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O Transtorno de compulsão alimentar / Uma visão geral | Colunistas

O Transtorno de compulsão alimentar / Uma visão geral | Colunistas

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Imagem de perfil de Mafê Castanho

A compulsão alimentar se caracteriza pela ingestão de grandes quantidades de alimentos em um curto período de tempo, seguido, geralmente, de desconforto e autocondenação. Sendo um transtorno alimentar complexo, multifacetado e que não produz somente efeitos no corpo, mas também acentuado sofrimento ao indivíduo.

Introdução

Os Transtornos Alimentares são um grupo de transtornos mentais severos, incapacitantes e frequentemente crônicos. Que são  caracterizados pela perturbação persistente no comportamento alimentar, ocasionando alterações no consumo e na absorção dos alimentos.

Um dos 06 transtornos alimentares reconhecidos e descritos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais é o Transtorno de Compulsão Alimentar, o qual daqui em diante será descrito como TCA, para melhor dinâmica e leitura.

Epidemiologia

Referente ao TCA observa-se uma maior incidência em adolescentes e jovens adultos, sendo predominante no gênero feminino, porém de modo menos assimétrico que quando comparado a bulimia nervosa, vale destacar ainda que em pacientes obesos a prevalência estimada de TCA é de 7,5% a 30%, diferentemente da população em geral, que pode variar de 1,5% a 5%.

Os transtornos alimentares de modo geral tendem a afetar uma população mais jovem, sendo que, entre crianças estadunidenses, com idade entre 9 e 14 anos, a prevalência de comportamentos alimentares disfuncionais é de 7,1% em meninos e 13,4% em meninas.

Já em adultos, a prevalência dos transtornos alimentares pode ser classificada em 0,6% para anorexia nervosa, 1% para bulimia nervosa e 3% para transtorno da compulsão alimentar.

Demonstrando assim uma maior identificação do TCA e necessidade de abordagem adequada destes indivíduos.

Critérios Diagnósticos

O processo de diagnóstico segue o protocolado no Manual Diagnóstico e Estatística de  Transtornos Mentais DSM-5, sendo realizado clinicamente seguindo os critérios:

A. Episódios recorrentes de compulsão alimentar. Um episódio de compulsão alimentar é caracterizado pelos seguintes aspectos:

1. Ingestão, em um período determinado (p. ex., dentro de cada período de duas horas), de uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria das pessoas consumiria no mesmo período sob circunstâncias semelhantes.

2. Sensação de falta de controle sobre a ingestão durante o episódio (p. ex., sentimento de não conseguir parar de comer ou controlar o que e o quanto se está ingerindo).

B. Os episódios de compulsão alimentar estão associados a três (ou mais) dos seguintes aspectos:

1. Comer mais rapidamente do que o normal.

2. Comer até se sentir desconfortavelmente cheio.

3. Comer grandes quantidades de alimento na ausência da sensação física de fome.

4. Comer sozinho por vergonha do quanto se está comendo.

5. Sentir-se desgostoso de si mesmo, deprimido ou muito culpado em seguida.

C. Sofrimento marcante em virtude da compulsão alimentar.

D. Os episódios de compulsão alimentar ocorrem, em média, ao menos uma vez por semana durante três meses.

E. A compulsão alimentar não está associada ao uso recorrente de comportamento compensatório inapropriado como na bulimia nervosa e não ocorre exclusivamente durante o curso de bulimia nervosa ou anorexia nervosa.

Estadiamento

Uma vez identificado e diagnosticado o TCA pode-se especificar a gravidade atual do quadro, o nível mínimo de gravidade baseia-se na frequência de episódios de compulsão alimentar (ver a seguir).

Leve: 1 a 3 episódios de compulsão alimentar por semana.

Moderada: 4 a 7 episódios de compulsão alimentar por semana.

Grave: 8 a 13 episódios de compulsão alimentar por semana.

Extrema: 14 ou mais episódios de compulsão alimentar por semana.

Porém o nível de gravidadepode ser ampliado de maneira a refletir outros sintomas e o grau de incapacidade funcional.

Na prática

No dia a dia prático devemos levar em consideração aspectos diversos para abordagem e identificação da pessoa com TCA, entre eles temos:

O contexto em que a ingestão ocorre pois esta pode afetar a estimativa do clínico quanto à ingestão ser ou não excessiva. Por exemplo, uma quantidade de alimento que seria considerada excessiva para uma refeição típica seria considerada normal durante uma refeição comemorativa.

Se a ocorrência de consumo excessivo de alimento é acompanhada por uma sensação de falta de controle para ser considerada um episódio de compulsão alimentar. Sendo indicador da perda de controle é a incapacidade de evitar comer ou de parar de comer depois de começar. Alguns indivíduos descrevem uma qualidade dissociativa durante, ou depois de, episódios de compulsão alimentar.

Deve-se levar em consideração que o tipo de alimento consumido durante episódios de compulsão alimentar varia tanto entre diferentes pessoas quanto em um mesmo indivíduo. A compulsão alimentar parece ser caracterizada mais por uma anormalidade na quantidade de alimento consumida do que pela fissura por um nutriente específico.

Indivíduos com transtorno de compulsão alimentar geralmente sentem vergonha de seus problemas alimentares e tentam ocultar os sintomas. A compulsão alimentar ocorre em segredo ou o mais discretamente possível.

O transtorno de compulsão alimentar ocorre em indivíduos de peso normal ou com sobrepeso e obesos. O transtorno é consistentemente associado ao sobrepeso e à obesidade em indivíduos que buscam tratamento.

Gatilhos

O antecedente mais comum da compulsão alimentar é de aspectos emocionais, principalmente os de valência negativa.

