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Paciente hipocondríaco: como identificar e quais condutas adotar?

Paciente hipocondríaco: como identificar e quais condutas adotar?

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Confira nesta publicação tudo que o médico precisa saber para atender um paciente hipocondríaco!

A hipocondria é um dos diagnósticos que devem ser aventados diante de um quadro onde o paciente apresenta um sintoma específico ou um grupo deles sem uma explicação médica plausível. Por isso, essa condição pode estar fortemente associada a transtornos como o somatoforme indiferenciado, conversão, transtorno dismórfico corporal e outros.

Segundo o DSM V, cerca de 75% dos pacientes hipocondríacos estão inclusos no diagnóstico de transtorno de sintomas somáticos. Esses paceintes precisam ser adequadamente tratados devido ao impacto dessa condição na qualidade de vida e funcionalidade social desses indivíduos.

Pela forte associação desse transtorno a transtornos depressivos, existe um risco aumentado de suicídio nessa população. Sendo muito importante prestar a assistência adequada aos pacientes nessas condições.

Abaixo organizamos uma revisão para que você esteja bem-informado sobre o que é imprescindível saber a respeito da hipocondria. 

Hipocondríaco: o que preciso saber sobre a condição?

A hipocondria inclui uma ansiedade considerável diante da possibilidade de obter ou contrair doença. Essa crença impulsiona o paciente a buscar incontáveis profissionais e/ou utilizar a automedicação como forma preventiva associada a doença ou sintoma que acredita estar acometido e pode levar a incapacitação do indivíduo.

O paciente com hipocondria pode apresentar esse altíssimo grau de ansiedade relacionado à saúde quando não possui nenhum sintoma somático ou até na presença de sintomas. Mas essa ansiedade não consiste em critério para diagnóstico de um transtorno de ansiedade no DSM 5.

Esses indivíduos enxergam seus sintomas corporais ou a possibilidade de ter uma doença como situações ameaçadores a sua vida. De forma geral, tendem a pensar o pior. Isso os leva a frequentar rotineiramente serviços de saúde e a se automedicar, além de outros comportamentos de risco que podem ser danosos a sua integridade ou interferir numa condição médica preexistente.

Idosos constituem um grupo etário em que deve ser observado de perto, visto que neles esse transtorno pode gerar considerável sofrimento, ansiedade e impulsionar ações que podem levar a um risco potencial de realização de procedimentos desnecessários.

Fatores de risco e prognóstico

Os fatores de risco e prognósticos estão organizados em três categorias principais:

  • Os temperamentais
  • Ambientais
  • Modificadores do curso.

Fatores temperamentais

Os fatores temperamentais incluem:

  • Traço de personalidade afetividade negativa (neuroticismo)
  • Ansiedade ou depressão como comorbidade com potencial de exacerbar sintomas e incapacitar os indivíduos.

Fatores ambientais

Os fatores ambientais estão mais associados a vulnerabilidade socioeconômica, poucos anos de instrução educacional e eventos estressantes.

Modificadores do curso

Os modificadores do curso consideram a ocorrência dos sintomas aos aspectos:

  • Demográficos
  • Histórico de traumas prévios na infância (como abuso sexual, por exemplo)
  • Doenças ou transtornos psiquiátricos concomitantes. 

Além disso, juntos aos fatores citados anteriormente, estão os cognitivos que podem afetar a sensibilidade a dor (para mais ou para menos) e atenção elevada a sensações corporais também estão inclusos.

Sendo assim, a hipocondria deve ser investigada cautelosamente tendo em vista possíveis comorbidades.

Como identificar um paciente hipocondríaco?

A hipocondria é uma condição que pode ser encontrada no transtorno de sintomas somáticos ou no transtorno de ansiedade de doença. Em ambas, o indivíduo está diante de situações em que não há explicação clínica para suas ações e preocupações exacerbadas associadas à sua saúde.

Quando o comportamento e funcionalidade dos pacientes estão relacionadas ao surgimento de sintomas físicos e/ou mentais sem explicação médica bem definida, enquadra-se o transtorno de sintomas somáticos.

No cenário de intensa ansiedade relacionada a saúde, mas nenhum sintoma somático e sem contexto explicável por outro transtorno psíquico, está o transtorno de ansiedade de doença.

Critérios para os transtornos de sintomas somáticos

Para fazer o diagnóstico de hipocondria, o DSM V preconiza alguns critérios para os transtornos de Sintomas Somáticos, no qual a hipocondria está inclusa. Os critérios são organizados em A, B ou C, segundo a apresentação do caso:

O critério A preconiza a presença de um ou mais sintomas que causam aflição ou resultam em perturbação significada da vida diária;

O critério B inclui pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos relacionados aos sintomas somáticos ou associados a preocupações com a saúde manifestados, pelo menos por um dos seguintes:

  • Pensamentos desproporcionais e persistentes acerca da gravidade dos próprios sintomas;
  • Nível de ansiedade persistentemente elevado acerca da saúde e dos sintomas;
  • Tempo e energia excessivos dedicados a esses sintomas ou a preocupações a respeito da saúde.

Por fim, o critério C expressa que os sintomas podem não estar continuamente presente, mas a condição de estar sintomático é persistente (mais de seis meses).

O que é preciso especificar para os pacientes?

Como vários dos transtornos identificados no DSM V, outros pontos precisam ser esclarecidos diante do quadro clínico:

  • Especificar se o paciente tem dor como sintoma predominante
  • Se a dor é persistente
  • Qual a gravidade do quadro.

