Coronavírus

Pandemia da COVID-19 e a relação entre as infecções virais e as doenças autoimunes

Pandemia da COVID-19 e a relação entre as infecções virais e as doenças autoimunes

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Sanar Medicina

5 min há 14 dias

No post de hoje trataremos sobre como a pandemia da COVID-19 vem contribuindo para o melhor entendimento entre as infecções virais e as doenças autoimunes. A ideia de que um vírus seja capaz de servir como gatilho para desenvolvimento de autoimundade patológica não é nova. 

Porém, quando milhões de pessoas são infectadas por um determinado vírus num curto período de tempo, as relações tornam-se mais claras e ajudam a elucidar mecanismos outrora desconhecidos. 

A dificuldade de estudar a relação entre vírus e autoimunidade

Apesar da antiga discussão sobre o tema, apenas para poucas doenças autoimunes a relação com uma determinada infecção viral é clara e indiscutível. 

Para a maioria das doenças autoimunes, como diabetes tipo 1, esclerose múltipla, lúpus e artrite reumatoide, as evidências são ainda obscuras. 

Isto se dá devido a dificuldade intrínseca de se estudar uma infecção viral com os mecanismos geradores de autoimunidade. 

Por exemplo, a coleta de informações epidemiológicas é prejudicada devido ao tempo que separa o evento infeccioso do início dos sintomas da doença autoimune. 

Além disso, nos tecidos danificados pelo próprio sistema imune, geralmente não é possível detectar a presença de um determinado vírus. 

Dessa forma, torna-se difícil estabelecer uma relação direta e causal entre ambos eventos. 

Como infecções virais podem gerar autoimunidade

Apesar da dificuldade de estabelecer um link claro, não há dúvidas de que vírus são capazes de gerar autoanticorpos. Alguns mecanismos imunológicos podem explicar a geração da resposta imune direcionada contra o próprio hospedeiro. 

Inflamação tecidual confunde células do sistema imune

As células do sistema imune adaptativo direcionam seu ataque contra marcadores específicos denominados antígenos. 

Ocorre que, durante uma lesão tecidual mais extensa, a liberação de vários antígenos pode confundir o sistema imune, fazendo com que este não saiba mais diferenciar antígenos virais de autoantígenos. 

Como resultado, as células do sistema imune irão atacar não apenas o vírus, mas componentes do próprio organismo. 

O mimetismo molecular gerando autoimunidade

Outra forma que explica a autoimunidade consiste no mimetismo molecular exercido por proteínas de um determinado invasor, que muito se assemelham às moléculas do próprio organismo. 

Como consequência, os anticorpos produzidos atacam o agente invasor, mas acabam danificando células próprias pela similaridade estrutural. 

É o caso da febre reumática, uma complicação decorrente de uma faringite estreptocócica, onde proteínas do agente Streptococcus pyogenes se assemelham com proteínas do músculo cardíaco.

Como consequência, o sistema imunológico ataca tanto a bactéria como o músculo cardíaco, levando a disfunção miocárdica. 

Pandemia da COVID-19 contribui para entendimento do assunto

A pandemia da COVID-19 tem contribuído para o conhecimento da relação entre vírus e autoimunidade.

Como já discutimos aqui, estudos já demonstraram a presença de vários autoanticorpos em indivíduos expostos ao SARS-CoV-2. 

Inclusive, a autoimunidade gerada pela COVID-19 pode estar implicada na chamada Covid longa, onde sintomas persistem até meses após infecção, um dos motivos sendo por desregulação do sistema imune. 

A pandemia também consegue driblar uma das dificuldades citadas logo no início, pois estamos tratando de um evento marcante para a maioria das pessoas. 

Isto significa que, ao se apresentar num consultório para investigação de uma doença autoimune, a infecção aguda viral poderia ser uma memória distante e esquecida.

Mas no caso da Covid, tanto pacientes irão recobrar com maior facilidade o evento, como os médicos estarão muito mais atentos para estabelecer possível link entre as duas condições. 

Importância do tema para prevenção e tratamento

Ao estabelecer mecanismos claros entre infecções virais e doenças autoimunes, várias estratégias podem ser adotadas para minimizar o aparecimento da autoimunidade.

Por exemplo, a vacinação contra vírus específicos que sejam conhecidamente causadores de doenças autoimunes pode se tornar uma estratégia. 

Uma outra estratégia levantada pelos cientistas é a de fornecer uma dose do agente viral como forma de redirecionar a resposta imune para o agente agressor, desviando-a do hospedeiro. 

A pandemia da COVID-19 tem trazido este assunto novamente à tona, e podemos esperar descobertas e avanços na área nos anos que seguintes. 

Referências

How pandemics strengthen links between viruses and autoimmunity – Nature

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