Paciente com TCA reportaram um número significativamente maior de situações estressoras (três ou mais) um ano antes de começarem a ter esses comportamentos que os indivíduos sem diagnósticos psiquiátricos. Sendo levantado nos estudos alguns gatilhos como: término de relacionamentos amorosos, a morte de pessoas próximas, problemas financeiros e abuso sexual na infância.

Os gatilhos posteriores incluem estressores interpessoais; restrições dietéticas; sentimentos negativos relacionados ao peso corporal, à forma do corpo e ao alimento; e tédio.

A compulsão alimentar acaba sendo desenvolvida visto que pode minimizar ou aliviar fatores que precipitaram o episódio a curto prazo, porém a autoavaliação negativa e a disforia com frequência são as consequências tardias.

É importante notar que o repertório individual do paciente para lidar com contextos potencialmente estressantes pode aumentar as chances da ingestão calórica excessiva quando comparada a outros indivíduos em um contexto semelhante

Comorbidades

O TCA está associado à comorbidadepsiquiátrica, que está ligada à gravidade da compulsão alimentar, não ao grau de obesidade. Sendo os transtornos comórbidos mais comuns: transtornos bipolares, transtornos depressivos, transtornos de ansiedade e, em um grau menor, transtornos por uso de substância.

O TCA também se vincula à um baixo desempenho nas habilidades de flexibilidade cognitiva, memória de trabalho e resolução de problemas como avaliado em estudos, além da relação de agravamento e/ou desenvolvimento de outras doenças como a obesidade temos também uma maior morbimortalidade registrada e maior utilização associada a serviços de saúde em comparação a controles pareados por índice de massa corporal.

Diagnóstico Diferencial

Bulimia nervosa:

Onde temos o “comer compulsivamente” de modo recorrente, porém difere desta devido ao comportamento compensatório inapropriado recorrente (p. ex., purgação, exercício excessivo).

Obesidade:

 O transtorno de compulsão alimentar está associado a sobrepeso e obesidade, mas apresenta diversos aspectos-chave distintos da obesidade.

Transtornos bipolar e depressivo:

Aumentos no apetite e ganho de peso estão incluídos nos critérios para episódio depressivo maior e nos especificadores de aspectos atípicos para transtornos depressivos e bipolar.

Transtorno da personalidade borderline: 

A compulsão alimentar está inclusa no critério de comportamento impulsivo que faz parte da definição do transtorno da personalidade borderline. Se todos os critérios de ambos os transtornos forem preenchidos, então os dois diagnósticos devem ser dados.

Abordagem / Tratamento

Visto a complexidade do TCA deve se realizar uma abordagem singular ao paciente e ampla, englobando os vários aspectos que impactam em sua condição de saúde, entre as abordagens temos em destaque a possibilidade de se realizar:

  • Entrevista Motivacional (EM), que objetiva auxiliar em processos de mudança de adicções
  • A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) busca reorganizar crenças disfuncionais que podem desenvolver e manter comportamentos inadequados, eficácia da terapia e a redução dos sintomas e do peso corporal de sujeitos com TCA.
  • Terapia de Vida Interdisciplinar (TVI) que se caracteriza por um acompanhamento médico, nutricional, psicológico e de atividades físicas. Programa com melhora considerável na qualidade de vida dos indivíduos

Sobre tratamentos farmacológicos, estes podem ser indicados, influenciando na redução e remissão do comportamento compulsivo alimentar, além de perda de peso e do efeito neuro terapêutico.

  • Antidepressivos têm eficácia a curto prazo na eliminação da compulsão alimentar, mas a eficácia a longo prazo é desconhecida.
  • A lisdexanfetamina está aprovada para o tratamento do transtorno de alimentação compulsiva moderada a grave, podendo reduzir o número de dias dos episódios compulsivos e parece causar uma ligeira perda ponderal, mas sua eficácia a longo prazo é desconhecida.
  • Fármacos supressores do apetite (ex. topiramato) ou fármacos para perda ponderal (ex. orlistat) podem ser úteis.

As taxas de remissão tanto em estudos do curso natural quanto nos de tratamento do transtorno são maiores para o transtorno de compulsão alimentar do que para bulimia ou anorexia nervosas

Conclusão

Ao estudarmos o TCA notam-se aspectos objetivos (aumento do peso, mudança no comportamento alimentar e problemas de saúde) e subjetivos (sentimentos e história de vida). Isto contribui para a caracterização de um transtorno alimentar complexo, que deve ser avaliado é abordado em temática ampla que envolve o corpo, a história de vida, os sentimentos, a cultura e as relações dos indivíduos com a comida e com o próprio corpo.

Quanto às possibilidades de tratamento, observamos a prevalência de estudos com ênfase na TCC. Podendo se utilizar se necessário medicações como inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs) ou lisdexanfetamina.

Autoria: Maria Fernanda Fontes de Paula Castanho

Instagram: @mariaffpc @study.mafe.sanar https://instagram.com/study.mafe.sanar?igshid=YmMyMTA2M2Y=

Referências:

Transtorno de compulsão alimentar: revisão sistemática da literatura

Rev. Psicol. Saúde vol.11 no.1 Campo Grande jan./abr. 2019

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2177-093X2019000100001

A influência da ansiedade na compulsão alimentar e na obesidade de universitários

Rev. Gest. Sist. Saúde, São Paulo, 10(1), p. 21-44 jan./abr. 2021/22 https://periodicos.uninove.br/revistargss/article/download/14834/8759

Avaliação e intervenção no transtorno da compulsão Alimentar (tcA): uma revisão sistemática / Psico- Porto Alegre, 2018;

https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/6787075.pdf

Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM-5 (2014)

http://www.niip.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Manual-Diagnosico-e-Estatistico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5-1-pdf

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto