 2010).

Acamprosato 

O acamprosato é uma droga capaz de auxiliar na manutenção da abstinência em pacientes que já no momento de início não use álcool. É incerta a sua atuação, embora pareça associada ao receptor NMDA do glutamato. Mesmo para ele, contudo, há evidências controversas, sendo mais sólidas quando associadas a pacientes apresenta alta motivação em abandonar o alcoolismo (BRADFORD; ONYSKO; HEBERT, 2017).

O tratamento com a medicação foi avaliado em diferentes estudos pelo período de 3 a 12 meses, juntamente a terapia psicossocial, tendo, em relação ao placebo, obtido maior período sem álcool e maior percentual de pacientes em abstinência. Ademais, é uma medicação bem tolerada e que interage muito pouco com outras drogas (PLOSKER, 2015). Ademais, o medicamento é associado a menor risco de abandono ao tratamento e menor risco de voltar a beber em 6 meses (DONOGHUE et al., 2015). 

Dissulfiram 

O dissulfiram além de ter evidências limitadas do seu uso, não é capaz de reduzir o desejo por álcool, em contrapartida é capaz de causar sintomas desagradáveis ao uso, por inibir a enzima aldeído desidrogenase. Não é mais uma medicação recomendada pela grande quantidade de efeitos colaterais. Entre outros efeitos é capaz de causar rubor, palpitações, vômitos, cefaleia, neuropatia periférica, hepatite, sonolência, disfunção sexual, entre outras (BRADFORD; ONYSKO; HEBERT, 2017).

Antidepressivos 

Os antidepressivos não são capazes de reduzir o uso de álcool em que não apresenta transtorno mental coexistente (BRADFORD; ONYSKO; HEBERT, 2017). Todavia, cabe ressaltar que entre os pacientes com transtorno por uso de álcool há risco até sete vezes maior de apresentar algum outro transtorno mental (GRANT et al., 2017).

Topiramato

O topiramato (300 mg/dia) parece ser capaz de reduzir o consumo de álcool, diminuindo o número de dias de consumo e o de dias de consumo abusivo. Esse efeito parece melhor em genótipos específicos. Dessa forma, o estudo TOP está sendo conduzindo comparando o uso de topiramato e naltrexona em diferentes tipos genótipos, podendo representar uma revolução no tratamento do alcoolismo (MORLEY et al., 2018). 

Há evidências, embora discretas, que sugerem a superioridade do uso de topiramato a naltrexona e acamprosato. O medicamento tem melhores efeitos na abstinência (BLODGETT et al., 2014).

Conclusão

O tratamento medicamentoso do transtorno por uso de álcool guarda diversas nuances. Diversas drogas foram avaliadas, porém as evidências ainda são insuficientes. O aprofundamento dos estudos genotípicos parece ser uma solução para esse tratamento. 

Referências 

American Psychiatric Associaton. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5ª ed. S. l.: Artmed, 2014. 

BLODGETT, J. C. et al. A meta-analysis of topiramate’s effects for individuals with alcohol use disorders. Alcohol Clin Exp Res., v. 38, n. 6, p. 1481-8, jun. 2014. doi: 10.1111/acer.12411.

BRADFORD, T. W.; ONYSKO, M.; HEBERT, M. Medications for Alcohol Use Disorder. Am Fam Physician., v. 93, n. 6, p. 457-65, mar. 2016. 

DONOGHUE, K. et al. The efficacy of acamprosate and naltrexone in the treatment of alcohol dependence, Europe versus the rest of the world: a meta-analysis. Addiction, v. 110, n. 6, p. 920-30, jun. 2015. doi: 10.1111/add.12875.

GARCIA, L. P.; FREITAS, L. R. S. Consumo abusivo de álcool no Brasil: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde 2013. Epidemiol. Serv. Saúde, v. 24, n. 2, p. 227-237, jun.  2015.

GLANTZ, M. D. et al. The epidemiology of alcohol use disorders cross-nationally: Findings from the World Mental Health Surveys. Addictive behaviors, v. 102, 2020. doi:10.1016/j.addbeh.2019.106128

GRANT, B. F. et al. Epidemiology of DSM-5 Alcohol Use Disorder: Results From the National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions III. JAMA Psychiatry., v. 72, n. 8, p. 757-66, ago. 2015.

KRANZLER, H. R.; SOYKA, M. Diagnosis and Pharmacotherapy of Alcohol Use Disorder: A Review. JAMA, v. 320, n. 8, p. 815-24, aug. 2018. doi: 10.1001/jama.2018.

MORLEY, K. C. et al. Topiramate versus naltrexone for alcohol use disorder: study protocol for a genotype-stratified, double-blind randomised controlled trial (TOP study). Trials, v. 19, n. 1, p. 443, ago. 2018. doi: 10.1186/s13063-018-2824-z. 

PANI, P. P. et al. Anticonvulsants for alcohol dependence. Cochrane Database Syst Rev., n. 2014, CD008544, 2014.

PLOSKER GL. Acamprosate: A Review of Its Use in Alcohol Dependence. Drugs, v. 75, n. 11, p. 1255-68, jul. 2015. doi: 10.1007/s40265-015-0423-9. PMID: 26084940.

RAY, L. A. et al. Naltrexone effects on subjective responses to alcohol in the human laboratory: A systematic review and meta-analysis. Addict Biol., v. 24, n. 6, p. 1138-52, nov. 2019. doi: 10.1111/adb.12747. 

RÖSNER, S. et al. Opioid antagonists for alcohol dependence. Cochrane Database Syst Rev., n. 2010, CD001867, 2010.

TEIXEIRA, J. Tratamento farmacológico da síndnrome de abstinência alcoólica. Acta Med Port., v. 35, n. 4, p. 286-93, apr. 2022.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe: