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Os desafios de viver com câncer em momentos de pandemia (COVID-19) | Colunistas

Os desafios de viver com câncer em momentos de pandemia (COVID-19) | Colunistas

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Lara Honório

9 min há 50 dias

Questões de relevância

Como é de amplo conhecimento, portadores de neoplasias estão inclusos nos grupos de risco para COVID-19. Tal infecção possui patogenia complexa e facilmente confundida com outras síndromes gripais devido a heterogeneidade de seus sintomas. Seu perfil clínico tende a grande risco de complicações e para uma difícil abordagem terapêutica. Pacientes com câncer precisam manter a continuidade de seus tratamentos quimioterápicos/radioterápicos/imunoterápicos em quaisquer modalidades prescritas, de finalidade, seja ela adjuvante, neoadjuvante, radiossensibilizante ou paliativa.

São vários os fatores desafiantes nesse contexto, pois lidamos com pacientes imunossuprimidos, mais susceptíveis a infecções e que pela necessidade de manter seus tratamentos em ambiente hospitalar se tornam ainda mais expostos a esses riscos. Dessa forma, o Serviço Médico do Hospital do Câncer IV (HCIV) do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), em acordo com a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) instituíram um plano de ação direcionado à segurança desses pacientes durante o período pandêmico.

A falta de evidências científicas sólidas a cerca das intervenções farmacológicas para o vírus SARS-Cov-19, coloca esse grupo clínico em destaque, pois a sua sensibilidade fisiológica e imunológica faz com que a infecção por coronavírus tenha um desfecho de maior redução em seu tempo de sobrevida. Além disso, isolar um indivíduo que já vive em um estado de dor psíquica é bastante prejudicial e vai de encontro com os pilares dos cuidados paliativos, que prezam pela promoção da qualidade de vida e alívio da dor e sofrimento.

Figura 1: Classificação, padrões e tipos de Dor. Fonte: Arquivo pessoal de Lara T. F. S. Honório.

Além disso, pacientes oncológicos apresentam com certa frequência quadros de dispneia como efeito colateral dos quimioterápicos utilizados ou ainda em consequência do uso de opioides administrados para prevenção ou controle da dor. Por se tratar de um sintoma recorrente na infecção por SARS-Cov-19, essa se torna uma queixa prevalente nos serviços de urgência e emergência oncológica e isso reverbera no aumento da presença desses indivíduos em ambientes hospitalares.

Figura 2: Definição e características principais da dispneia. Fonte: Arquivo pessoal de Lara T. F. S. Honório.

Acolhimento e tecnologia

O sofrimento psíquico é um fator a ser discutido e passível de reformulações na forma de assistir aos pacientes, pois os danos psicológicos trazidos pelo desconhecimento preciso da COVID-19, reflete em outros fatores estressores danosos à saúde mental, como crises de ansiedade e estado depressivo. Sendo assim, se mostra de muita valia o acolhimento a família e ao paciente, e a tecnologia é agregada nesse contexto ao aproximar as pessoas nesse momento em que ao testar positivo, é exigido o isolamento de contato.

  Para isto, o uso da tecnologia desempenha um papel muito importante, pois trazer para perto de si as pessoas que oferecem conforto e segurança, tem completa relação com a qualidade de vida no processo de adoecimento. O panorama geral é bastante conflitante, a equipe de saúde também está submetida a diferentes e diversos fatores estressores, além da sobrecarga laboral.

Figura 3:Paciente com Covid-19 em videochamada com familiares. Fonte: https://radaramazonico.com.br/videochamadas-diminuem-a-distancia-entre-pacientes-de-covid-19-e-familiares/.

Dessa forma, as instituições também são responsáveis por planejar e implementar estratégias de enfrentamento do desenvolvimento de importantes sintomas psicológicos em seu banco de profissionais. Isso é, profissionais adoecidos não conseguem assistir adequadamente usuários também adoecidos.

