Cardiologia

Pulso de Corrigan: O quê? Como? Quando? | Colunistas

Pulso de Corrigan: O quê? Como? Quando? | Colunistas

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João Victor Weber

6 minhá 44 dias

Hoje, falarei um pouco do pulso de Corrigan, também chamado de pulso em martelo d’água ou pulso magno célere, característico da insuficiência aórtica.

A palpação dos pulsos arteriais é atributo do exame físico do aparelho cardiovascular de qualquer bom examinador. Ao realizar a palpação dos pulsos, devemos avaliar, resumidamente: inspeção, palpação (frequência, duração, amplitude, simetria), ausculta e relação com o ritmo cardíaco. Podem ser obtidas informações relevantes do quadro clínico do paciente, que contribuem para a avaliação da estabilidade clínica ou mesmo diagnóstico de emergências médicas.

Alterações no pulso podem ser percebidas em diversas cardiopatias e valvopatias, como o pulso bisferiens, pulso paradoxal, parvus et tardus, dicrótico, alternas e magno célere (ou pulso de Corrigan, que será abordado hoje).

Insuficiência aórtica

A insuficiência aórtica é uma das valvopatias mais comuns na prática clínica e é caracterizada por defeito durante o fechamento valvar no período diastólico, manifestando-se com sopro diastólico aspirativo, em decrescendo. Pode ser decorrente de doença valvar (sendo uma das principais causas a doença reumática) ou de doenças na aorta ascendente (por exemplo, a dissecção aórtica).

O quadro clínico pode ser assintomático, mas o exame físico pode evidenciar, além do sopro, pressão arterial divergente, sinais de hipertrofia do ventrículo esquerdo (como desvio do ictus), pulso de Corrigan e aumento da pressão de pulso (que se reflete em diversas regiões do corpo, gerando achados com diversos epônimos, como o sinal de Traube, sinal de Duroziez, sinal de Müller, sinal de Minervini, sinal de Quincke, etc.). Nos estágios mais graves e tardios, podem haver sintomas de insuficiência cardíaca e congestão, como dispneia e angina.

A insuficiência aórtica não se esgota por aí, mas fica de assunto para outro dia. Por ora, vamos nos ater ao básico para entender o contexto do quadro.

Pulso de Corrigan

Como dito anteriormente, o pulso de Corrigan também é chamado de pulso em martelo d’água ou pulso magno célere.

É um pulso rápido (tanto em ascensão quanto em descenso) e com pico forte, característico da insuficiência aórtica, sendo mais facilmente palpável nas artérias radial ou braquial (podendo ser intensificado pela elevação do membro), ou mesmo carótida.

Figura 1: Pulso em martelo d’água
Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK526118/?report=classic

Gênese

O pico de pulso se relaciona com a sístole cardíaca, e seu descenso se relaciona com a diástole, como todo pulso normal. Acontece que, na insuficiência aórtica, durante a diástole, há defeito no fechamento da valva aórtica, levando à regurgitação de sangue para o ventrículo esquerdo (se manifestando no pulso como uma queda rápida e profunda da onda de pulso), que se soma ao volume proveniente do esvaziamento atrial, aumentando o volume diastólico final e esvaziamento do sistema arterial. Com isso, na sístole seguinte, há uma ejeção de grande volume sistólico na circulação arterial “vazia”, levando a uma ascensão rápida e intensa do pulso. Esse fenômeno pode também ser facilmente visualizado na avaliação da pressão arterial, que se caracteriza por aumento da pressão sistólica, queda da pressão diastólica e aumento na pressão de pulso, a chamada pressão arterial divergente.

Para além da insuficiência aórtica, pode ser encontrado em estados fisiológicos e/ou hiperdinâmicos, devido a queda na resistência vascular sistêmica associado a aumento no débito cardíaco.

Curiosidades

A denominação pulso de Corrigan se refere ao primeiro médico que observou o pulso: Dr. Dominic John Corrigan. Ele descreveu o achado ao visualizar distensão e colapso súbitos do pulso carotídeo em pacientes com insuficiência aórtica.

Mais tarde, deu-se uma nova denominação, a de pulso em martelo d’água referente à comparação feita por Dr. Thomas Watson com um brinquedo da era vitoriana. Na época, o martelo d’água era um brinquedo em que se enchia um tubo até a metade de seu comprimento com fluido, sendo o restante do comprimento submetido a vácuo. A inversão do tubo gerava um som com impacto semelhante ao som de uma batida de martelo, com uma sensação tátil de pulso semelhante ao achado do pulso de Corrigan, dando origem à denominação do achado no exame físico de pulso em martelo d’água.

Conclusão

O exame do pulso é um atributo essencial do bom exame físico. A avaliação da frequência, duração, amplitude, simetria, ausculta e relação com o ritmo cardíaco são essenciais e podem fornecer informações importantes para a investigação clínica e elaboração de hipóteses diagnósticas.

O pulso de Corrigan é um dos inúmeros achados possíveis dentro do rico quadro da insuficiência aórtica, sendo caracterizado por aumento da amplitude de pulso, percebido como um pulso forte e rápido.

É importante ressaltar que o achado isolado do pulso não é diagnóstico de insuficiência aórtica. Pode também ser encontrado em situações fisiológicas (exercícios físicos, febre, gestação), estados hiperdinâmicos (tireotoxicose, fístula arteriovenosa, insuficiência cardíaca de alto débito, etc.) e outras doenças cardíacas (ruptura de seio de Valsalva, ducto arterioso patente, etc.). Sendo assim, deve ser associado a outros dados da anamnese e do exame físico, a fim de contribuir para a investigação clínica e elaboração de hipóteses diagnósticas adequadas.

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Referências

BENSEÑOR IM, ATTA JA, MARTINS MA. Semiologia Clínica. Sarvier, 1ª edição, 2002.

PABBA K, SAFADI AO, BOUDI FB. Water Hammer Pulse. [Updated 2020 Sep 5]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2020 Jan-. (disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK526118/?report=classic).

Uptodate: examination of arterial pulse (disponível em: https://www.uptodate.com/contents/examination-of-the-arterial-pulse?search=corrigan%20pulse&source=search_result&selectedTitle=1~10&usage_type=default&display_rank=1#H637614153).

Uptodate: aortic regurgitation in adults (disponível em: https://www.uptodate.com/contents/acute-aortic-regurgitation-in-adults?search=aortic%20insufficiency&source=search_result&selectedTitle=2~150&usage_type=default&display_rank=2#H2).

Uptodate: clinical manifestations and diagnosis of chronic aortic regurgitation in adults (disponível em: https://www.uptodate.com/contents/acute-aortic-regurgitation-in-adults?search=aortic%20insufficiency&source=search_result&selectedTitle=2~150&usage_type=default&display_rank=2#H2).

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