Anatomia de órgãos e sistemas

O impacto do novo coronavírus no sistema reprodutor masculino. | Colunistas

O impacto do novo coronavírus no sistema reprodutor masculino. | Colunistas

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Beatriz Oliveira Correia

11 minhá 14 dias

O mundo vivencia uma emergência em saúde pública, resultante da pandemia da doença do coronavírus 2019 (COVID-19). Esse vírus é composto por RNA de fita simples e possui forma de coroa, por isso o nome “coronavírus”. Diante da semelhança do novo coronavírus com o vírus SARS, ele foi denominado coronavírus 2 da síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2).

Inicialmente, foi identificado como doença respiratória, entretanto, atualmente é considerado uma patologia sistêmica, visto que pode atingir diferentes sistemas, como o sistema nervoso, hepático, gastrointestinal e urogenital.

Com o número de óbitos ultrapassando 2 milhões, um fator contribuinte para essas mortes chamou a atenção de vários pesquisadores: o sexo masculino é o mais suscetível a mortes por COVID-19. Isto ocorre porque homens possuem níveis plasmáticos mais elevados de citocinas do sistema imunológico inato e uma resposta de células T mais fraca do que as mulheres.

Além disso, níveis anormais de hormônios sexuais e diminuição da qualidade do esperma foram observados em pacientes durante a fase aguda e a recuperação de COVID-19. Ademais, foram detectados danos de inflamação graves nos testículos e a presença do vírus no tecido testicular foi relatada em algumas autópsias.

A teia histórica do SARS-CoV-2

Em 31 de dezembro de 2019, as autoridades chinesas apontaram para o surgimento de uma pneumonia que possuía etiologia desconhecida na cidade de Wuhan. Posteriormente, no dia 7 de janeiro o agente infeccioso foi identificado como um novo coronavírus, em 30 de janeiro a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou emergência em saúde pública, a posteriori a OMS declarou uma pandemia em 11 de março de 2020.

O Perfil da COVID-19

Diagnóstico e forma de contágio

A principal forma de contágio se dá por meio do contato com gotículas derivadas de espirros ou tosse de alguém contaminado, todavia, o vírus já foi isolado na urina, fezes e na conjuntiva de pacientes infectados. O padrão-ouro para diagnóstico de COVID-19 ocorre por meio da reação em cadeia de polimerase por transcrição reversa em tempo real (RT-PCR), em que o vírus pode ser detectado por meio de amostras de swab nasofaríngeo e orofaríngeo.

Sintomas

Os sintomas mais comuns do novo coronavírus abrangem: dor de cabeça, mialgias, fadiga, produção de expectoração, tosse e febre. Além dessas manifestações mais frequentes, pode ocorrer diarreia e vômitos. Saiba mais: https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#o-que-e-covid

O SARS-CoV-2 é altamente patogênico e pode levar a uma liberação descontrolada de citocinas, causando vazamento capilar, toxicidade do tecido, edema, falência de órgãos e choque.

O script do SARS-CoV-2

Receptores do processo infeccioso

O SARS-CoV-2 possui quatro proteínas estruturais principais: proteínas do nucleocapsídeo (N), pico (S), membrana pequena (SM) e membrana (M). A proteína S é necessária para adesão do vírus ao receptor da célula, isso ocorre por meio da ligação dessa proteína à enzima conversora da angiotensina 2 (ACE2) – pode ser encontrada em diversos tipos de órgãos, como nos pulmões, coração, rins, intestino, esôfago e testículos (altamente expressa em células de Leydig, células de Sertoli e túbulos seminíferos). Isso evidencia, portanto, que os testículos são vulneráveis à infecção pelo SARS-CoV-2. Após a fusão da membrana, o RNA viral é liberado no citoplasma e a replicação viral começa.

