Alergologia e imunologia

O que todo médico deve saber sobre a vacina da influenza?

O que todo médico deve saber sobre a vacina da influenza?

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Imagem de perfil de Maitê Dahdal

A 24ª campanha nacional de vacinação contra a influenza já começou! Na prática médica, independente da nossa especialidade, atendemos pacientes que nos questionam sobre a vacina da gripe.  Se podem ou se devem tomar a vacina, se podem ou não tomar junto com a da covid-19 e qual a eficácia da vacina são algumas das dúvidas que podem nos pegar desprevenidos.

Por isso, reuni nesse texto tudo que os profissionais de medicina precisam saber sobre a vacina da gripe com base nas evidências científicas atuais, nos materiais da ANVISA, Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Imunização. Vamos lá.

Cenário atual 

A organização mundial de saúde (OMS) estima que todos os anos 5-10% da população mundial seja infectada pelo vírus da influenza. Sabemos que pessoas de todas as idades estão suscetíveis a se contaminar pelo vírus, porém alguns grupos em especial são mais propensos a desenvolver as formas graves da doença.

Além do prejuízo à saúde individual e coletiva, a gripe causa prejuízos bilionários na economia, devidos aos custos com hospitalização, perda de qualidade de vida e absenteísmo no trabalho. 

Pela magnitude e transcendência da doença, nosso país deu início no dia 04/04/2022 a 24ª campanha nacional de vacinação contra a influenza que tem previsão de acabar no dia 03/06/2022.

A primeira campanha teve início em 1999 com o objetivo de reduzir internações, complicações e óbitos na população alvo. De 1999 para cá, o Brasil tem aplicado de forma crescente milhões de doses da vacina. Até que em 2021, infelizmente, tivemos pela primeira vez um decréscimo importante na taxa de vacinados O  que contribuiu para a epidemia extra temporal da doença no final do ano de 2021.

No ano de 2021 NENHUM grupo bateu a meta de 90%, sendo a cobertura vacinal total no país de 72,8%.

Quem é a população alvo da vacina da influenza?

Os grupos populacionais com maiores riscos de desenvolverem formas graves da doença são a população alvo da vacina. Com base na recomendação da OMS, são eles: 

  • Profissionais de saúde
  • Idosos
  • Crianças de 6 meses a 5 anos de idade
  • Gestantes
  • Portadores de doenças crônicas

No brasil temos uma ampliação dessa população alvo recomendada pela OMS, que contempla também:

  • Crianças de 6 meses a menores de 5 anos
  • Gestantes e puérperas
  • Povos indígenas
  • Trabalhadores da saúde
  • Idosos com 60 anos ou mais
  • Professores de escolas públicas ou privadas
  • Pessoas portadoras de doenças crônicas não transmissíveis e outras condições clínicas especiais
  • Pessoas com deficiência permanente
  • Profissionais das forças de segurança e forças armadas
  • Caminhoneiros
  • Trabalhadores do transporte coletivo rodoviário
  • Trabalhadores portuários
  • Funcionários do sistema prisional
  • Adolescentes e jovens de 12 a 21 anos sob medidas socioeducativas
  • População privada de liberdade

O público alvo representa 77940329, cerca de 37% da população brasileira. Com as campanhas de vacinação, a meta é atingir pelo menos 90% dos grupos elegíveis. Para obter o êxito nessa estratégia, contaremos com cerca de 50 mil postos de vacinação ao longo do país. 

A vacinação da influenza é trivalente, contempla 2 cepas da influenza A (sendo selecionadas de acordo com as cepas circulantes nas epidemias) e influenza B. O motivo de ser indicado tomar a vacina da influenza anualmente é que o imunizante tem tempo de ação de 6 a 12 meses. 

E como funciona a vigilância epidemiológica da influenza?

A vigilância da doença é composta pela vigilância sentinela de síndrome gripal e síndrome respiratória aguda grave em pacientes hospitalizados ou que evoluíram para óbito. 

