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Pirâmide do Aprendizado: Mito ou Verdade? | Colunistas

Pirâmide do Aprendizado: Mito ou Verdade? | Colunistas

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Origem

Provavelmente você já se deparou com essa pirâmide em algum momento da sua trajetória educacional, seja no ensino médio ou na universidade. Além da tentativa de conscientizar o aluno sobre como funciona seu processo de aprendizagem, certas vezes tal recurso pedagógico pode ser apresentado como fato incontestável. Contudo, a proposta original era distinta.

Imagem cedida por Liga de Neurologia – Universidade Federal do Rio Grande

Essa imagem passou por longo processo até chegar no modelo comumente apresentado na atualidade. A primeira versão não era pirâmide e sim Cone da Experiência. Surgiu em 1946 através de Edgar Dale, renomado professor da Ohio State University, no estudo Audio-Visual Methods in Teaching.

O cone classificou diferentes atividades exercidas durante o processo de aprendizagem, classificando-as de mais abstratas até mais concretas; concretas significando oferecer experiência e participação, colocando o aluno como responsável direto pelo seu próprio desenvolvimento.

Ao publicar seus achados, buscou demonstrar a importância de elementos sensoriais que vão além da tradicional dualidade leitura-escrita no processo de aprendizagem, incluindo rádio e televisão como possíveis fontes de experiências educativas (tais dispositivos eram inovações tecnológicas na época).

Além disso, fazia questão de evidenciar que existe sobreposição dos níveis, pois não há limites claros entre quais atividades são melhores ou piores. A organização do cone em camadas fornece apenas uma noção geral e não pode ser tomada como divisão rígida nem entendida como escala de dificuldade.

Professor Dale reeditou a publicação em mais de uma oportunidade, com sua última edição sendo liberada em 1969, visando incluir os achados mais recentes da época.

Ilustração do cone elaborada pelo próprio Dale, cedida por Liga de Neurologia – Universidade Federal do Rio Grande

Evolução e atualidade

Em algum momento da década de sessenta, as descobertas de Dale foram transformadas na versão primitiva da pirâmide no Instituto Nacional de Laboratórios de Treinamento em Ciências Comportamentais Aplicadas (NTL, na sigla original em inglês) no Maine, Estados Unidos da América.

Quando a instituição foi questionada por pesquisadores a respeito da origem, eles confirmam que, sim, surgiu na instituição, também informaram acreditar na validade do postulado, contudo lamentaram não possuir mais o estudo que embasou a transformação do cone na pirâmide.

A instituição afirma que após extensivas buscas terminaram sem nada, pois era um artigo impresso, antigo e existiam poucas cópias. Situação que implica em significativo prejuízo, porque supostamente foi tal trabalho que permitiu detalhar melhor as atividades em cada camada e foi o primeiro a atribuir porcentagens de eficiência para cada grupo de atividades.

Até o momento, não há nenhuma fonte com credibilidade sobre quais experiências teriam sido conduzidas nesse estudo, portanto seu método não pode ser reproduzido para confirmar ou descartar de vez os resultados.
O estudo original se perdeu no tempo.

Contudo, a figura proposta alcançou popularidade na sua época e foi difundida por professores anglófonos. A pirâmide passou a ser considerada recurso de cartilha pedagógica e, portanto, não recebeu grandes questionamentos.

No passado recente, a Pirâmide do Aprendizado (ou Aprendizagem) passou a ser atribuída ao Psiquiatra William Glasser, formado na prestigiosa UCLA – University of California Los Angeles. Ele realmente teve extensa produção científica, incluindo obras sobre melhora educacional e ensino. Entretanto, ele nunca trabalhou diretamente investigando a validade da pirâmide.

Evidências

Há artigos científicos tanto reafirmando como refutando a pirâmide no processo de aprendizagem. Notavelmente, os artigos com maior quantidade de citações parecem adotar a postura por refutar a pirâmide como dado exato, contudo fazendo ressalvas sobre a utilidade de pontos específicos. Em síntese:

MITO: O maior erro é atribuir porcentagens de eficiência “do quanto se aprende” ao executar cada conjunto de atividades; pois o artigo original do NTL foi perdido e não é possível testar o método que teria gerado esses números, também porque existem versões da pirâmide que atribuem porcentagens diferentes para o mesmo conjunto. Essa proposta desempenha fim ilustrativo, não deve ser divulgada como dado exato.

Tais porcentagens podem até ser omitidas da figura. Além disso, conforme enfatizado pelo criador original Edgar Dale, não há regra sobre quais atividades e quais formas de estudo entram em qual camada, essa divisão rígida não existe.

VERDADE: A ordem geral das camadas é válida. Métodos ativos de estudo são comprovadamente melhores que consumo passivo de conteúdo. Os métodos ativos são aqueles situados em direção à base da pirâmide, que, conforme Dale, eram “concretos, baseados em experiência e participação”. Por exemplo, apenas ler não gera boa memória do conteúdo estudado, mesmo que você destaque com marca-texto ou sublinhe as ideias importantes do material.

Busque sempre ser ativo no processo de aprendizado; combine a leitura com exercícios/questões e faça anotações sintetizando os conceitos vistos (não vale só transcrever o trecho do livro, é necessário desenvolver raciocínio e pensar sobre o conteúdo).

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Abraço e até a próxima,
Guilherme Socoowski das Neves