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Qual a real eficiência da vacina perante as novas mutações do COVID? | Colunistas

Qual a real eficiência da vacina perante as novas mutações do COVID? | Colunistas

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Andressa Reis

9 min há 116 dias

A cada dia que passa chegam mais informações sobre novas variantes do vírus mais conhecido no momento, o SARS-COV-19, apelidado por nós como COVID-19 e, com isso, se levanta o questionamento da real utilidade das vacinas que começaram a ser aplicadas, nesses casos específicos. Tudo isso acaba corroborando para uma visão equivocada de que algumas vacinas já não são mais tão eficazes e por isso se tornam dispensáveis frente ao panorama atual. No entanto, é importante lembrar que a única forma de evitar que novas mutações ocorram é justamente através de uma imunização efetiva, só assim é possível frear a disseminação do vírus e fazer com que este diminua gradativamente. A partir desses questionamentos, vários estudos já estão sendo feitos correlacionando as principais variantes encontradas com os diferentes tipos de vacina que estão sendo aplicadas em grandes escalas ao redor do mundo.

As variantes mais preocupantes registradas no globo

Ao passo que essa nova linhagem de vírus está sendo gerada e se espalha ao redor do globo, existem novas vacinas sendo produzidas e aplicadas em massa. Os noticiários e revistas de pesquisas estampam diariamente novas cepas e linhagens que sofreram diferentes mutações em diversos países do mundo. No início de outubro de 2020 os cientistas descobriram a cepa B.1.351 na África do Sul, mais especificamente na Baía de Nelson Mandela, com um alto grau de mutação e transmissão, visto que se tornou predominante no leste africano em poucas semanas. Mas isso não parou por aí, a flexibilização que muitos países realizaram ao final da primeira onda fez com que o vírus, antes estável devido ao isolamento obrigatório, pudesse se multiplicar e sofrer mutações cada vez mais preocupantes. Quando voltamos o olhar para o nosso país, temos que a variante P.1, encontrada pela primeira vez no estado do Amazonas, que também assustou o mundo, devido sua rápida disseminação e capacidade de mutação.

Nesse cenário, é possível perceber que as cepas se tornaram cada vez mais letais e estão causando tremendos estragos em grandes países como a Índia, que identificou no último mês uma nova cepa, B.1.617, que foi considerada a variante mais violenta registrada até a atualidade. E agora o país está com praticamente todas as UTIs lotadas e realizando cremação de corpos nas próprias ruas das cidades. Outra variante de grande preocupação para as instituições de saúde é a B 1.1.7, detectada no Reino Unido e que em pouco tempo foi capaz de agravar a pandemia no país. O que se notou nesta última linhagem que assustou os cientistas, no entanto, foi que a B.1.1.7 aumentou a taxa de reprodução (R) do vírus em 1,35 vez, o que significa que pode se espalhar pelo organismo de forma mais rápida e, por isso, ser também mais transmissível.

Imagem que retrata profissionais da saúde carregando corpos para cremação na capital indiana, Nova Délhi, Fonte : PRAKASH SINGH/AFP

Quais das vacinas que foram testadas em populações onde as quatro variantes principais de preocupação (B.1.1.7, B.1.351, P.1 e B 1.617) estão sendo transmitidas é realmente eficaz?

A resposta mais correta para esse questionamento seria depende. Pode soar vago, mas é importante levar em consideração que existem vários tipos de cepas e diferentes tipos de vacina, que por sua vez, possuem distintos mecanismos de produção. Sob essa perspectiva, por exemplo, podemos analisar que pesquisadores da África do Sul constataram em seus estudos que a vacina Astrazeneca não combate de maneira adequada a mutação B.1.351, a nova variante que surgiu lá. No entanto, embora os relatórios sugerissem que a vacina foi ineficaz na prevenção de uma doença leve a moderada nessa população, nenhum dado tem sido disponibilizado ao público e o estudo em questão apenas foi analisado e publicado pelo Financial Times. Não obstante, apesar dessa pesquisa não trazer perspectivas positivas para a vacina de Oxford, temos estudos que comprovam que a vacina Novavax tem uma eficácia de 86% contra a variante do Reino Unido e 60% contra a variante da África do Sul.

Além disso, outras pesquisas mostram que a vacina de Pfizer foi relatada como pouco eficaz contra B.1.351 (África do Sul) e  B.1.1.7 ( Reino Unido) com base em uma pequena análise de infecções em Israel, dessa forma, uma infecção de ruptura da vacina pode ser mais frequente em ambos os COVs emergentes no país. A eficácia da vacina CoronaVac no Brasil, onde 75% das infecções foram com a variante P.1 (Brasil) foi estimada em cerca de 50% contra uma infecção sintomática, isso após a administração de pelo menos uma dose de vacina. E já quando voltamos nosso olhar para a B 1.617 (Índia), temos que essa variante é 6,8 vezes mais resistente à neutralização por soros de indivíduos com COVID-19 vacinados com Moderna e Pfizer. A boa notícia é que há um estudo sob investigação mostrando uma boa neutralização dessa mutação no organismo de pessoas vacinadas com a BBV152 (Covaxin), uma vacina contra a COVID-19 produzida na Índia pelo laboratório Bharat Biotech , a qual a Anvisa aprovou no último dia 13 de maio a realização dos primeiros teste em humanos no Brasil.

Foto: Alexandre Silva/FotoArena/Estadão Conteúdo

O que devemos fazer em relação a isso?

Em resumo, ainda precisamos de mais informações sobre a proteção contra infecção do SARS-CoV-2 proporcionada pela geração atual de vacinas frente a todas as variantes virais existentes e potencialmente emergentes do cenário atual. Dessa forma, é possível perceber que alguns estudos são otimistas em relação a ação da vacina sobre essas novas variações. É fato que os pesquisadores não podem prever quais serão as características das próximas mutações do vírus para que as futuras vacinas desenvolvidas contemplem esse tipo de variante. Porém, apesar disso, é necessário que todos tomem a vacina que está sendo ofertada, quando chegar ao seu público alvo, para que a vacinação em massa permita, justamente, que não haja novas variações do COVID-19. Só assim, será possível que voltemos à nossa vida normal de antes, ou ao menos, ao que será o nosso “novo” normal.

Autora: Andressa Reis

Instagram: @andressabrl

Foto de capa: https://drive.google.com/file/d/1jTdcqtQSOnYS1JQdlkGwsYfd-SnorHvc/view?usp=sharing

Referências

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