O Brasil possui 135 municípios e 239 unidades sentinelas que coletam 5 amostras clínicas semanais de casos de síndrome gripal e encaminham para as pesquisas dos vírus respiratórios.

Essa vigilância tem como objetivo a determinação do início da sazonalidade, das epidemias e surtos e detectam os vírus e subgrupos circulantes. 

Em 2021, foram enviadas 13.657 amostras de pacientes com síndrome gripal das unidades sentinelas, sendo que em 94,6% houve detecção de um vírus respiratório. 

Dos vírus detectados, 66,2% foram positivos para a Covid-19, enquanto 7,2% positivo para influenza e 26,6% para outros vírus (como vírus sincicial respiratório, parainfluenza, adenovírus, rinovírus).

Das amostras de influenza, 67,1% foram amostras decorrentes da influenza A (H3N2), 31,6% de influenza A não subtipado, 0,9% de influenza B e 0,4% de influenza A (H1N1)pdm09.

A faixa etária mais frequente foi de 60 anos ou mais, representando 52,1% dos casos. 

E por que estou te contando isso? Pois é através dessa informação que determinamos quais os próximos passos da vacinação.

E como é aplicada a vacina da gripe? 

Para crianças de 6 meses a menores de 5 anos, que estão sendo vacinadas pela primeira vez, são recomendadas 2 doses com intervalo de 30 dias entre elas. Os demais grupos em apenas 1 dose.

Quais doenças crônicas estão contempladas na população alvo?

Para pessoas com doenças crônicas não transmissíveis é necessário a comprovação da situação. Pode ser uma receita médica, declaração, exames, prontuário e outros documentos.

É comum os médicos receberem pacientes em busca de uma declaração que comprove que estão aptos a receber a vacina. Por isso, veja quais doenças são contempladas: 

Tabela

Descrição gerada automaticamente

E o cronograma da campanha é:

Tabela

Descrição gerada automaticamente

Como funciona a vacina da influenza?

Por conta da alta mutação do vírus influenza, a definição da cepa é feita com base na minuciosa análise das cepas circulantes e definição de casos anuais.

A OMS realiza reuniões duas vezes ao ano com a finalidade de analisar os dados da vigilância, a caracterização genética do vírus assim como a sua resistência as medicações antivirais existentes, os resultados das vacinas atuais e anteriores.

Após essas reuniões, a OMS emite a recomendação das cepas que devem compor o próximo imunizante.

A vacina da influenza, popularmente conhecida como vacina da gripe, é composta por diferentes cepas dos vírus inativados, fragmentados e purificados. Ou seja, não tem capacidade de causar a doença. 

Devem ser aplicadas de forma intramuscular e em casos excepcionais, como pacientes com discrasia sanguínea, podem ser administradas via subcutânea. Vale acrescentar que ela pode ser usada em imunodeprimidos. 

Qual o tipo de vacina da gripe ofertada na campanha de 2022?

Conforme resolução da ANVISA de 14 outubro de 2021, as vacinas trivalentes utilizadas no Brasil, a partir de fevereiro de 2022, deverão apresentar três cepas de vírus em combinação:

  • A/Victoria/2570/2019 (H1N1)pdm09
  • A/Darwin/9/2021 (H3N2)
  • B/Áustria/02/1359417/2021 (linhagem B/Victoria)

Tabela

Descrição gerada automaticamente

A vacina ofertada pela campanha de vacinação será a trivalente produzida pelo Instituto Butantan. A quadrivalente, que inclui as duas cepas das linhagens dos vírus B, estará disponível apenas para serviços privados. 

Os estudos não demonstram maiores reações ou eventos adversos tanto locais quanto sistêmicos quando comparado a vacina trivalente. 

Podemos administrar a vacina simultaneamente com outras vacinas?