Fonte: referências 01

Paralelamente, além do receptor ACE2, é importante a presença de uma protease transmembrana denominada serina protease transmembrana 2 (TMPRSS2), a qual é responsável por auxiliar na quebra da proteína S (spike protein) viral, favorecendo sua fusão e invasão na célula. Em contrapartida, nos testículos, a coexpressão de protease TMPRSS2 é baixa em contraste com a alta expressão identificada em pneumócitos e células epiteliais nasais, o que explica a alta frequência de sintomas respiratórios no COVID-19.

Como o SARS-CoV-2 infecta o sistema reprodutor masculino?

Fisiologia do sistema reprodutor masculino

Testículo seccionado (3):

Fonte: referências 03

O testículo é composto por túbulos seminíferos e células intersticiais. É nos túbulos seminíferos que ocorre a espermatogênese, a qual consiste na maturação e divisão mitótica das células germinativas (que ficam entre as células de Sertoli) em espermatogônias, que originam os espermatócitos, os quais sofrem divisão meiótica e passam a ser chamados de espermatócitos secundários, subsequentemente entram em meiose II e se transformam em espermátides. Após o fim do processo de divisão celular, as espermátides iniciam o processo de espermiogênese, em que ocorre a transformação dessas células em espermatozoides. Assim, no final da meiose, um espermatócito primário será responsável pela origem de quatro espermátides.

Os espermatócitos II são separados das espermatogônias e dos espermatócitos I por junção célula-célula entre as células de Sertoli, que constituem uma barreira hemato-testicular (BTB), o que limita a troca de substancias entre o interstício e as células germinativas. Espermátides crescidas são liberadas no lúmen dos túbulos seminíferos, que drenam para a rete testis, e os espermatozoides passam para o epidídimo (maturação e armazenamento). No interstício do testículo, há células de Leydig (CLs)- que secretam testosterona e desempenham um papel importante na espermatogênese e na manutenção das características sexuais e células imunes. 

Rotas potenciais de SARS-CoV-2

 Legenda da imagem: BV, vaso sanguíneo; Mφ, macrófago; DC, célula dendrítica; SG, espermatogônia; PS, espermatócito primário; SS, espermatócito secundário; RS, espermátides; ES, espermatozoide. Fonte: referências 02

Testículo

O SARS-CoV-2 e níveis elevados de citocinas podem entrar no tecido testicular por disseminação hematogênica; ambos atacariam as LCs, o que afetaria a secreção de testosterona e consequentemente a espermatogênese. Além disso, a BTB, que normalmente impede a invasão viral, é suscetível à inflamação mediada por citocinas. Dessa forma, a forte disseminação de citocinas associada à infecção por SARS-CoV-2 pode causar orquite e epididimite.

A febre muito elevada (hiperpirexia) pode contribuir para a destruição inflamatória da BTB, além do que, associada a infecções, tem um impacto adverso temporário na espermatogênese, mas geralmente não resulta em danos irreversíveis. Os efeitos adversos podem abranger diminuição da concentração, alterações da morfologia e motilidade diminuída dos espermatozoides.

A expressão de ACE2 nos testículos varia com a idade, os homens na casa dos 30 anos possuem uma maior expressão. Uma vez que o vírus está presente no sêmen, os espermatozoides que expressam ACE2 podem ser infectados pelo SARS-CoV-2; teoricamente, eles podem se tornar vetores na disseminação do COVID-19, apesar de que não há estudos que comprovam a transmissão sexual do vírus.

A infecção viral requer cofatores; no caso do SARS-CoV-2, a proteína TMPRSS2 (expressa em alta coexpressão somente pelas espermatogônias e espermatozoides, no entanto, possuem baixos níveis de ACE2) potencializa a entrada dele na célula, iniciando a proteína S. Dado o baixo nível de expressão de ACE2 ou de outros cofatores nos testículos, a probabilidade de o SARS-CoV-2 infectar células do testículo via ACE2 permanece baixa. No entanto, se o vírus pode estar presente no testículo, não depende inteiramente da infecção viral. Existem outras condições em que o vírus pode entrar e romper o tecido testicular, incluindo carga viral alta no sangue, inflamação local, hiperpirexia e BTB imperfeita.

