Medicina da Família e Comunidade

O QUE É O TRANSTORNO DE ANSIEDADE SOCIAL? | Colunistas

O QUE É O TRANSTORNO DE ANSIEDADE SOCIAL? | Colunistas

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O Transtorno de Ansiedade Social (TAS) ou fobia social é um dos transtornos mais comuns na sociedade, o qual é condicionado pelo medo intenso e pela ansiedade exacerbada. Convém ressaltar que o medo e a ansiedade são emoções inerentes ao ser humano, porquanto o medo e a ansiedade são percebidos desde os primórdios da humanidade.

A título de ilustração, na Pré-História, o homem primitivo, na Era Paleolítica, ficava escondido em cavernas devido ao medo de ser morto por animais, necessitando, assim, estar sempre alerta.

Após vários séculos, nos tempos hodiernos, os sentimentos de medo e de ansiedade continuam sendo fundamentais para o ser humano, visto que constituem a percepção de alerta, a qual é extremamente importante para a sobrevivência humana.

Todavia, há um problema consueto, pois se eles forem excessivos podem propiciar o surgimento do TAS. Logo, esse texto irá perquirir sobre as Características Diagnósticas, as Hipóteses Etiológicas e os Aspectos Neurobiológicos que influenciam no entendimento desse transtorno.

Características Diagnósticas

A característica mais notória do Transtorno de Ansiedade Social (TAS) é o medo ou a ansiedade excessivos em ocasiões sociais, o que possibilita o receio de ser avaliado negativamente por outras pessoas.  Quando o indivíduo é exposto às situações que necessitam falar em público, ele teme agir de formas que transpareçam sintomas de ansiedade, como o enrubescer, a transpiração, o tremor e, mormente, a gaguejar. Com isso, muitas vezes, a pessoa evita locais ou eventos  que os sintomas possam aparecer,  como festas, apresentações, medo de apontar em público, no caso do tremor, e, até mesmo, não comparecer a entrevistas de emprego que tenham dinâmicas de grupo. Esse exemplo de evitar locais que possam pressionar o indivíduo é chamado de esquiva, o que, em substancial parte das vezes, pode ser percebido, também, em algumas sutis atitudes, como treinar a fala, excessivamente, da apresentação e limitar o contato ocular.

Outrossim, em alguns casos, a pessoa com o TAS pode aceitar ofertas de trabalho que exijam menos qualificações que ela possua, justamente por conta de superestimar as consequências de uma vaga de emprego que demande o seu nível educacional. Por isso, faz-se essencial que esses indivíduos busquem  ajuda de um clínico, visto que ele irá julgar quão desproporcional é essa preocupação do paciente, a qual possa estar afetando a rotina diária, sempre com toda a cautela para analisar  os ambientes cultural e familiar  que ela está inserida.

Hipóteses Etiológicas

O início da fobia social pode emergir por volta dos 15 anos, mas, predominantemente, ocorre até os 25 anos, sendo isso um fator imprescindível para distinguir de outros transtornos de ansiedade. O TAS pode ter como gatilho situações embaraçosas ou humilhantes, como bullyng, exposição desnecessária,  ameaças,  rejeição e humilhação, o que influencia o indivíduo a se isolar mais, seja na escola ou no ambiente laboral, o que traz consequências graves, como o medo extremo de ser criticado por outras pessoas e o sofrimento psíquico desproporcional.

Além disso, uma hipótese para a fobia social pode ser o próprio ambiente familiar, uma vez que é o local onde o indivíduo tem o primeiro contato social e aprende formas de interagir com outras pessoas. Pode-se citar, de modo análogo, o caso em que o indivíduo tem pais supercontroladores, os quais não dão autonomia nem liberdade para o filho, o qual poderá ter problemas, como: tomar decisões importantes sozinho, apresentar incapacidade para aprender novas habilidades ou não conseguir compreender a importância de críticas. Em consequência disso, o indivíduo tem muita ansiedade para lidar com novas experiências na primeira oportunidade longe de uma figura parental, o que gera uma preocupação excessiva, principalmente no âmbito laboral.

Outrossim, cita-se a escola como um local de gatilho para o surgimento do TAS devido ao fator de interação, tendo em vista que, depois do ambiente familiar, é o segundo local fundamental no desenvolvimento social e psicológico. Dito isso, as crianças que não conseguem interagir muito bem tendem a ficarem isoladas, a sofrerem bullyng ou a passarem por situações humilhantes, o que pode ocasionar, futuramente, o transtorno. Reitera-se que as crianças, as quais passaram por isso, não necessariamente apresentarão a fobia social, mas sim  de que a probabilidade de desenvolverem essa doença durante a vida será maior do que as outras que não passaram.

