Cardiologia

O nervo glossofaríngeo (IX par craniano), da anatomia à clínica. | Colunistas

O nervo glossofaríngeo (IX par craniano), da anatomia à clínica. | Colunistas

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Vinícius Fonseca Bernardes

11 min há 260 dias

Introdução

Os pares cranianos são amplamente estudados na Medicina, tendo sua anatomia clínica, quase em sua totalidade, elucidada. Seu estudo é multidisciplinar, abordado, principalmente, na anatomia, na fisiologia e, claro, na neurologia. Neste momento, veremos a visão geral deste tópico, em seguida abordaremos o nervo glossofaríngeo e suas principais características.

Os pares cranianos

Podendo possuir ambas as funções motoras e sensitivas às estruturas da cabeça, pescoço e alguns sistemas biológicos, os pares cranianos são um conjunto de 12 nervos que originam-se da região encefálica. Diferente dos nervos espinhais, os nervos cranianos são formados por conexões neurais associadas aos núcleos distintos do tronco cerebral e estruturas corticais. Basicamente, os núcleos dos pares cranianos são funcionalmente organizados em núcleos distintos dentro do tronco cerebral. 

A divisão funcional dos pares cranianos são: os nervos cranianos I (olfatório), II (óptico) e VIII (vestibulococlear) são considerados puramente aferentes; os nervos cranianos III (oculomotor), IV (troclear), VI (abducente), XI (acessório espinhal) e XII (hipoglosso) são puramente eferentes; os demais nervos cranianos, V (trigêmeo), VII (facial), IX (glossofaríngeo) e X (vago), são funcionalmente misturados (sensorial e motor).

Imagem 1. Apresentação dos pares cranianos
Fonte: https://blog.jaleko.com.br/nervos-cranianos-nervos-oculomotor-iii-nervo-troclear-iv-e-nervo-abducente-vi/nervos-cranianos/

O nono par craniano

O nervo glossofaríngeo, também conhecido como IX par craniano, é um nervo misto, contendo função tanto motora como sensitiva. Além disso, apresenta funções parassimpáticas, as quais veremos posteriormente.

Ademais, durante o desenvolvimento embriológico humano, por volta da quarta e quinta semanas, forma-se o terceiro arco faríngeo, estrutura que origina o IX par. Além deste, também, são originados: o músculo estilofaríngeo, o corno maior do hióide, a parte inferior do corpo do hióide, o timo e a glândula paratireóide inferior.

Este, normalmente, é discutido na literatura junto ao nervo vago (X par), pela proximidade do local de origem, trajeto e pela relação intrínseca, desempenhando funções complementares. Por exemplo, quando as manifestações sintomatológicas são disfagia, disgeusia, rouquidão e paralisia do palato mole, suspeita-se de lesão desses nervos.

Logo, o estudo deste nervo é um tópico importantíssimo na formação acadêmica e, neste momento, ajudaremos você a não esquecer sobre o glossofaríngeo.

Anatomia: origem e trajeto

O nono par craniano possui sua origem no tronco encefálico.

Ele emerge da face anterior da medula, direcionando-se lateralmente pela fossa craniana posterior.  O nervo deixa o crânio pelo forame jugular.  É nesse ponto em que surge o nervo timpânico, uma composição sensorial e parassimpática mista.

Imediatamente fora do forame jugular, localizam-se seus dois principais gânglios, conhecidos como gânglios superiores e inferiores (ou petrosos). São eles que contêm os corpos celulares das fibras sensoriais no nervo glossofaríngeo.

Imagem 2. Gânglios e ramos do nervo Glossofaríngeo
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Nervo_glossofar%C3%ADngeo

Em seguida, o nervo glossofaríngeo desce pelo pescoço, ântero-lateralmente à artéria carótida interna. Nesta região, na margem inferior do músculo estilofaríngeo, vários ramos surgem para fornecer inervação motora ao músculo. Ele também dá origem ao nervo do seio carotídeo, que fornece sensação ao seio carotídeo.

O nervo entra na faringe, seguindo entre os constritores superior e médio da faringe.  Na faringe, termina dividindo-se em três ramos: lingual, tonsilar e faríngeo.

Como o IX desempenha suas funções?

