Alergologia e imunologia

O vírus que causa o COVID-19 pode se tornar endêmico | Colunistas

O vírus que causa o COVID-19 pode se tornar endêmico | Colunistas

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Bruno Fernando de Oliveira

10 min há 95 dias

Tecnicamente, endemia é descrita como a incidência de uma doença de forma relativamente constante, com possíveis variações sazonais no comportamento esperado para o seu agravo.

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Pode ser entendida também como um episódio de um agravamento dentro de um período baseado na sua ocorrência em anos anteriores, sendo esses não epidêmicos.

Nesse contexto e de acordo com o panorama atual de casos por infecções de Covid-19, há grandes chances de advirmos de um período epidêmico para um endêmico, passando a conviver com o vírus todos os anos. Isso acontece quando uma patologia se torna presente e circulante na sociedade, porém em níveis mais baixos e controlados, como nos casos da dengue, malária, leishmaniose, hanseníase e outras doenças já endêmicas no Brasil.

Um breve histórico do coronavírus no Brasil e no mundo

                Os relatos iniciais de infecção por coronavírus em humanos datam da década de 60 do século XX, porém obtiveram atenção mundial apenas entre os anos de 2002 e 2003 com o agravamento de infecções pelo vírus denominado SARS-CoV (Severe Acute Respiratory Syndrome – Coronavirus), na China. Um vírus semelhante foi identificado na Arábia Saudita no ano de 2012, sendo designado como MERS-Cov (Middle East Respiratory Syndrome – Coronavirus).

                No final do ano de 2019, casos de pacientes com uma patologia respiratória desconhecida surgiram na cidade de Wuhan, na China e todos eles, coincidentemente, tiveram contato com o comércio de animais vivos. Suspeita-se, portanto, tratar-se de uma patologia com transmissão zoonótica. Posteriormente, a patologia foi identificada como SARS-CoV 2 ou Covid-19 pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Em decorrência da facilidade de deslocamento mundial atual, o vírus logo se tornou presente em todos os continentes.

                A primeira notificação brasileira ocorreu em fevereiro de 2020, na cidade de São Paulo, então diversos casos começaram a ser notificados em todos os estados brasileiros, primeiramente nas capitais e grandes cidades e posteriormente no interior de cada estado.

O coronavírus atualmente

                Há mais de um ano após o primeiro relato de infecção por Covid-19, não há claras previsões de que esse panorama mudará tão rápido. Sobretudo no Brasil, os casos e os óbitos aumentam diariamente, o controle está defasado, a vacinação segue em ritmo lento e parte da população não segue as medidas mínimas preventivas para a diminuição da transmissão.

                Pelo ritmo de contágio, cientistas acreditam que o vírus circulará ainda por muito tempo no país (e no mundo), com grandes chances de se tornar uma endemia. Para que seja criada uma barreira ampla e efetiva é necessário que mais pessoas sejam vacinadas ao mesmo tempo e que haja também uma testagem em massa para identificar os potenciais transmissores e colocá-los em quarentena, além de aumentar o distanciamento social.

Há, ainda, uma grande deficiência na vigilância epidemiológica no Brasil atualmente. Apesar do país possuir recursos suficientes e profissionais altamente capacitados para trabalhar na contenção da pandemia, não há um plano unificado e uma rigorosidade na cobrança do controle ou fiscalização da doença, como ocorre em outros países com planos mais sólidos.

Entendendo uma endemia

                Uma endemia é caracterizada como o momento em que determinada enfermidade atinge um certo equilíbrio na sua taxa de reprodução, ou seja, quando uma pessoa transmite em média para apenas uma outra pessoa, o que se classifica como “R”, que é o poder de reprodução e que nesse caso é R = 1. Quando esse valor é superior a um ocorrem os surtos ou epidemias. Esse número, ocasionalmente, pode ser muito mais alto e progredir rapidamente, levando à ocorrência de pandemias, como no caso da pandemia do Covid-19. Em alguns casos, quando os valores de R são menores que um, tende-se à eliminação da doença em uma comunidade.

                O Covid-19 tem um potencial de transmissão entre 2,4 e 3,3, de acordo com o Instituto Robert Koch, na Alemanha, o que indica que cada pessoa infectada pode transmitir, em média, para duas a três pessoas. Há a possibilidade do poder de transmissão cair, mas é possível também aumentar. A permanência de valores mais altos e desequilibrados pode favorecer ainda mais a manutenção do vírus na sociedade. Nesse sentido e de acordo com estudos atuais, vale salientar que, antes dessa pandemia se tornar uma eventual endemia, possivelmente teremos novos picos de infecções.

De epidemia para endemia no Brasil

                Um dos motivos destacados por cientistas brasileiros envolvidos em pesquisas sobre o Covid-19 para que a doença se torne endêmica é justamente a ainda incerta redução da transmissão do vírus após a aplicação das vacinas já desenvolvidas e o fato de que o país já apresenta variantes que podem ser resistentes às vacinas.

                Enquanto não houver melhora na vigilância epidemiológica, responsabilidade por parte da população sobre os cuidados mínimos para evitar a transmissão e vacinação em massa é provável que o vírus continue circulando, mesmo que não cause o padrão mais grave da doença. Novos surtos podem ocorrer a qualquer momento da mesma maneira que já ocorrem com outras doenças endêmicas no Brasil, como a dengue.

O que se espera para o futuro

                Tal como já ocorre com o vírus da influenza, mutações anuais poderão ocorrer e, consequentemente, a vacinação precisará se tornar constante e, porventura, parte do Programa Nacional de Imunização (PNI). Outra forma de conter o avanço da doença seria através de altos níveis de imunidade da população, todavia, ainda não existem pesquisas suficientes que demonstrem efetivamente o nível de proteção garantida pela vacina ou por alguém que já foi infectado. Portanto, faz-se necessário aguardar novos resultados científicos.

                Ademais, com uma melhora da monitorização, da vacinação, da vigilância sanitária e da consciência da população acerca dos cuidados mínimos necessários é possível que o Covid-19 não se torne uma endemia ou não seja reintroduzido no país. Nesse contexto, devemos nos lembrar de bons exemplos como no caso do vírus da poliomielite, erradicado no país desde 1994 ou de exemplos não tão bons como o vírus do sarampo, reintroduzido desde o ano de 2018 no Brasil. Outra possibilidade para o controle do coronavírus seria o desenvolvimento de um medicamento com eficácia comprovada.

                São diversas as possibilidades para impedir ou reduzir a proporção de vírus circulantes. Dependemos, mais do que nunca, de um trabalho conjunto na sociedade, antes que tenhamos que conviver com esse vírus por mais tempo do que já suportamos.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

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