Coronavírus

O sistema RAA e a COVID-19: podemos nos tranquilizar?

O sistema RAA e a COVID-19: podemos nos tranquilizar?

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Sanar Medicina

4 minhá 93 dias

Logo no início da pandemia, uma preocupação relevante se estabeleceu entre o meio médico e a comunidade. Ao redor do mundo, muitas pessoas utilizam medicações inibidoras do sistema renina-angiotensina-aldosterona (RAA) para o controle da hipertensão, insuficiência cardíaca e doença renal crônica. 

Os principais representantes destas classes de medicações são os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e os bloqueadores do receptor de Angiotensina (BRA). 

Especulou-se que aqueles em tratamento com estas medicações poderiam estar em maior risco de contrair a COVID-19. O motivo: o SARS-CoV-2 utiliza o receptor ACE2, envolvido no sistema RAA, para adentrar as células do corpo humano. 

Caso queira relembrar, temos um post falando com mais detalhes sobre o assunto. Basicamente, o raciocínio era o seguinte:

Se os medicamentos bloqueiam o sistema RAA, seria possível que isto causasse, por upregulation, aumento dos receptores ACE2 e, consequentemente, aumentasse o risco dos pacientes serem infectados pelo SARS-CoV-2?

Chegou-se a formular a hipótese contrária, acreditando-se que o bloqueio do receptor conferiria proteção contra a infecção.

Enfim, toda esta celeuma demandou estudos robustos, pois a indicação do uso da medicação, ou da descontinuação daqueles que já usavam previamente, devia ser precisamente assertada.  

Estudos observacionais mostram segurança

Inicialmente, médicos e pacientes foram acalmados pelos resultados de estudos observacionais que indicavam que o uso de bloqueadores do receptor ACE2 não implicavam em aumento do risco de infecção. 

No entanto, estudos observacionais são sabidamente limitados pela sua incapacidade de excluir variáveis confundidoras. 

No caso da COVID-19, estas variáveis eram muito importantes, já que após algum tempo da pandemia, os cientistas descobriram que os fatores de risco para doença grave eram os mesmos para aqueles com maior chance de fazer uso destas medicações, a saber: idade avançada, hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca e doença renal crônica. 

Um estudo randomizado confirma hipótese

A dificuldade em realizar estudos randomizados era a descontinuação da medicação em pacientes que faziam uso da mesma.

O uso se fazia por um motivo, e sabe-se dos efeitos benéficos destas medicações nas comorbidades previamente citadas. 

Na revista The Lancet Respiratory Medicine, o primeiro ensaio clínico, denominado REPLACE COVID, examinou o impacto da retirada ou manutenção dos bloqueadores do sistema RAA em 152 pacientes hospitalizados com COVID-19 em 20 centros internacionais. 

Neste ensaio, os desfechos avaliados foram: necessidade de ventilação, falência de múltiplos órgãos e morte.

Os resultados mostraram que os desfechos para pacientes tratados com bloqueadores do sistema RAA foram os mesmos, independentemente da retirada ou continuação da medicação. 

Finalmente, qual a conclusão?

Um único estudo randomizado, com um número amostral limitado, não é suficiente para “bater o martelo” na questão em voga.

No entanto, os resultados apresentados, aliados àqueles vistos em estudos observacionais, são suficientes para contra indicar a retirada de medicamentos que bloqueiam o sistema RAA naqueles pacientes que já fazem uso crônico destas medicações. 

Um estudo mais robusto, ainda não publicado, está em andamento e avaliará a mesma questão em 659 pacientes hospitalizados aqui no Brasil.

Resta-nos aguardar o resultado final, mas os preliminares já apontam para os mesmos desfechos do estudo REPLACE COVID. 

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Referências:

Renin-angiotensin system inhibitors in hospitalised patients with COVID-19 – The Lancet

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