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O coronavírus pode ser transmitido em superfícies congeladas? | Colunistas

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Jordana Dutra

8 min há 67 dias

Pesquisas apontam que o Sars-CoV-2 pode ser transmitido em superfícies congeladas, dependendo, porém, de algumas situações coadjuvantes. Continue a leitura e veja como o vírus pode permanecer viável em temperaturas tão baixas.

1     Viabilidade de vírus no gelo

1.1 Microrganismos encontrados no gelo

Não é novidade que o gelo conserva matéria orgânica por até milhares de anos, e da mesma forma acontece com os microorganismos. Uma pesquisa liderada pela Universidade Estadual de Ohio-USA, em regiões de permafrost (solos permanentemente congelados), descobriu 33 tipos de vírus que estavam congelados há 15 mil anos. Após sequenciamento genético, percebeu-se que 28 eram vírus totalmente novos.

Uma prova importante de que esses vírus ou material genético deles podem ficar armazenados no gelo, foi a descoberta recente, na tundra do Alasca, de fragmentos de RNA da gripe espanhola que ocorreu há 109 anos atrás. 

1.2 O que o Aquecimento global tem a ver com epidemias

Com o superaquecimento global, e compreendendo essa capacidade de “sobrevivência” de microrganismos no gelo, é simples imaginar que com o derretimento desses solos congelados, muitas bactérias, vírus e materiais genéticos, que talvez algum dia já causaram uma epidemia ou pandemia, serão liberados novamente para o ambiente. E é importante frisar que como eles estão estocados há milhares de anos, a população mundial atual não teria imunidade contra eles.

Mas se eles estão “vivos” porque estão estocados no gelo, eles não se inviabilizariam quando o gelo derretesse? A geleira derretendo, a água continua ainda muito fria, esses vírus podem se deslocar e entrar na cadeia alimentar, ou serem inalados rapidamente e infectar animais e seres humanos. Não diferente desses vírus, o Sars-CoV-2 também poderá em algum momento da história ser estocado por um glaciar, mas antes disso, devemos pensar se há ambientes perto de nós que possam simular uma grande geleria, porém de período bem curto. Ou seja, “congelar” o coronavírus, carreá-lo e transmiti-lo.

1.3 Como os coronavírus se propagam de forma congelada

Os Clusters alimentícios, como são chamados os aglomerados de empresas do ramo do processamento de alimentos, principalmente de carnes, são ambientes fechados, com superfícies metálicas, com temperatura muito baixa, a umidade mantida relativamente alta e pouca luz solar, tudo isso para conservação do produto. No entanto, esse é o ambiente propício para a viabilidade do vírus. O ambiente de barulho faz com que funcionários conversem alto, disseminem o vírus, que pode contamina-los entre si, contaminar os alimentos e serem posteriormente transportados nacional e internacionalmente, disseminando a pandemia.

Como quando houve novos surtos de covid-19 na Nova Zelândia, Vietnã e China, principalmente nessas empresas e cujas buscas permitiram encontrar Sars-CoV-2 infeccioso nas máquinas e nas carnes mesmo congeladas. Inclusive, essa questão rendeu prejuízo para o Brasil, com a suspensão das importações de carne. Dessa forma, algumas pesquisas vieram colaborar na descoberta se o coronavírus é transmitido por superfícies e em quais condições e temperatura.

Fonte: brasil.elpais.com

2. Coronavírus e as superfícies

2.1 Pesquisa de viabilidade do Sars-CoV-2 em superfícies e temperaturas diferentes

Um estudo publicado no Virology journal em 2020 testou a capacidade do SARS-COV-2 permanecer em algumas superfícies, em 3 diferentes temperaturas ( 20° C, 30° C e 40° C), para isso, usaram uma concentração de vírus diluída em composição que imitou o fluido corporal humano e que fosse capaz de ser depositada em uma superfície. Além disso, utilizou-se de controle de umidade do ambiente de teste (50% UR), assim como a realização do teste em escuro, uma vez que já se sabe que a luz ultravioleta é capaz de inativar o vírus. Como resultado dessa pesquisa temos que ( Figura 1): Em todas as superfícies testadas, o Sars-cov-2 permaneceu por mais tempo ( 28 dias) quando na temperatura de 20° C. E por menos tempo ( 5 horas à 10,5 horas) quando na temperatura de 40° C. Para o algodão, a permanência do vírus foi muito pequena, cerca de 5 horas mesmo em temperatura de 20° C, associando-se a esse fenômeno a capacidade de adsorção do tecido.