Sabe aquele “já que” estou aqui vou atualizar o calendário vacinal, será possível? Sim! A vacina pode ser administrada concomitantemente a qualquer outra vacina do calendário nacional de vacinação e com outros medicamentos, devendo apenas ter a precaução de usar outra seringa, agulha e outro sítio anatômico.

Em maiores de 12 anos, a vacina de covid-19 pode ser administrada simultaneamente a vacina de influenza. Em menores de 12 anos, deve-se respeitar o intervalo de 15 dias entre as vacinas devendo a vacina de covid-19 ser priorizada e a influenza agendada.

Tenho alergia ao ovo, posso tomar a vacina da gripe?

Pacientes que apresentam apenas urticária após a ingestão do ovo podem receber a vacina normalmente, sem necessidades especiais. Pacientes que têm reações alérgicas graves, como anafilaxia, devem receber a vacina em local adequado para identificação e tratamento de manifestações alérgicas graves (serviço de urgência e emergência) e sob supervisão médica preferencialmente.

Hesitação vacinal

A vacinação é apontada como o segundo maior avanço da humanidade em termos de saúde pública, perdendo apenas para a ampliação da oferta de água potável. Mesmo com o sucesso de campanhas mundiais de vacinação, estamos registrando o retorno de algumas doenças já controladas devido à redução da cobertura vacinal.

Ainda que muitos países tenham alcançado a erradicação de algumas doenças, nota-se uma crescente negativa da vacinação no mundo e no Brasil. 

A OMS reconhece a hesitação vacinal como uma das 10 maiores ameaças à saúde pública no mundo. Relacionadas a esse fenômeno temos como causas subjacentes a falta de confiança, conveniência e complacência da população a vacinação.

E quais os efeitos adversos devemos esperar?

Em 14 a 20% dos pacientes podemos esperar manifestações locais como dor no local da injeção, eritema e endurecimento local. 

Em cerca de 10% dos vacinados podemos ter reações sistêmicas, benignas e autolimitadas como febre, mal-estar e mialgia. Reações de hipersensibilidade são muito raras e podem estar associadas a qualquer componente da vacina. 

Manifestações neurológicas, como a tão temida Síndrome de Guillain-Barré,que pode ser precedida tanto pela vacina quanto pela infecção do vírus influenza, são raras. 

Acredito que esse pequeno manual facilite a sua compreensão sobre a campanha atual da vacinação da influenza e te auxilie na instrução dos seus pacientes.

Referências:

  • “Informe Técnico 24a Campanha Nacional de Vacinação contra a Influenza (Versão Atualizada) Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Imunização e Vigilância de Doenças Transmissíveis. Brasília , março de 2022″. [S.d.]. .
  • HOLANDA, W. T. G., OLIVEIRA, S. B. de, SANCHEZ, M. N. “Aspectos diferenciais do acesso e qualidade da atenção primária à saúde no alcance da cobertura vacinal de influenza”, Ciência & Saúde Coletiva, v. 27, n. 4, p. 1679–1694, 2022. DOI: 10.1590/1413-81232022274.03472021. .
  • NOBRE, R., GUERRA, L. D. da S., CARNUT, L. “Hesitação e recusa vacinal em países com sistemas universais de saúde: uma revisão integrativa sobre seus efeitos”, Saúde em Debate, v. 46, n. spe1, p. 303–321, 2022. DOI: 10.1590/0103-11042022e121. .
  • PALMIERI, M., DOURADO, S. “Nota Técnica SBIm 08/04/2021 – Vacinas influenza no Brasil em 2021”, n. 11, 2021. .
  • SOUZA, F. D. O., WERNECK, G. L., PINHO, P. D. S., et al. “Influenza vaccine hesitancy among health workers, Bahia State, Brazil”, Cadernos de Saúde Pública, v. 38, n. 1, p. 1–16, 2022. DOI: 10.1590/0102-311X00098521. 

*Conteúdo sobre vacina da influenza todo produzido pela Dr. Maitê Dahdal, médica de família e comunidade e coordenadora do curso de MFC da pós-graduação Sanar.

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