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Quais os impactos da pandemia na residência médica?

Quais os impactos da pandemia na residência médica?

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Sanar

5 min há 87 dias

A jornada de residência médica é cercada de expectativas e é um momento fundamental na vida de médicos recém-formados. Mas com a Covid-19, os médicos residentes tiveram sua rotina de formação modificada, direta ou indiretamente. Muitos deles passaram a fazer parte da linha de frente de combate à doença. Essas mudanças sensíveis e imprevistas geraram uma série de impactos da pandemia na residência médica.

As mudanças na residência motivaram o início de vários estudos. Entre eles, o de Ricardo Massuda Oyama, que estuda a Saúde Coletiva pela Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP. O pesquisador visa entender como os residentes estão absorvendo as experiências de trabalho durante a crise sanitária atual. “Narrativas dos Impactos da Pandemia de Covid-19 na Vida de Residentes de Saúde” é o nome do trabalho do pesquisador, que se debruçou em alterações da pandemia na residência médica.

A pesquisa encontra-se na fase de análise prévia dos depoimentos coletados. E mesmo em fase de construção, já chama atenção para o grau de frustração dos médicos residentes nos resultados parciais. Além disso, o estudo explana a insegurança e os altos níveis de estresse na rotina desses profissionais.

Impactos da Pandemia de Covid-19 na Vida dos Médicos Residentes

Oyama atribui a frustração dos residentes ao fator “ineditismo” trazido pela pandemia. As expectativas que eles tinham para com o programa escolhido foram “quebradas”.

Os residentes foram pegos desprevenidos. Não tiveram tempo para se preparar emocionalmente para o que estavam prestes a enfrentar em sua formação. Devido ao medo gerado na atuação da linha de frente no combate à pandemia“, explica o pesquisador.

Os médicos residentes precisam lidar com as condições adversas impostas pela pandemia. Entre elas:

  • Aumento no número de mortes.
  • Falta de equipamentos e de insumos.
  • Ausência de estrutura adequada.
  • Fluxo intenso de internações.
  • Longas jornadas de trabalho.

Essas dificuldades são apontadas como causadoras da insegurança e do estresse dos profissionais de saúde brasileiros. A Fiocruz detalhou todas essas dificuldades na pesquisa “Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19“.

E com base no estudo, as alterações mais frequentes na rotina dos profissionais diante dessas dificuldades foram:

  • Insônia (15,8%);
  • irritabilidade (13,6%)
  • estresse (11,7%)
  • dificuldade de concentração (9,2%)
  • perda de satisfação na carreira (9,1%)
  • pessimismo em relação ao futuro (8,3%)
  • falta de apetite ou alteração do peso (8,1%)
  • medo de se infectar com o novo Coronavírus (43,2%), principalmente por escassez ou inadequação de equipamentos de proteção individual (EPIs)

Ainda segundo o estudo, 14% da força de trabalho que atua na linha de frente está no limite da exaustão. E os fatores que contribuem para o estresse vão além do que acontece no trabalho. Inclui-se a necessidade de se privar do convívio social e familiar e a crescente onda de fake news.

Para o pesquisador, o alto número de mortes por Covid-19 também é um agravante para o estresse e a insegurança. Afinal, os profissionais de saúde também são vítimas da doença. Segundo dados da Arpen-Brasil, morreram no país 1.411 profissionais de saúde por Covid. Esses dados são referentes ao período de março de 2020 à fevereiro de 2021.

Efeitos da pandemia na formação médica

Nos primeiros meses da pandemia, para entender como a pandemia transformou a atuação dos médicos residentes, a Sanar conversou com a Profa. Vera Koch, responsável pela Residência Médica na FMUSP, e com Dr. Vinicius Miolla, presidente da Associação Nacional dos Médicos Residentes e R2 de Geriatria no Hospital São Lucas da PUCRS.

Para eles, a relação entre COVID-19 e residência médica foi intensa e atingiu as mais diversas especialidades, de maneiras variadas.

Algumas áreas foram prejudicadas pela suspensão de cirurgias e atendimentos. Outras precisaram se dedicar exclusivamente para pacientes com COVID-19.

“Caiu todo mundo de paraquedas, no meio de uma pandemia, com pacientes graves, de uma forma que ninguém esperava. E assim, muitos residentes tiveram dificuldade em fazer aquilo que realmente gostariam quando se inscreveram no programa de residência médica”, pontuou Dr. Vinicius Miolla.

Apesar dos desafios, em seu estudo, Ricardo Massuda Oyama reforça a importância de ver o momento como uma oportunidade. Uma chance de potencializar o crescimento pessoal e profissional dos médicos residentes. E também de fortalecer o SUS.

“Acredito que a situação atual de emergência em saúde pública vai contribuir e muito na formação dos profissionais de saúde. Uma vez que os Programas de Residência surgiram com o propósito de formar profissionais para o SUS. Preparados para atuar nas mais diversas situações, proporcionando um cuidado integral, universal e equânime. A pandemia está ensinando a todos nós que o SUS é essencial e precisa ser valorizado”.

Vale ressaltar que muitas organização estão se empenhado para apoiar os profissionais impactados pela pandemia. Ações de oferecimento de atendimento psicológico gratuito, como o projeto Bodynamic Brasil, estão ganhando destaque.

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