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O poder da tecnologia aplicada à saúde| Colunistas

Você tem consulta agendada para hoje às 15h. Nos dias de hoje, receber uma mensagem como essa do consultório do seu médico não é grande coisa. Porém, há 30 anos (e isso, tratando-se de história, é muito pouco tempo) seria algo inimaginável.

Pouco mais de 20 anos após a criação da internet (em 1969, desenvolvida sob estímulo da guerra fria com o intuito de interligar laboratórios militares para fortalecer o lado americano) com o surgimento da rede mundial de computadores (o famoso www, surgido no início da década de 90), a globalização iniciou um processo de expansão cada vez mais exponencial, revolucionando a criação de novos medicamentos, aparelhos para realização de exames diagnósticos, métodos de tratamento e até mesmo a forma de pensar (dos médicos e dos pacientes).

Muito se debate sobre o futuro da medicina associada à tecnologia. Os mais conservadores temem uma progressiva substituição de homens por máquinas. Os românticos, acreditam veementemente na incapacidade das máquinas de substituir o raciocínio e empatia humanas.

Pessoalmente, vejo a tecnologia como uma grande aliada, mas não como única saída. Se aparentemente cada vez mais os médicos recém-formados têm “perdido a mão” no exame físico, prescrição e raciocínio diagnóstico e utilizado exames complementares, aplicativos e sites de busca como verdadeiras “muletas”, sabendo utilizar tais ferramentas para complementar conhecimento, habilidades e atitudes, podemos ter médicos cada vez mais completos.

Certamente os computadores, robôs e programas podem nos ajudar muito, mas determinadas coisas (feeling, empatia, nuances do exame físico, diagnósticos difíceis de doenças atípicas de apresentação comum ou mesmo de doenças comuns de apresentações atípicas) só podem ser aprendidas com outros humanos. Não podemos esquecer, muito menos desprezar nossos queridos mestres, “médicos de mão cheia”, exemplos de competência, humanidade e conhecimento. É nessa transmissão de conhecimento que reside a alma da arte médica.

Da mesma maneira que tempos atrás se imaginava carros voadores e viagens a outros planetas em pleno ano 2000, aguardamos ansiosos os avanços que nos permitam diagnosticar e tratar patologias até agora desconhecidas ou mesmo incuráveis.

Se antes tínhamos médicos “da família”, ou mesmo “da cidade”, hoje as próprias redes sociais permitem conhecer diversos estilos e abordagens diferentes, dando acesso à população a profissionais “para todos os gostos”. O lado negativo disso é que, muitas vezes, como pessoas que usam as redes sociais para mostrar um lado “encantado” da vida, alguns profissionais aproveitam-se do poder de marketing e manipulação inerente ao meio virtual para divulgar habilidades que não têm e conhecimentos que não possuem.

Por mais que se debatam dilemas éticos e os manuais de ética médica com orientações aos profissionais na graduação não se pode implantar uma boa índole em alguém. A ética não está disponível para download. Assim como o caráter, a ela é inerente ao indivíduo.

A tecnologia que tem acompanhado a medicina vem desde aparelhos que auxiliam o próprio exame físico (estetoscópios cada vez mais potentes, eletrônicos, aparelhos de ultrassom cada vez mais portáteis, oxímetros de pulso a baixo custo e muito pequenos), passando pela telemedicina, que leva suporte super especializado a locais onde não se tinha acesso anteriormente, medicina diagnóstica e tratamentos cada vez mais específicos (como não falar de cirurgia robótica, quimioterapia “personalizada” e mesmo das incríveis células tronco?).

Ultrapassando as barreiras das portas dos consultórios, o avanço tecnológico dá suporte à gestão de maneira primorosa. Sistemas para classificação de risco eficiente, redução de tempo de espera em emergências, melhora do nível de satisfação do paciente, resultados de exames rápidos e confiáveis, estabelecimento de fluxos eficazes, agendamento de consultas à distância são apenas algumas das ferramentas que estar lado a lado com o desenvolvimento global.

A ciência (não só a medicina, mas todas as áreas) é mais que nossa amiga. É nossa irmã. Devemos, como bons irmãos, crescermos juntos com ela, utilizando-a para crescer cada vez mais e dando o nosso melhor para que ela possa mudar e salvar as vidas de nossos pacientes. É nosso dever perguntarmos a cada dia: “o que posso aprender hoje?”, sempre mantendo a preocupação em permanecer atualizados com as evidências, outra conquista significativa trazida a nós pela tecnologia.Eugênio Franco | Médico Emergencista Preceptor das Residências em Medicina de Emergência da Escola de Saúde Pública do Ceará e do Instituto Dr. José Frota 
 Autor do perfil no Instagram @dosesdeemergencia e canal no youtube doses de emergência. 
 Email para contato: eugeniofranco@emergencistas.med.br

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