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O Princípio de ALARA – Qual o real risco dos exames de imagem? | Colunistas

O Princípio de ALARA – Qual o real risco dos exames de imagem? | Colunistas

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Gustavo Junho Toledo

7 minhá 65 dias

ALARA

Não muito depois da descoberta da radiação ionizante em 1890, ficou claro que a exposição às altas doses dessa radiação era prejudicial à saúde humana. É justamente em meio a esse contexto que, durante a década 70, começou-se a utilizar, no dia a dia da prática médica, o protocolo ALARA.

ALARA é um acrônimo usado em segurança de radiação para “As Low As Reasonably Achievable”, ou seja, “tão baixo quanto razoavelmente possível”. O princípio do ALARA é baseado na diminuição da dose de radiação durante a realização de um procedimento e na limitação da liberação de materiais radioativos no meio ambiente, empregando todos os “métodos razoáveis”.

ALARA não é apenas um princípio sólido de segurança contra radiação, mas é um requisito regulatório para todos os “programas de proteção contra radiação”.  O conceito ALARA é parte integrante de todas as atividades que envolvem o uso de radiação ou materiais radioativos, e pode ajudar a prevenir exposições desnecessárias, bem como exposição excessiva à radiação.  Os três princípios mais importantes para ajudar a manter as doses “tão baixas quanto razoavelmente possível” são: tempo, distância e proteção.

  • Proteção: tome as medidas de proteção adequadas para reduzir a radiação. Ao colocar uma camada de proteção no caminho de radiação, dependendo da espessura da camada de proteção e do tipo de radiação, a exposição atrás da camada de proteção pode ser reduzida. Essa proteção deve ser econômica (o concreto é melhor do que o metal) e reduzir os níveis insignificantes de exposição a obstáculos;
  • Tempo: como a dose de radiação depende do tempo de exposição, o tempo deve ser limitado. Isso pode ser alcançado tornando o teste e o manuseio de materiais radioativos mais práticos ou colocando dispositivos que não são usados ​​com frequência perto de áreas potencialmente expostas;
  • Distância: a radiação é inversamente proporcional à intensidade conforme a distância aumenta. Dobrar a distância da fonte reduz a dose por um fator de quatro. Em comparação com o método anterior, essa distância deve ser grande o suficiente para reduzir o impacto no público e na equipe, mas não muito difícil, aumentando assim o tempo de preparação do procedimento.

De pouco em pouco, todo dia

Estamos expostos às pequenas doses de radiação ionizante de fontes naturais o tempo todo – em particular, radiação cósmica, principalmente do sol, e radônio, um gás radioativo que vem da degradação natural do urânio no solo, rocha, água e materiais de construção. A quantidade dessa radiação de fundo, à qual você está exposto, depende de muitos fatores, incluindo altitude e ventilação doméstica. Mas a média é de 3 milisieverts (mSv) por ano (Um milisievert é uma medida de exposição à radiação).

Pessoas que vivem em regiões mais elevadas recebem cerca de 1,5 mSv a mais, por ano, do que aqueles que vivem perto do nível do mar.  Um voo de ida e volta pela costa do Brasil acarreta em uma dose de cerca de 0,03 mSv, devido à exposição aos raios cósmicos.  A maior fonte de radiação de fundo vem do gás radônio em nossas casas (cerca de 2 mSv por ano), variando amplamente, dependendo de onde você mora.

Para simplificar, a quantidade de radiação de uma radiografia de tórax de um adulto (0.1 mSv)  é quase a mesma que 10 dias de radiação de fundo natural a que todos estamos expostos como parte de nossa vida diária. Do mesmo modo, uma tomografia de tórax de um adulto seria equivalente a 2 anos de radiação.

Há muito tempo sabemos que crianças e adolescentes que recebem altas doses de radiação para tratar o linfoma, ou outros tipos de câncer, têm maior probabilidade de desenvolver cânceres adicionais, mais tarde na vida. Mas não temos ensaios clínicos para orientar nosso pensamento sobre o risco de câncer por radiação médica em adultos saudáveis.

Hiroshima e Nagasaki

A radiação que você obtém da radiografia, tomografia computadorizada (TC) e imagem nuclear é a radiação ionizante – comprimentos de onda de alta energia ou partículas que penetram no tecido para revelar os órgãos e estruturas internas do corpo. A radiação ionizante pode danificar o DNA e, embora suas células reparem a maior parte dos danos, às vezes fazem o trabalho de maneira imperfeita, deixando pequenas áreas de “reparo incorreto”. O resultado, são mutações no DNA que podem contribuir para o câncer nos próximos anos.

Muito do que sabemos sobre os riscos da radiação ionizante vem de estudos de longo prazo de pessoas que sobreviveram às explosões da bomba atômica de 1945, em Hiroshima e Nagasaki. Esses estudos mostram um risco ligeiramente maior de câncer nas pessoas expostas às explosões, incluindo um grupo de 25.000 sobreviventes de Hiroshima, que receberam menos de 50 mSv de radiação – uma quantidade que você pode obter em três, ou mais, tomografias computadorizadas.

A explosão atômica não é um modelo perfeito para exposição à radiação médica, porque a bomba liberou sua radiação de uma só vez, enquanto as doses de imagens médicas são menores e distribuídas ao longo do tempo. Ainda assim, a maioria dos especialistas acredita que isso pode ser quase tão prejudicial quanto receber uma dose equivalente de uma só vez.

Qual é o real perigo?

Internacionalmente, a mídia tem falado muito acerca da exposição à radiação de imagens médicas, e muitos pacientes estão perguntando sobre isso. A radiação de mamografias, testes de densidade óssea e da tomografia computadorizada (TC), aumenta o risco de desenvolver câncer?

Para a maioria das mulheres, há pouco risco em radiografias de rotina, como mamografia. Mas, muitos especialistas, estão preocupados com uma explosão no uso de testes de altas doses de radiação, como TC e imagens nucleares.

Como a TC fornece informações sobre a condição de todo o organismo, esse método encontrou aplicação não apenas no diagnóstico, mas também no rastreamento de doenças. A disponibilidade ilimitada de testes de imagem, em muitos casos, limita o número de olhos clínicos, e os médicos estão cada vez mais exigindo métodos diagnósticos desnecessários.

É recomendado evitar tomografias desnecessárias. Em vários casos, as patologias podem ser identificadas pela combinação de outros exames acessíveis ao médico e uma boa análise clínica.

Um mal necessário

Existem boas razões para esta tendência. A TC e a imagem nuclear revolucionaram o diagnóstico e o tratamento, quase eliminando a necessidade de cirurgias exploratórias, antes comuns, e muitos outros procedimentos invasivos e potencialmente arriscados. Os benefícios desses testes, quando apropriados, superam em muito qualquer risco de câncer associado à radiação, e o risco de uma única tomografia computadorizada ou teste de imagem nuclear é muito pequeno.

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Referências:

Oakley, Paul A., and Deed E. Harrison. “Death of the ALARA radiation protection principle as used in the medical sector.” Dose-Response 18.2 (2020): 1559325820921641.

Abuzaid, M. M., et al. “Assessment of compliance to radiation safety and protection at the radiology department.” International Journal of Radiation Research 17.3 (2019): 439-446.

Albuquerque, Andrei Skromov de, and Luiz Eduardo Mastrocola. “Radiação e exames diagnósticos: qual o risco real?.” Rev. Soc. Cardiol. Estado de Säo Paulo (2017): f-82.

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