Basicamente, o nono par, sendo um nervo misto, apresenta funções motoras e sensoriais, viscerais motoras e sensoriais, sendo elas: a gustação ou paladar, a salivação, a deglutição; e contribui para o controle da pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória. Cada uma dessas funções é desempenhada por uma porção diferente do nervo, sendo ele responsável por conduzir inúmeros estímulos para regiões distintas do cérebro. Assim, há necessidade de explicar essas funções concomitantemente às suas porções funcionais.

Paladar

A porção visceral sensorial, chamada também de sensorial especial por alguns autores, é responsável pelo paladar. Esta, origina-se no terço posterior das papilas linguais, levando o estímulo até o córtex sensorial gustativo (localizado no lobo parietal) e o córtex de associação.

Imagem 3. Inervação da língua
Fonte: https://segredosdeumjaleco.com.br/2020/05/12/lingua/

Salivação

Para a visceral motora, a função é da salivação. Neste caso, o estímulo parassimpático se origina no núcleo salivatório inferior (que faz conexão com o bulbo), chegando a glândula parótida produzindo saliva.

Sensibilidade geral

Já a porção somática sensorial geral, é encarregada pela sensibilidade geral do terço posterior da língua, posterior da boca, da úvula, das tonsilas, da parte inicial da faringe, da tuba auditiva e do corpo carotídeo. Neste caso, o estímulo derivado dessas regiões é enviado até o córtex sensorial primário (lobo parietal) e ao córtex de associação.

Deglutição

Na parte somática motora, desempenha a função da deglutição. O estímulo sai do córtex somático motor (no lobo  frontal), passando no núcleo ambíguo no bulbo que chega aos músculos estilofaríngeos (músculos que realizam a deglutição).

Controle da pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória

Por fim, a visceral sensorial geral contribui no controle da pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória. Ela origina no terço posterior da língua, posterior da boca, da úvula, das tonsilas, da parte inicial da faringe, da tuba auditiva e do corpo carotídeo. O estímulo deriva dessas estruturas (por meio de quimiorreceptores e barorreceptores do seio carotídeo), chegando aos núcleos do tronco encefálico (núcleos salivatório inferior e trato solitário), retornando por uma resposta eferente. Vemos aqui que esta é a porção com íntima relação ao nervo vago, pois essa resposta eferente chega às fibras vagais que se projetam para coração e diafragma. Desta maneira, ajuda a exercer os controles anteriormente citados.

Imagem 4. Nervo glossofaríngeo, glândula parótida e o seio carotídeoFonte: https://medicinaonline.co/2018/10/01/nervo-glossofaringeo-anatomia-funzioni-e-patologie-in-sintesi/

Como o vemos na prática clínica?

Avaliação do nervo glossofaríngeo

Normalmente, a avaliação deste nervo é realizada em conjunto ao décimo par, servindo para testar a integridade dos componentes funcionais que levam os estímulos ao cérebro.

O primeiro teste segue na observação do palato e confere se há a sua elevação quando o paciente, com a boca aberta, diz “ah”. Em caso de lesão unilateral, é possível conferir o “sinal da cortina”, em que a úvula apresenta desvio da posição anatômica normal. Em seguida, realiza-se os testes dos reflexos nauseosos, em que, com um abaixador de língua, toca-se na porção posterior de cada lado da faringe, se apresentando normal quando o reflexo da ânsia é ativado.

Menos usual em pronto atendimentos, pode-se, também, observar a função da gustação no terço posterior da língua. Neste caso, pedir ao paciente para fechar os olhos, e, com uma substância amarga, pingue na região e peça para ele identificar o sabor. Caso êxito, induz pleno funcionamento desse nervo.

Principais distúrbios do glossofaríngeo

A neuralgia do glossofaríngeo é um dos principais quadros clínicos de desordem funcional, sendo esta uma condição extremamente dolorosa desencadeada por: mastigar, engolir, bocejar, tossir e espirrar. Essa dor lacerante é caracterizada por períodos breves e episódicos, unilaterais, agudos e penetrantes. Ela tem início nas regiões em que o nervo se localiza, já comentados anteriormente. Há grande discussão sobre as suas possíveis causas, acredita-se que ela se inicia pela compressão do nervo por uma artéria, ou por anormalidade dos processos ósseos da base do crânio (por exemplo, o processo estilóide).