Aspectos Neurobiológicos

Sabe-se que o Transtorno de Ansiedade Social é uma condição comum, mas que pode, no futuro, proporcionar um exacerbado sofrimento psíquico. Por isso, é premente a compreensão dos fatores neurobiológicos para compreender melhor essa doença. Nesse contexto, ressalta-se que algumas regiões cerebrais podem não estar funcionando adequadamente, como a amígdala e o córtex insular. Com isso, nota-se a relevância da amígdala cerebral, a qual é uma área do cérebro responsável por defender o organismo e por evocar algumas memórias diante a um estímulo que provoque ameaça ao indivíduo. Enquanto que o córtex insular é uma região essencial para o controle emocional, o qual está envolvido nas respostas aos estímulos negativos. Dessa maneira, a região insular pode estar relacionada às mudanças corporais internas, como um sistema de alarme aos cenários de excitação fisiológica demasiada, enquanto que a amígdala faz um papel crucial em situações fisiológicas externas.

Ademais, a amígdala tem papel crucial no medo condicionado, o qual é um tipo de aprendizagem dependente dessa região e que, ainda, ele pode ser um agente proporcionador do TAS. De fato, alguns estudos comprovam que indivíduos com o transtorno apresentam hiperatividade da amígdala e do hipocampo em comparação aos indivíduos saudáveis. Dessa forma, é possível relacionar a hiperatividade da amígdala ao medo condicionado no desenvolvimento do TAS. Diante disso, pondera-se que, no medo condicionado, os processos de retenção da memória sobre o medo também são afetados, atrapalhando, assim, o esquecimento de memórias aversivas, o bom funcionamento cerebral e o psíquico, tendo em vista que eles são imprescindíveis para o ser humano.

Torna-se oportuno, também, explicitar a importância do sistema serotonérgico no Transtorno de Ansiedade Social. Nesse ínterim, constata-se que a hiperatividade da amígdala está associada ao TAS, visto que ela é extensamente inervada por fibras serotonérgicas e que, caso a serotonina seja inibida, a amígdala voltará a funcionar normalmente. Diante disso, estudos induzem ao entendimento de que uma das formas de terapia é a inibição seletiva de receptação de serotonina, tratamento chamado de “ISRSs”, que diminui a hiperatividade da amígdala. Por conseguinte, estudos também indicam que há uma menor quantidade de receptores de serotonina 1ª A – os quais modulam a atividade dos neurônios serotonérgicos- em algumas regiões cerebrais, como a amígdala, em paciente com TAS.

Conclusão

Portanto, percebe-se que o TAS pode proporcionar situações desagradáveis na vida das pessoas afetadas, como o isolamento, a falta de confiança no emprego, a incapacidade de falar em público e a superestimar excessivamente situações sociais comuns. Em face disso, pondera-se que a ansiedade, o medo, as funções da amígdala e do córtex insular estão intrinsecamente ligados ao Transtorno de Ansiedade Social, que, embora seja uma doença comum, necessita de um tratamento adequado para que um clínico avalie quão crítico é o nível de sofrimento psíquico ocasionado por isso. Nesse sentido, confirma-se a imprescindibilidade dos estudos neurobiológicos para ajudar a indicar os melhores tratamentos para as situações mais específicas, com o escopo de obter um melhor sucesso terapêutico. Por isso, é mister que esse transtorno seja percebido cedo, pois o transtorno pode piorar ao decorrer dos anos, afetando a vida profissional e a pessoal.

Autor: Vladmir do Nascimento Aragão

Instagram: @vladmirnascimento

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Referências

https://revistapesquisa.fapesp.br/circuitos-do-medo/

Schneider F; Weiss U, Kessler C, Muller – Gartner HW, Posse S, Salloum JB, et al. Subcortical correlates of differential classical conditioning of aversive emotional reactions in social phobia. Biol Psychiatry. 1999;45(7): 863 -71

Hariri AR, Holmes A. Genetics of emotional regulation: the role of the serotonina transporter in neural function. Trends Cogn Sci. 2006;10(4): 182-91

Associação de Psiquiatria Americana. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Wanshington: APA; 2013

Associação Brasileira de Psiquiatria. Transtorno de Ansiedade Social: teoria e clínica. Artmed editora LTDA ;2014

https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-paleolitico.htm