Figura 1. ( Permanência do Sars-coV-2 nas superfícies, em três temperaturas diferentes, dada em dias: Aço inoxidável, Nota em polímero, Nota em papel, Vidro, Vinil, Roupa de algodão).
Fonte: https://virologyj.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12985-020-01418-7

De acordo com um estudo realizado no Estados Unidos, apesar dessa possibilidade de transmissão ser possível, ela seria de 1 em cada 10.000 toques em uma superfície. Por isso, a desinfecção de ambientes, maçanetas, sapatos, cadeiras, praças e calçadas seria um tanto exagerado. E a OMS ainda alerta para o cuidado com esses produtos, como sprays, a final podem causar acidentes como queimaduras. No entanto, o uso do álcool em gel nas mãos e o uso da máscara continua primordial para evitar o contágio da doença.

2.2 Pesquisa de Sars-CoV-2 em carnes em temperaturas de refrigeração e congelamento padrões

Outro estudo que evidencia que a transmissão do coronavírus pode ocorrer por superfícies congeladas, utilizou da performance de inocular certa quantidade de Sars-coV-2 em 500mm³ “cubinhos” de carne de frango, salmão e porco, armazenando-os em 3 temperaturas diferentes ( 4° C, -20° C, -80° C). Depois disso, esses vírus eram tirados em (1, 2, 5, 7, 14, 21) dias e colocados em -80° C. Como resultado, obteve-se que a concentração de Sars-coV-2 era a mesma durante todo o experimento, continuando ser infectivo até 3 semanas a refrigeração  4° C  e ao congelamento ( -20° C e -80° C).

Portanto, a contaminação de alimentos e embalagens é muito possível, assim como seu transporte viável, uma vez que o transporte de carnes se dá em automóveis preparados com condições para a conservação do alimento.

3 Conclusão

Apesar de não ser a principal forma de transmissão (gotículas e aerossóis) do Sars-Cov-2, a transmissão por superfícies congeladas é possível, devido a sua maior viabilidade e duração em ambientes frescos, umidade controlada e congelados (20° C à – 80° C) e menor em ambientes quentes. Os vírus em ambientes propícios se soltam e podem adentrar as vias respiratórias ou os olhos. Logo, tendo em consideração a importação e exportação de alimentos congelados, com manuseio direto de funcionários, o conhecimento é extremamente relevante, para que as empresas sigam protocolos de biossegurança e a população em geral seja orientada na higiene dos produtos que chegam do supermercado, e cuidados pessoais, a fim de evitar esse possível acidente. Afinal de contas, todos os estudos são novos a respeito do novo coronavírus são muito recentes e nunca se sabe quando será o toque “premiado” entre os 10.000 toques em uma superfície que poderá transmitir o vírus.

Autora: Jordana Dutra da Silva

Instagram: @dutrajordy https://www.instagram.com/dutrajordy/

Referências:

O  Efeito da temperatura na persistência de SARS-CoV-2 em superfícies comuns- https://virologyj.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12985-020-01418-7título da página

Tem alguma temperatura em que o novo coronavírus não resista?-http://portal.fiocruz/pergunta/tem-alguma-temperatura-em-que-o-novo-coronavirus-nao-reista

Semeadura de surtos de Covid-19 por alimentos frescos e congelados contaminados- https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.08.17.255166v1.full  

Glacier ice archives nearly 15,000-year-old microbes and phages – https://microbiomejournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s40168-021-01106-w

Pesquisadores encontram vírus congelados há 15 mil anos em geleiras no Tibete- https://www.cnnbrasil.com.br/saude/pesquisadores-encontram-virus-congelados-ha-15-mil-anos-em-geleiras-no-tibete/

Como o derretimento de geleiras está levando ao ressurgimento de doenças ‘adormecidas’- https://www.bbc.com/portuguese/vert-earth-39905298 Risco de pegar covid-19 tocando superfície contaminada é de 1 em 10.000, diz estudo nos EUA- https://brasil.elpais.com/ciencia/2021-04-06/risco-de-pegar-covid-19-tocando-superficie-contaminada-e-de-1-em-10000-diz-estudo-nos-eua.html


O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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