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O que é Anedonia – Nem todos os caminhos levam ao prazer | Colunistas

O que é Anedonia – Nem todos os caminhos levam ao prazer | Colunistas

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Murillo Marçal

8 min há 496 dias

Palavra incomum ao dia a dia e que nos obriga a parar para lembrar seu significado. O dicionário Michaelis nos informa que deriva do grego, sendo definida como “inabilidade em sentir prazer ou divertir-se”, ou ainda, “falta de meiguice, em consequência de um acúmulo de experiências traumáticas”. Para uma conceituação mais precisa devemos ir além.

História e Definições…

Theodule Ribot (1839-1916) (figura 1), um dos pais da psicologia francesa e um estudioso das psicopatologias, foi o primeiro a descrever o fenômeno da anedonia, ainda no final do século XIX.1

Tradicionalmente, define-se como sendo uma perda de prazer, posteriormente em critérios diagnósticos psiquiátricos mais amplamente encarado como atividades ou circunstâncias que antes eram vivenciadas de maneira agradável,somado a uma falta de envolvimento ou energia para as experiências, com déficits na capacidade de sentir prazer e de se interessar pelas coisas.2 O paciente alega não sentir graça em nada, não desfrutar da companhia de amigos, ou até de prazer sexual, algo bem próximo da apatia.3

E atualmente?

Estudos neurocientíficos defendem uma conceituação ainda mais ampla. Sugere-se que seja um sintoma clínico multifacetado que resulta de um déficit no circuito de recompensa.4 Nestes variados estudos (desde neuroimagem até neurofarmacologia, passando por modelos computacionais, entre outros) foram identificados sistemas cerebrais que se tornam disfuncionais em estados amotivacionais, implicando em mecanismos disruptivos subjacentes à forma como o sistema de recompensas é processado.5

Extremamente comum na depressão, seu grau de severidade varia enormemente entre os diferentes grupos de pacientes, correlacionando-se sintomas mais severos a uma pior resposta terapêutica esperada, assim como uma pior qualidade de vida. Na esquizofrenia, associa-se a um pior resultado funcional.5 Pode ocorrer também fora de contextos clínico-diagnósticos, em formas mais suaves, particularmente no envelhecimento comum.5

Neurobiologia da Anedonia

Há o envolvimento de áreas cerebrais específicas?

Podendo ocorrer a partir de prejuízos em uma das várias facetas do sistema de recompensa, evidências sugerem que existem áreas neuroanatômicas específicas que sustentam tais vias do sistema.6 

Historicamente o núcleo accumbens (NAc), a área tegmentar ventral (ATV) e vias mesolímbicas dopaminérgicas eram considerados componentes chave da forma como o cérebro interpretava o prazer e a recompensa. Porém a neuroimagem recente revela um modelo mais complexo, incluindo, além das citadas, a amígdala, o córtex pré-frontal (córtex orbitofrontal, córtex pré-frontal ventromedial e o córtex cingulado anterior), o putâmen e o núcleo caudado.4,6

Como estão os neurotransmissores?

Do ponto de vista neuroquímico, a dopamina é o neurotransmissor mais comumente relacionado à recompensa. Entretanto, evidências sugerem envolvimentos adicionais a esse processo: glutamato, GABA, serotonina e opioides. Por exemplo, o GABA e os opioides têm o importante papel na experiência do prazer consumatório. A serotonina, por sua vez, parece mais associada a aumento da impulsividade e preferência pela recompensa imediata.6

O reconhecimento de vias neurais em conjunto com o desempenho de tarefas sugere que há múltiplos déficits possíveis, com uma área disfuncional levando a uma desregulação global, impactando o sistema de recompensa e, assim, gerando a apresentação clínica de anedonia.4

Quem sofre com a Anedonia?

Como veremos abaixo, apesar de bastante comum em algumas desordens psiquiátricas específicas, essa condição pode afetar muitos outros indivíduos sofrendo de condições neurológicas, por exemplo: doenças neurodegenerativas (ex. doença de Alzheimer, Mal de Parkinson, demência vascular), lesão cerebral traumática, AVE, algumas raridades, como demência frontotemporal e doença de Huntington.5

Um estudo britânico sobre o impacto da epilepsia em adolescentes constatou uma maior taxa de depressão com manifestação de anedonia, demonstrando ainda uma maior frequência de crises, principalmente na presença de baixa autoestima.3

Além disso, ainda que em menor proporção, está presente em algumas enfermidades psiquiátricas, como o transtorno de personalidade evitativa, transtorno bipolar, transtorno do sono.2,3

