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O avanço da vacinação e a mudança no perfil da Covid-19 | Colunistas

O avanço da vacinação e a mudança no perfil da Covid-19 | Colunistas

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Imagem de perfil de Maria Fernanda Lima

O avanço da vacinação contra a Covid-19, iniciada em dezembro de 2020 no mundo e em janeiro de 2021 no Brasil, tem sido acompanhado por mudanças significativas no perfil da Covid. Conforme dados do início de janeiro até julho deste ano, obtidos a partir do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe) do Ministério da Saúde, a taxa de vítimas idosas vem diminuindo desde o auge da segunda onda da pandemia ao passo que a proporção de mortes na população mais jovem tem aumentado. Esse processo, denominado de “rejuvenescimento da pandemia” por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), tem impactado significativamente na forma como a doença deve ser encarada no Brasil e é fundamental que seja abordado.

Covid-19 e a Campanha Nacional de Vacinação

A Covid-19 já ocasionou a morte de mais de quatro milhões de pessoas em todo o mundo, sendo considerada a maior pandemia da história recente da humanidade e, em decorrência disso, diversos países e empresas farmacêuticas empreenderam esforços na produção de uma vacina segura e eficaz contra a Covid-19.

Partindo desse pressuposto, o Ministério da Saúde (MS) apresentou o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, como medida adicional de resposta ao enfrentamento da doença, tida como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII). Elaborado em consonância com as orientações globais da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), o plano busca mitigar os crescentes impactos de ordem social e econômica provocados pela pandemia, estabelecendo os grupos prioritários de modo a operacionalizar a vacinação da população brasileira.

Conforme dados obtidos sobre a doença, causada pelo novo coronavírus, o SARS-CoV-2, o agravamento e óbito por Covid-19 estão relacionados especialmente a preexistência de comorbidades e outros fatores, como:

  • Doença renal crônica;
  • Doenças cardiovasculares;
  • Doenças cerebrovasculares;
  • Diabetes mellitus;
  • Hipertensão arterial grave;
  • Pneumopatias crônicas graves;
  • Anemia falciforme;
  • Câncer;
  • Obesidade mórbida (IMC ≥ 40);
  • Síndrome de down;
  • Idade superior a 60 anos;
  • Imunossupressão.

Além disso, tendo em consideração os Determinantes Sociais da Saúde (DSS), também são considerados grupos de interesse para saúde pública, merecendo atenção especial devido à vulnerabilidade, as pessoas em situação de rua, as pessoas com deficiência permanente, a população indígena, ribeirinha, quilombola, carcerária e os residentes em instituições de longa permanência para idosos.

Por serem as principais vítimas, tais grupos foram priorizados no processo de imunização em massa em conjunto com os trabalhadores de saúde, expostos constantemente à doença, objetivando a redução da morbimortalidade causada pela Covid-19, bem como a proteção da força de trabalho para manutenção do funcionamento dos serviços de saúde e dos serviços essenciais.

No Brasil, a Campanha Nacional de Vacinação teve início em 18 de janeiro de 2021, contabilizando, em meados de agosto do mesmo ano, 155 milhões de doses aplicadas e 46,6 milhões de brasileiros totalmente vacinadas, correspondendo à 22,1% da população do país.

A mudança no perfil da Covid-19

O perfil epidemiológico de uma doença se caracteriza por um detalhado levantamento das características sociodemográficas, ocorrência de morbimortalidade, condições ambientais e sociais de uma determinada população. Em concordância com tal conceito, o perfil epidemiológico da Covid-19 apresenta tais características, corroborando para o planejamento e a aplicação de medidas eficazes de prevenção e promoção da saúde no contexto pandêmico atual.

Durante o ano de 2020, 70 a 80% dos óbitos por Covid-19 estavam concentrados entre pessoas com mais de 60 anos. Entretanto, entre novembro de 2020 e março de 2021, a proporção de mortes por Covid-19 relatadas entre pessoas com idade entre 30 e 59 anos aumentou de 20,3% para 26,9%. Em parte, esse panorama reflete o impacto da efetivação da Campanha Nacional de Vacinação com foco nas pessoas em idades mais avançadas, conforme o planejamento do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, todavia, diversos fatores podem estar contribuindo para esse processo.