Todos os distúrbios relacionados ao IX são raros, e suas causas, normalmente, são desconhecidas. Contudo, estão relacionados, também, a tumores, como Schwannomas, que atingem o forame jugular e/ou o canal do hipoglosso. Essa condição pode não atingir singularmente esse nervo, levando os pacientes a apresentarem a Síndrome de Collet-Sicard.

A síndrome de Collet-Sicard afeta os pares cranianos IX, X, XI e XII, envolvendo vários sintomas, como: perda de paladar no terço posterior da língua; paralisia das pregas vocais; fraqueza nos músculos esternocleidomastóideo e trapézio; disfagias e perda dos movimentos da língua.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico pode ser identificado pela clínica, e, nos casos dos tumores, há necessidade de confirmação por tomografia computadorizada e ressonância magnética.

Já o tratamento pode variar bastante de acordo com paciente. São utilizados medicamentos anticonvulsivantes, anestésicos locais e cirurgia.

Conclusão

Vemos que o estudo deste par craniano é derivado do amplo conhecimento das estruturas neuroanatômicas, que compõem o encéfalo e suas funções, visto que é chave para a detecção das enfermidades que alteram a integridade do nervo. Abordando esse tópico, elucidando essas vertentes e mostrando sua aplicação clínica, é possível fechar o diagnóstico, reduzindo, assim, os danos de condições tão dolorosas e sintomas que comprometem funções essenciais do dia a dia, como comer, falar e realizar a manutenção da homeostase.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

DE MAGALHÃES, Marcelo José da Silva, et al. Nervos vago e glossofaríngeo – Revisão.

Nervos Cranianos: Nervo Glossofaríngeo (IX) e Nervo Vago (X) – https://blog.jaleko.com.br/nervos-cranianos-nervo-glossofaringeo-ix-e-nervo-vago-x/.

GUYTON, A.C. e Hall J.E.– Tratado de Fisiologia Médica. Editora Elsevier. 13ª ed., 2017.

COSTANZO, Linda S.. Fisiologia. 6. ed. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. 315 . p.

Arcos Faríngeos – https://www.kenhub.com/pt/library/anatomia/arcos-faringeos

Neurologia glossofaríngeo – https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/distúrbios-cerebrais,-da-medula-espinal-e-dos-nervos/doenças-dos-nervos-cranianos/neuralgia-glossofar%C3%ADngea. Acesso em: 30 de novembro de 2019.

Como avaliar os pares cranianos – www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos/exame-neurol%C3%B3gico/como-avaliar-os-pares-cranianos

Embriologia da face e da cavidade oral – http://www.icb.usp.br/~ireneyan/EMBRIOLOGIAMOLECULAR_arquivos/aulas/OdontoUSP/craniofacial.pdf

Nervo glossofaríngeo – https://pt.wikipedia.org/wiki/Nervo_glossofar%C3%ADngeo

Nervos cranianos – https://blog.jaleko.com.br/nervos-cranianos-nervos-oculomotor-iii-nervo-troclear-iv-e-nervo-abducente-vi/nervos-cranianos/.

Músculos e inervação do palato e da língua – http://famed.ufvjm.edu.br/dissecarte/wp-content/uploads/2019/10/Palato-e-l%C3%ADngua.pdf.

Glossofaríngeo e Vago – IX e X Nervos Cranianos – https://www.neurologiapaulobrito.com/pdf/pdf_programa_residencia/pares_cranianos/GLOSSOFARINGEO%20E%20VAGO%20-%20IX%20e%20X%20NERVOS%20CRANIANOS.pdf.

Exames clínicos dos nervoso cranianos – https://pt.slideshare.net/Reciputti/exame-clnico-dos-pares-cranianos

Nervo Glossofaríngeo – Anatomia , Percurso, Função – https://www.kenhub.com/pt/library/anatomia/nervo-glossofaringeo-ix.

O que é nevralgia (Neuralgia), Sintomas, Tratamento e mais – https://opas.org.br/o-que-e-nevralgia-neuralgia-sintomas-tratamento-e-mais/.

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