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O estigma do doente mental e as fragilidades da educação médica | Colunistas

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Antonio Pedro Suarte

5 minhá 116 dias

Sabemos lidar com o paciente com transtorno mental?

Quantos de nós já não escutou uma piadinha sobre doença mental?

Será que realmente é apenas uma piada ou isso reflete algo que está enraizado em nossa cultura?

A construção de um entendimento de saúde universal coloca o médico frente a variadas situações. Hoje, seja o médico recém-formado ou especialista, ele deve estar apto a lidar com os vários tipos de pacientes e suas comorbidades, que vão além do intuito de uma consulta específica. Pacientes portadores de transtornos mentais, livres da concepção manicomial anterior, não estão estritos ao psiquiatra e, atualmente, permeiam diferentes especialidades médicas; afinal, ter alguma doença mental não o exime de ter um problema cardíaco. Mas será que formamos profissionais capazes de atender esses pacientes sem nenhum pré-conceito?

Pacientes carregam consigo estigmas, os quais ainda são reproduzidos e reforçados por profissionais de saúde, logo, pela classe médica. Pacientes com algum transtorno mental estão entre as principais vítimas desse processo de estigmatização, presente inclusive em profissionais da área de saúde mental. Esse comportamento tem levado médicos a assistirem esses pacientes de maneira deficitária, muitas vezes não dando valor à queixas reais, dificultado acesso à saúde e, por consequência, retirando-lhes a qualidade de vida.

Diante deste cenário, o entendimento inicial seria o de trazer para a educação médica o ensino obrigatório em saúde mental, melhorando o entendimento do estudante sobre conceitos da área e tentando descontruir atitudes negativas frente a esses pacientes. Mudança essa que foi um dos objetivos da reforma das Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Medicina após a aprovação do Programa Mais Médicos em 2013 e que, desde então, imputa às Instituições de Ensino Superior (IES) a obrigação de introduzir na graduação médica o rodízio na área de Saúde Mental desvinculado da disciplina de clínica médica, como era até então.

Todavia, alguns estudos apontaram que apenas essa introdução não foi suficiente para reduzir o estigma do estudante de medicina em relação ao paciente portador de doença mental; entendimento semelhante ao de estudos realizados em outros países da Europa e Ásia diante dos respectivos programas de educação em saúde mental durante a graduação médica.

Quais seriam então as variáveis a serem modificadas para promover um real efeito sobre esse estigma: a duração, a metodologia, a intervenção precoce? Estudos atuais se debruçam sobre esse cenário na tentativa de entender o que precisa ser modificado. A duração da disciplina parece não ter efeito satisfatório sobre o resultado final na redução do estigma, apesar de apresentar melhoria em grupos onde a linha de base do estudo, pré-intervenção, mostra grande estigmatização. Os tipos de metodologias utilizadas também parecem não trazer grandes efeitos, principalmente dentre as consideradas metodologias ativas.

O que sabemos é que o estigma sobre esses pacientes não é algo pueril, está enraizado em nossa cultura, sendo consequência de séculos de atraso no conhecimento e condução do paciente psiquiátrico; podemos identificá-lo sendo reproduzido diariamente em programas de televisão, discursos nas mídias sociais e até em atitudes de colegas profissionais de saúde. Não sendo, portanto, difícil de compreender porquê algumas semanas em rodízios de saúde mental são insuficientes para dissuadir esse comportamento.

Como se não bastasse esse forte componente cultural, academicamente ainda se prega muito a medicina curativa, que encontra certa dificuldade em lidar com doenças crônicas ou de fisiopatologia ainda pouco esclarecida. A literatura já demonstra que médicos, principalmente jovens, têm extrema dificuldade em lidar com a condução dessas doenças, sejam elas orgânicas ou transtornos mentais, devido ao seu componente “incurável”. Status esse que vai de encontro e impõe certo bloqueio a cultura do médico salvador de vidas que ainda está presente nas universidades. Ver a melhora desses pacientes exige certo tempo, que muitos profissionais não estão favoráveis a dispor, seja por não enxergarem prognóstico ou por não conseguirem conduzir um doente que por vezes pode ser muito difícil.

Podemos elencar alguns fatores que seriam importantes nessa empreitada contra a estigmatização. O entendimento sobre a doença e seu prognóstico é um deles, sendo importante salientar que o paciente com doença mental não é sinônimo de paciente incapaz ou disfuncional, como era tratado antigamente. Tratamentos modernos, aliando psicoterapia e componente medicamentoso, conseguem conferir qualidade de vida e funcionalidade integral a esses doentes. Devemos ainda enxergar a psiquiatria como uma área médica tão respeitada quando outras áreas clínicas, deixando para traz a concepção retrógrada remanescente da cultura manicomial. Compreendermos que o processo de desconstrução e reconstrução do estudante frente a concepções estigmatizantes deve ser iniciado já ao entrar na universidade, num processo longitudinal, não algo pontual no final do curso como é praticado hoje pela maioria das instituições.

Isso é apenas o começo, processos de modificação da educação médica constituem a menor parte de toda manobra necessária para combater essa estigmatização, é apenas a ponta do iceberg. Diante disso, algumas dúvidas surgem, como: Como levar essa mudança para outros cursos? Como fiscalizar o comportamento dos profissionais? Como levar essa mudança para sociedade? Temos ainda dificuldade em desconstruir o estigma de processos patológicos relativamente novos, como o da Síndrome de Imunodeficiência Humana, quem dirá o transtorno mental que está intimamente ligado à ideia de sociedade. Enfim, ainda temos um longo caminho a percorrer, muito o que compreender; o alento é que já temos progressos à vista, já encontramos a entrada dessa trilha, agora é persistir. 

Nome: Antonio Pedro de Melo Moreira Suarte

Instagram: @ap.suarte

Medium: @apsuarte

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