Figura 1. Proporção de óbitos por covid-19 por faixa etária no Brasil.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-06/menos-mortes-de-idosos-por-covid-19-indicam-avanco-de-vacina

Primeiramente, o aumento da prevalência geral da doença nas últimas semanas e na mortalidade geral por Covid-19 de cerca de 500 para cerca de 2.500 mortes por dia tem como consequência a elevação do número de casos nos mais jovens. Além do mais, apesar de sua parcela reduzida de mortalidade por Covid-19 relatada, o número absoluto de mortes diárias por Covid-19 para pessoas com 60 anos ou mais aumentou de cerca de 400 para mais de 2.000 entre os meses de janeiro e abril de 2021.

Em segundo lugar, outro fator que pode ser parcialmente responsável por essa modificação, é a exacerbada quantidade de óbitos dos indivíduos de mais idade ao longo da pandemia, o que pode significar que os sobreviventes são relativamente saudáveis ​​e, consequentemente, mais resistentes.

Além disso, fatores comportamentais também podem ter contribuído para o aumento de mortes em idades mais jovens. Ao passo que os idosos permanecem mais reclusos em suas residências e foram os primeiros a serem vacinados, os jovens, por outro lado, são a parcela da população que mais circula pelas cidades. Relatos de redução do distanciamento social de adultos jovens, seja devido à necessidade econômica ou ao “cansaço do isolamento”, têm se tornado cada vez mais frequentes, revelando uma maior exposição dessa parcela populacional à doença.

Ademais, as evidências preliminares de que a letalidade entre adultos jovens para a nova variante de Manaus é maior que para as variantes anteriores também são um fator determinante nesse contexto, tendo em vista que a vacinação não é capaz de impedir o surgimento de novas variantes, cuja disseminação é motivo de preocupação global.

Assim sendo, apesar de significativa, a mudança no perfil de idade da mortalidade por COVID-19 no Brasil não deve dirimir o fato de que três quartos das mortes ainda ocorrem entre pessoas com 60 anos ou mais e motivar um abandono ainda maior das medidas de prevenção. Pelo contrário, é necessário reforçar a adoção de intervenções não farmacológicas, como o distanciamento social, o uso de máscara de qualidade e de forma adequada e a higienização das mãos, bem como a importância da vacinação em massa e universal.

Conclusão

As mudanças no perfil da Covid-19, apesar de significativas, são apenas em parte resultado do avanço da Campanha Nacional de Vacinação, tendo em vista que diversos fatores, como o aumento da prevalência geral da doença nas últimas semanas, o aumento acentuado na mortalidade geral por Covid-19, a redução do distanciamento social de adultos jovens e as evidências preliminares de que a letalidade entre adultos jovens para a nova variante de Manaus é maior que para as variantes anteriores, são responsáveis pelo “rejuvenescimento da pandemia”. Além disso, tais fatos corroboram para o incentivo à adoção contínua de intervenções não farmacológicas essenciais que, em conjunto com a vacinação em massa, promoverão a mitigação dos impactos da pandemia de Covid-19.

Autora: Maria Fernanda Lima

Instagram: @fxrnandasouza

Referências:

INSTITUTO DE MEDICINA INTEGRAL PROFESSOR FERNANDO FIGUEIRA. Infectologista do IMIP comenta mudança no perfil de pacientes internados com Covid-19 em UTIs. IMIP. 2021. Disponível em: <http://www1.imip.org.br/imip/noticias/infectologista-do-imip-comenta-mudanca-no-perfil-de-pacientes-internados-com-covid19-em-utis.html>.

NITAHARA, Akemi. Menos mortes de idosos por covid-19 indicam avanço de vacina. Agência Brasil. 2021. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-06/menos-mortes-de-idosos-por-covid-19-indicam-avanco-de-vacina>.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a COVID-19 -PNO. Governo do Brasil. 2021. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/coronavirus/vacinas/plano-nacional-de-operacionalizacao-da-vacina-contra-a-covid-19>.

FOX, Maggie. Somente a vacinação não é suficiente para impedir a propagação de variantes. CNN Brasil. 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/saude/somente-a-vacinacao-nao-e-suficiente-para-impedir-a-propagacao-de-variantes/?amp>.

SOUZA, Luis Eugênio de; GIACOMIN, Karla; LLOYD-SHERLOCK, Peter. The changing age profile of COVID-19 mortality in Brazil: a new global trend?. University of East Anglia. 2021. Disponível em: <https://corona-older.com/2021/04/29/the-changing-age-profile-of-covid-19-mortality-in-brazil-a-new-global-trend/>. 


O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto