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O mercado de saúde em 2030: o que esperar e como se preparar| Colunistas

Em tempo de tamanha velocidade nas transformações das diversas áreas do fazer humano, atentar para as tendências futuras do mercado em saúde é uma necessidade do presente. Levando em conta que o mercado nada mais é do que o resultado de uma composição de indivíduos interagindo em associações de trocas livres, este reflete os recursos de que dispomos em sociedade, a criatividade humana e as preferências e valores de um tempo. Para nós, médicos e aspirantes, enquanto profissionais liberais, reconhecer essas tendências é complementar a formação. Em tópicos a seguir estão elencados os principais desafios que um médico nos próximos 10 anos poderá enfrentar:

Tecnologia

            As transformações da forma de fazer medicina nunca ocorreram em tamanha velocidade quanto nos últimos 100 anos. Quando pensamos nos milênios de história da humanidade com um médico como um curioso e compassivo agente atuante no consolo e busca da cura de seus pacientes, e comparamos a um profissional superespecializado com necessidade constante de atualização, percebemos isso. O domínio rápido de novas tecnologias será necessário para o atendimento às demandas do mercado, o que se tornará possível à medida que novos equipamentos se tornem mais acessíveis.

            Mas, há reais perspectivas de que tecnologias tão especializadas quanto aquelas aplicáveis a saúde tendam ao barateamento?

            Sim! Isso é cada vez mais provável. A tendência atual para o “faça você mesmo” tem sido crescente em biotecnologia, o que envolve experimentações fora de laboratório, como laboratórios compartilhados, resultando em uma forma mais barata de fazer pesquisa. Hoje, é possível comprar um kit de manipulação genética na internet por 100 dólares! Um GENSPACE é o primeiro laboratório comunitário do mundo. Situado em Nova York, nele ocorre experimentação genética entre outros procedimentos envolvidos na pesquisa biotecnológica. Há quem acredite que isso potencializará a pesquisa em genética, facilitando o desenvolvimento de tecnologias baratas aplicáveis a medicina em médio prazo.

Não dá para barrar a inovação, é preciso adaptar-se

            Aparelhos de ultrassonografia portátil se encontram cada vem mais baratos, a determinação de dados laboratoriais por biotecnologia é também área de pesquisa – inclusive é inciativa da empresa NEXT GEN JANE a coleta de células cervicais através de sangue menstrual no absorvente… Isso parece distante, mas basta lembrar dos nossos oxímetros de dedos, que nos poupam tempo na avaliação de sinais vitais.

            Atualmente, a inteligência artificial da Google tem capacidade de reconhecimento de fala semelhante a um ser humano. Alguns algoritmos de imagem são capazes de reconhecer imagens de maneira igual ou superior a médicos radiologistas e patologistas… Lembremos da automatização dos hemogramas – a necessidade de avaliação de um especialista nessa análise é cada vez mais obsoleta. A ALEXA, assistente da Amazon, é capaz de responder perguntas simples sobre saúde, até o momento. A automatização de suturas, a construção de modelos em 3D para planejamento cirúrgico e a impressão de peças transplantáveis são, também, áreas de pesquisa crescentes. Todas essas observações nos colocam diante da possibilidade de sermos substituídos paulatinamente por robôs e softwares.

Foco na saúde

Serviços de prevenção e condicionamento personalizados e baseados em mapeamento genético e coleta de dados biológicos já existem, a exemplo da LAB 100 americana. O paciente pode ter acesso aos seus dados biológicos e participar da construção de um plano de melhora baseada em mudanças de estilo de vida, por exemplo. A pesquisa em dados sobre saúde e não apenas sobre doença está na base dessa nova forma de pensar o paciente. E em adendo, vale lembrar que o marketing comportamental em torno dos hábitos saudáveis torna essa disponibilidade de dados ainda mais atrativa para os indivíduos.

Concorrência

Com a abertura exponencial de faculdades de medicina nos últimos anos, o número de egressos por ano tende a aumentar consideravelmente. No Brasil, se formam cerca de 23 mil diplomados por ano, excetuando-se aqueles que fazem medicina fora do país e que pretendem retornar. Apesar do número crescente de profissionais visando atender a demanda numérica da população, a concentração de recursos em dados lugares determina a concorrência. Além disso, observa-se o aumento de subespecialidades, necessárias à medida em que o conhecimento tecnológico e a compreensão das doenças se aprofundam. Nesse contexto, o bom generalista e o especialista geral tendem a se destacar.

Merecem ser lembrados também outros nichos pouco explorados, mas cuja absorção é crescente, como a medicina legal e perícia médica; a administração em saúde e gestão; médicos cientistas; e médicos professores.

E então, o que de fato esperar e como se preparar?

A valorização da parte insubstituível que o médico representa no cuidado da pessoa continua sendo o afeto e a empatia. O contato humano é insubstituível e, portanto, a escolha de especialidades e o desenvolvimento de habilidades que possibilitem a aplicação de uma medicina centrada na pessoa parecem ser distintivos no futuro que se aproxima.

Quando habilidades técnicas são progressivamente substituíveis, as habilidades comportamentais se tornam diferenciais. O desenvolvimento de uma medicina cada vez mais personalizada e orientada para a saúde, em vez da doença, possibilita um cuidado mais direcionado ao indivíduo, bem como a necessidade de conhecê-lo e do estabelecimento de uma relação mais prolongada entre médico e paciente. 

A constante atualização e o domínio do aparato tecnológico da área também são necessários para o médico que viverá em tempos de barateamento e crescente produção de inteligência artificial e instrumentos de precisão. Algumas variáveis tendem a permanecer as mesmas e devem orientar nosso raciocínio desde já, são elas: a renda variável que a maioria dos médicos têm ao longo de sua vida profissional, planejamento financeiro (identificar aspirações pessoais, ordenar necessidades), a necessidade de obter a melhor formação possível, além de uma escolha baseada em vários fatores da especialidade médica.

Apostar na simplicidade, construção de vínculo e naquilo que nos caracteriza como capazes de uma boa e desinteressada relação interpessoal se configura como necessidade não só do futuro, mas de sempre, quando se trata de médicos e pacientes. Tecnologia e calor humano devem ser aliados.

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