A gravidade do transtorno é leve quando apenas um dos sintomas do critério B é identificado; moderado na presença de dois ou mais sintomas do critério B; grave quando dois ou mais sintomas do critério B associado a múltiplas queixas somáticas.

É importante lembrar que a hipocondria pode ser uma das manifestações que podem surgir em pacientes com depressão, juntamente com as queixas somáticas.

Em uma minoria dos casos, pacientes hipocondríacos podem estar no rol de pacientes que possuem transtorno de ansiedade de doença, que consiste basicamente numa preocupação excessiva de ter ou contrair alguma doença grave e podem cursar ou não com sintomas somáticos.

Nos casos associados ao transtorno de ansiedade da doença, a preocupação com a doença não é explicada adequadamente por outros transtornos como os de sintomas somáticos, por exemplo. 

Diagnósticos diferenciais da hipocondria

São alguns diagnósticos diferenciais que devem ser investigados:

Hipocondria tem cura? 

Não há atualmente uma cura para a hipocondria, mas o tratamento para essa condição deve ser realizado assim que possível para auxiliar o paciente na redução dos sintomas e melhora da qualidade de vida.

Nesse sentido, a terapêutica adequada para a hipocondria alia aspectos comportamentais e medicamentosos conforme o quadro apresentado pelo paciente, sempre identificado a gravidade para nortear o tratamento.

Os aspectos comportamentais são comumente tratados com o uso da terapia cognitiva comportamental e/ou terapia de exposição, embora não exista alto grau de evidência a eficácia em longo prazo desse tratamento.

A terapia medicamentosa tem sido realizada com Pimozida, um fármaco antipsicótico amplamente utilizado como medicamento de escolha. Contudo, existem múltiplos grupos que defendem o uso de antidepressivos como a Fluoxetina e a Amitriptilina, ou da Risperidona (um outro antipsicótico). 

Dicas de como atender bem um paciente hipocondríaco

Pacientes com essa condição tendem a ser usuários constantes de serviços médicos na tentativa de aliviar suas preocupações com a saúde – em todos os aspectos. Por isso, eles podem chegar ao consultório informando que já procuraram múltiplos profissionais em outras ocasiões e não obteve nenhum sucesso no diagnóstico ou tratamento da condição.

Ao ouvir histórias como essas, que representam a clássica queixa dos pacientes hipocondríacos, é necessário que o médico busque estabelecer uma relação de confiança com o indivíduo. 

Como ajudar um hipocondríaco a sair desta condição?

Em primeiro lugar, é necessário que o médico converse com o paciente no intuito de esclarecer e enfatizar que a hipocondria é um problema de saúde que precisa ser abordado adequadamente assim como qualquer outra condição de saúde.

É preciso reconhecer ainda que o sofrimento do paciente é autêntico, independentemente de estar associado ou não a outra condição médica. Essa associação, inclusive, não é excludente do diagnóstico de hipocondria.

O encaminhamento para um médico psiquiatra e/ou a sugestão de terapia psicológica podem ser recebidos com surpresa ou recusa pelos indivíduos, fazendo com que se sintam desacreditados ou invalidados pelo médico. Dessa forma, deve-se agir com cautela na abordagem com esses pacientes.

O que o médico deve ficar atento em casos de atendimento a pacientes hipocondríacos para não deixar passar sinais de outras enfermidades?

É importante ainda estar atento para o fato de que indivíduos com hipocondria podem, de fato, ser acometido patologias reais e necessitarem de tratamento, embora pelo histórico de múltiplas buscas por serviços de saúde e possível uso exacerbado de medicações desnecessárias possam ser fatores confundidores. 

Dessa forma, os sintomas que o paciente apresenta devem ser devidamente investigados. Nesses casos, uma boa anamnese e exame físico bem conduzido são imprescindíveis, além da escuta apurada.

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Por não existir um tratamento específico e bem estabelecido para a hipocondria, essa é uma condição em que o acolhimento ao paciente torna-se ainda mais importante.

Pelo comportamento de risco que esses pacientes podem desenvolver, o médico precisa estar bastante atento à condução do tratamento em todos os aspectos e incluir o paciente nas escolhas terapêuticas que serão adotadas. 

Devido a necessidade de tratamento adequado, esses pacientes devem ser encaminhados aos psiquiatras e psicólogos visando uma abordagem interdisciplinar à situação, mas a forma em que essa solicitação é apresentada ao paciente precisa considerar que o sofrimento dele é real e involuntário, mesmo que não haja explicação definida para suas crenças.

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Referências bibliográficas

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION – APA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  • Forlenza, Orestes Vicente; Miguel, Euripedes Constantino; Bottino, Cássio Machado de Campos; Elkis, Hélio; Tavares, Hermano; Fráguas Jr., Renério; Scivoletto, Sandra; Cordás, Táki Athanássios (eds). Clínica psiquiátrica de bolso [2.ed.]. BARUERI: Manole, 2018. 821p.
  • Scarella TM, Laferton JA, Ahern DK, Fallon BA, Barsky A. The Relationship of Hypochondriasis to Anxiety, Depressive, and Somatoform Disorders. Psychosomatics. 2016 Mar-Apr;57(2):200-7. doi: 10.1016/j.psym.2015.10.006. Epub 2015 Oct 23. PMID: 26785798; PMCID: PMC4792743

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