A inflamação grave induzida pelo novo coronavírus pode afetar a BTB, resultando em orquite, que pode atingir negativamente a função testicular e a fertilidade.

Em 10 autópsias de amostras testiculares de pacientes que possuíam coronavírus, 2 manifestaram orquite de origem desconhecida. Estes pacientes apresentaram alterações histopatológicas, como edema intersticial, infiltrado de células inflamatórias e exsudação de glóbulos vermelhos, diminuição do número de CLs no interstício, inchaço e rarefação nas SCs e hipoespermatogênese.

Ademais, foi detectada a diminuição da concentração de espermatozoides em pacientes internados com COVID-19; essa redução ocorreu, principalmente, por conta dos níveis elevados de interleucina-6 (IL-6), fator de necrose tumoral- α (TNF-α) e proteína quimioatraente de monócitos-1 (MCP -1) no sêmen. As citocinas como IL-6 e TNF-α perturbam agressivamente a integridade da BTB. Ao ocorrer hipercitocinemia, as citocinas passam pela BTB e induzem inflamação nos túbulos seminíferos.

Tanto no caso das autópsias quanto no caso dos pacientes internados, nenhum vírus SARS-CoV-2 foi detectado, o que indica que a orquite foi ocasionada pela resposta inflamatória e não por infecção viral direta.

Próstata

Não há evidencias da presença de RNA de SARS-CoV-2 na secreção prostática (PS).

Amostra seminal

Em um estudo com 38 homens com COVID-19, foi constatado que 6 desses pacientes possuíam o SARS-CoV-2 nas amostras de sêmen, mesmo entre aqueles que estavam se recuperando; isso evidencia, portanto, a possibilidade de o vírus ser transmitido sexualmente, em contrapartida, não há dados suficientes que demonstrem essa hipótese. Entenda mais sobre o estudo em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7206502/

Dosagens hormonais

A síntese de hormônios sexuais masculinos envolve um eixo hipotálamo, pituitária e gônadas (HPG). Alguns pacientes na fase aguda da COVID-19 podem apresentar baixos níveis de testosterona (T) e di-hidrotestosterona, o que sugere hipogonadismo em pacientes gravemente enfermos; todavia, em pacientes que estão em fase de recuperação, é mais comum altos níveis de LH e menor T total e livre.

Isso ocorre porque a inflamação prejudica as células de Leydig, as quais reduzem a secreção do hormônio andrógeno que se retroalimenta na hipófise e podem ser responsáveis pela diminuição da T e aumento do LH. 

Conclusão

É notório os danos do novo coronavírus para a saúde reprodutiva do homem, sendo imprescindível que ocorram mais pesquisas com pacientes do sexo masculino recuperados da COVID-19, principalmente os que apresentaram SARS-CoV-2 no sêmen ou orquite e diminuição da qualidade e quantidade seminal durante a doença, com o intuito de analisar se os danos à saúde reprodutiva destes permaneceria a longo prazo. No mais, as pesquisas apontadas até o momento mostraram prejuízos reversíveis a esse sistema, demonstrando um maior acometimento das funções reprodutivas em fases mais agudas da doença.

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Referências:

GRONER, F.M. et al. Effects of Covid-19 on male reproductive system. Int. braz j urol. vol.47 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2021 Epub Nov 18, 2020. (1) Link – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-55382021000100185&lang=pt

FRAIETTA, Renato, et al. SARS-COV-2 and Male Reproductive Health. JBRA Assist Reprod, 24(3): 347–350. 2020 Jul-Sep. Link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7365526/#r36

TIAN, Yu; Zhou, Li-quan. Evaluating the impact of COVID-19 on male reproduction. Jornal of society for reproduction and fertility. Volume 161: Issue 2, p. R37–R44, 2021. Link: https://rep.bioscientifica.com/view/journals/rep/161/2/REP-20-0523.xml  (2)

NETTER, Frank H. Atlas de Anatomia Humana. 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000. Link para imagem: https://www.auladeanatomia.com/novosite/pt/sistemas/sistema-genital/sistema-genital-masculino/testiculos/ (3)

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