Transtorno Depressivo Maior

Um diagnóstico de Transtorno Depressivo Maior (TDM) envolve a presença de 5 entre 9 sintomas possíveis, entre os quais anedonia é um sintoma diagnóstico chave.4

Pacientes que apresentem sintomas anedônicos podem demonstrar dissociação entre o prazer consumatório e a motivação, expectativa de resultados negativos, apesar de experiência passada positiva. Pode permanecer ainda como um sintoma residual após o tratamento.4

A presença de anedonia prediz um pior prognóstico, com maiores falhas terapêuticas, piores desfechos clínicos (ver “Complicações”) e maiores prejuízos cognitivos.4

Espectro da Esquizofrenia

Desordem heterogênea marcada pela apresentação variável entre sintomas positivos (ex. alucinações e delírios), sintomas negativos e déficits cognitivos.4  

Os sintomas negativos conferem considerável morbidade, tendo dois sintomas proeminentes. A expressão emocional diminuída é marcada por reduções na expressão de emoções pelo rosto, no contato visual, na entonação da fala (prosódia) e na movimentação das mãos, da cabeça e da face (ênfase emocional ao discurso). Há ainda a avolia: uma redução nas atividades motivadas, autoiniciadas e que têm finalidade, ou seja, o indivíduo pode ficar sentado por longos períodos, mostrando pequeno interesse em participar de atividades sociais ou profissionais. Além destes fundamentais, há outros importantes: a anedonia (!!!), a alogia (produção diminuída do discurso) e a falta de sociabilidade (podendo estar associada à avolia).2

Aqui o sistema de recompensa encontra-se mais desorganizado, do que deficiente, no processamento de recompensa e nas funções cognitivas, incluindo gasto energético inadequado e foco em irrelevâncias.4

Abuso de Substâncias e Abstinência

A cocaína é um exemplo de droga que reconhecidamente cursa com anedonia em períodos de abstinência, além de irritabilidade, ideação suicida, instabilidade emocional ou perturbações na atenção e na concentração.2

A anedonia causa sofrimento clinicamente significativo, com prejuízo no funcionamento social, profissional ou em áreas importantes da vida.2 A presença de sintomas depressivos associados à ideação ou comportamento suicida geralmente constitui um dos problemas mais graves durante a abstinência de estimulantes.2

Complicação – Ideação suicida

Além do obviamente danoso prejuízo às relações sociais mediante quadro de isolamento intenso, reside na ideação suicida o grande risco clínico envolvido. Grande problema de saúde pública, a cada ano cerca de 1 milhão de pessoas morrem por suicídio ao redor do globo, sendo cerca de 20 vezes maior o número daqueles que tentam cometer.7

O transtorno do estresse pós-traumático e as desordens de humor são associados a um risco elevado de comportamento suicida, particularmente quando presentes a anedonia severa, a desesperança, entre outros. Cabe ao profissional que o acompanha estar bastante atento a essa evolução negativa.1,8

A Anedonia e o Futuro

Por sorte, tem se reconhecido que, ao contrário de Roma, nem todos os comportamentos nos conduzem ao prazer, com alguns estados clínicos nos desviando para rotas escuras e anedônicas.

Contudo, apesar da maior percepção de sua larga presença nas diversas enfermidades neuropsiquiátricas, com seu notório impacto social e na qualidade de vida, carecem ainda maiores abordagens às, ainda numerosas, lacunas.

Estudos adicionais de neuroimagem são necessários para elucidar a complexidade do processamento cerebral da noção de recompensa, por meio do uso de tarefas comportamentais designadas para avaliar seus aspectos específicos, porém sem esquecer da ampla tecnologia à disposição.4

Igualmente, são poucos os estudos que examinaram as diversas interações dos neuromoduladores envolvidos na complexa modelagem do comportamento motivado. Avanços no entendimento de vias disfuncionais específicas têm o potencial de permitir o desenvolvimento de novas terapias direcionadas, não somente farmacológicas, porém também terapias cognitivo-comportamentais, por exemplo, terapia de ativação comportamental por comportamento direcionado a objetivos.5,6

Defende-se ainda o aperfeiçoamento de escalas de mensuração para melhor avaliar pacientes que sofram de anedonia, antecipando-se às escaladas de severidade que podem culminar em desfechos indesejáveis. Atualmente muito se esbarra em questões subjetivas próprias da individualidade humana, como aspectos de personalidade, de aprendizagem e vieses.6

Autor: Murillo Marçal, Estudante de Medicina

Instagram: @murillocstr

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