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O paradigma entre a relação médico-paciente e o uso da internet | Colunistas

Nas últimas décadas, a promoção de saúde incorporou-se à tecnologia com afinco a fim de garantir melhor diagnóstico, prognóstico, tratamento e prevenção de doenças. Desde o surgimento da Medicina Baseada em Evidências (MBE), o conhecimento médico, a avaliação das evidências, associados à participação do doente causaram uma transformação na relação médico-paciente. Todavia, o exercício da medicina encontra-se diante de um paradigma o qual coloca a internet como desafio para a manutenção da boa relação. Ou será a condição dessa relação e os empecilhos de acesso à saúde que desafiam os pacientes, aliando-os à internet?

O acesso às informações de saúde de forma rápida e contínua através da internet pelo público leigo coloca em pauta os questionamentos sobre o verdadeiro impacto disso nos atendimentos médicos e no seguimento da terapêutica. Tantos os médicos quanto os outros profissionais de saúde podem ser a principal fonte de informação para os pacientes, desde que os pilares da MBE sejam alicerçados desde o primeiro contato.

É importante ressaltar que a qualidade da relação médico-paciente é refletida na comunicação adequada, na compreensão do doente sobre a própria situação, nas decisões compartilhadas e tudo isso pode interferir na adesão ao tratamento e no retorno às consultas. Quando há uma ruptura nessa relação, a internet talvez seja a fonte mais prática de informação para o auto esclarecimento sobre o problema.

Por outro lado, muitos pacientes que recorrem a sites, muitas vezes de qualificação duvidosa, com o objetivo de compreender seu problema são carentes de um acesso à saúde de qualidade ou são obrigados a esperar, por longo tempo, uma consulta em rede pública. Essa situação os deixa vulneráveis aos diversos “conhecimentos médicos do Dr. Google”. Compreende-se que a internet é uma importante referência para busca de conhecimento, entretanto, quando usada como fonte única no entendimento do processo saúde-doença sem orientação do profissional de saúde, pode interferir no plano terapêutico. Dessa forma, há grande impacto na qualidade de vida dos indivíduos, principalmente daqueles acometidos por problemas crônicos.

Existem vários questionamentos sobre a qualidade da educação transmitida pela internet. Contudo, o problema está no fato de o paciente leigo assimilar toda a informação de forma inadequada, sem filtrar o que realmente tem veracidade ou constatação científica. Isso pode interferir no seu estado de saúde, além do estado psíquico-social. Um dos pontos mais preocupantes resultantes da má assimilação do conteúdo está relacionado à auto prescrição e, consequentemente, a todos os efeitos colaterais que a falta da relação médico-paciente pode causar.

O empoderamento do paciente no autocuidado, alicerçado no tripé da bem, é essencial para criar uma verdadeira aliança na relação médico-paciente. E a internet pode também auxiliar nesse empoderamento dando mais autonomia e possibilidade de escolha ao indivíduo. Mas, para isso, é extremamente importante que este se sinta bem-assistido e a comunicação médica seja efetiva, resultando em uma adesão ao tratamento e um melhor seguimento na consulta. Da mesma forma, esse resultado pode ocorrer quando o paciente tem a oportunidade de ter acesso a uma consulta e ser educado sobre sua doença através de um profissional, sem que a internet seja exclusivamente seu canal de contato com saúde.

Logo, por mais que a internet ganhe cada vez mais espaço, nada substitui uma boa relação construída dentro de um ambulatório ou qualquer outro serviço de saúde. Esse paradigma que se apresenta atualmente é questão de saúde pública e torná-lo importante auxiliará na melhor qualidade de atendimentos, uma vez que será dada uma devida atenção às possíveis causas, melhorando assim o acesso ao serviço e a relação médico-paciente.

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