Adequações do serviço em tempos de pandemia:

Modalidade de assistênciaIntervenções
            AmbulatórioPrimeiro atendimento agendado;Telemonitoramento e teleorientação sobre quadro clínico e controle de sintomas + registro no prontuário;Sintomas controlados: Evitar consultas presenciais;Oferecer receituário para familiares ou alguém designado a buscar o documento, evitando a presença do paciente e garantido a continuidade de tratamentos;Busca ativa por sinais e sintomas sugestivos de síndromes gripais e Covid-19 no paciente, acompanhante e moradores da mesma residência;Rastreio de casos suspeitos de infecção por Covid-19 e reagendar consulta para 14 dias após sintomas iniciais;Notificar casos suspeitos a instituição e casos confirmados ao e-SUS VE (Vigilância Epidemiológica).
            Assistência domiciliarTeleorientação e telemonitoramento, priorizando o atendimento remotamente e de forma gradual;Priorizar o atendimento presencial de pacientes com sintomas sem controle;Rastrear casos suspeitos e notificar casos confirmados (e-SUS VE);Oferecer receituário para familiares ou alguém designado a buscar o documento.
                Serviço de pronto atendimentoPré-triagem direcionada a sintomas sugestivos de infecção por Covid-19  antes que o usuário adentre ao setor, para ser direcionado ao local de isolamento e prosseguir seu atendimento;Evitar internações de casos suspeitos sem gravidade;Realizar telemonitoramento de pacientes com sintomas compensados e deliberar receituário com ajuste de medicações e sinalizar ambulatório ou assistência domiciliar;Definir necessidades/prioridades de internação, acelerar documentação e disponibilizar leito;Se caso suspeito, o paciente deve ser internado na própria unidade até que libere espaço e regule transferência;Notificar casos confirmados e-SUS VE e casos suspeitos e confirmados para CCIH.
      Internação hospitalarSetor exclusivo para casos suspeitos de infecção por Covid-19;Boletim médico diário deve ser passado por videochamada ou chamada de voz com acolhimento e disponibilidade. Solicitar apoio técnico se for necessário.

Conclusão

Dentre tantos questionamentos ainda em processo de investigação cientifica, a experiência de viver com câncer em um momento tão crítico para a humanidade exige muito da psique do grupo em questão. Como se sabe, ao receber o diagnóstico de uma DCNT, como o câncer, por exemplo, o indivíduo está incluído na modalidade de cuidado que preza pela sua saúde física e mental, pela sua dignidade e qualidade de vida, independente da gravidade do seu prognóstico. Para maior aprofundamento sobre Cuidados Paliativos e Paliação, acesse meu artigo sobre essa temática em: Cuidados paliativos: o renascimento na vivência da experiência morte-morrer | Colunista | Sanar Saúde (sanarsaude.com).

Desse modo, o estabelecimento de estratégias de cuidado que uma controle de sintomas relacionados ao câncer e a Covid-19, bem como prevenção da infecção e garantia de assistência, acolhimento e humanização devem ser alinhadas e executadas de forma satisfatória. Os profissionais envolvidos na assistência ao paciente internado em leitos direcionados à Covid-19 precisam ser treinados e estimulados quanto a organização do acolhimento para esses pacientes e seus familiares, seguindo as adaptações que o cenário atual exige.

Prezar pelo telemonitoramento e teleatendimento desses usuários do serviço é de extrema importância e se trata de medidas orientadas e autorizadas pelos respectivos órgãos de gerência à saúde, assim como pelo CFM e o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), que permitem nesse contexto, a avaliação, orientação e prescrição de ações pertinentes as suas práticas laborais seguindo suas normatizações específicas. Tais remodelamentos nos serviços demonstram a preocupação em promover qualidade de vida e de morte pata esses pacientes e o respeito aos familiares através também da manutenção de uma boa comunicação e acolhimento.

Figura 4: Os pilares que fundamentam os Cuidados Paliativos. Fonte: Arquivo pessoal de Lara T. F. S. Honório.

Autor: Lara Honório

Instagram: @medcandoo

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

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