Coronavírus

Qual o papel do Farmacêutico na pandemia do novo Coronavírus?

Qual o papel do Farmacêutico na pandemia do novo Coronavírus?

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Sanar Saúde

8 min há 439 dias

Por Maria Clara Rodrigues – Acadêmica de Farmácia (UFBA)

No meio do caminho tinha um Novo Coronavírus

SARS-CoV-2, COVID-19, álcool em gel, quarentena, isolamento, distanciamento social. Não eram essas as palavras-chave que esperávamos inserir no contexto da saúde em 2020 que, por sinal, está gerando um impacto inominável nas reflexões pessoais e sociais, economia, política e modos de vida.

A reinvenção dos profissionais e as novas estratégias para manter seus serviços também é notável, mas, em se tratando da saúde, não se espera mudança de um ponto: o comprometimento.

No Brasil, ganhando força desde março, é essa realidade que tem sido encontrada, principalmente nas unidades de saúde dos níveis secundário e terciário, deixando aqui o reconhecimento para esses profissionais incríveis.

Contudo, as outras demandas dos serviços de saúde não se tornaram estáticas. Existe a preocupação de uma sobrecarga futura em relação a outras formas de adoecimento, principalmente as crônicas.

Essa inquietação é justificada pela necessidade de distanciamento social e em função da redução da procura por outras especialidades, realização de check-ups ou exames de rotina, portanto, gerando retardo de diagnóstico

E o farmacêutico nessa história?

Agora, esse dado é para você, farmacêutico ou estudante de Farmácia: de acordo com a Resolução do CFF nº 572, de 25 de abril de 2013, o farmacêutico possui 131 atividades legalmente reconhecidas para seu desempenho; após esse período, mais quatro atividades foram inseridas.

Pensando nessas atividades, qual o real impacto que a COVID-19 tem provocado e qual a sua contribuição nesse processo de pandemia? Já eram vários os desafios a serem enfrentados, mas no meio do caminho tinha um Novo Coronavírus. Por essa nem Drummond e nem nós esperávamos.

Se informe, estude e eduque!

Nesse cenário de inseguranças, novidades por minuto e recomendações sendo modificadas a todo momento, a confiabilidade das informações é essencial; também é nossa função (e uma das minhas importantes) educar o paciente e a sociedade de forma geral.

Então, atente-se a portais como Fiocruz, Ministério da Saúde e, claro, a Sanar que estão disponibilizando informações para auxiliar profissionais nas tomadas de decisão e otimizar essa função educativa.

Diversos estudos são publicados diariamente, se encaixando na atuação profissional do farmacêutico, mas é fundamental filtrar se aquela informação é segura e se responde à questão que você precisa responder.

Do hospital à Farmácia Comunitária

O farmacêutico clínico hospitalar tanto quanto aquele que atua nas farmácias comunitárias estão em contato com pacientes com diversas comorbidades que se questionam a todo instante sobre a influência dos medicamentos no processo patológico da COVID-19. Mas se a dúvida não vier do paciente, atenção: é necessário agir com criticidade e tentar ao máximo estar informado sobre os estudos com evidências relevantes.

Alguma das dúvidas levantadas, por exemplo, se refere à interferência dos AINEs (anti-inflamatórios não esteroidais) na replicação viral do SARS-CoV-2. No estudo realizado por Haibo et al (2020), foi observado que os receptores da ECA (enzima conversora de angiotensina) e sua hiperexpressão mediada ao uso de ibuprofeno podem também estar ligados à redução de proteção pulmonar.

Outra classe também está movimentando mais estudos: corticosteróides. Segundo Mehta et al (2020), “o uso de corticosteróides em pacientes com COVID-19 está associado a atraso na depuração viral, maior risco de infecção secundária e maior risco de mortalidade”. Dessa forma, sua utilização deve ser evitável nesse período, sendo recomendado apenas quando não houver outra opção terapêutica disponível, como no choque séptico.

As intervenções ao Novo Coronavírus também devem ser alvo de conhecimento do farmacêutico. Hidroxicloroquina? Nitazoxanida? Ivermectina? Medicamento para azia? Já foram tantas as opções sugeridas, mas ainda não há resultados conclusivos e mais uma vez a função educativa deve vir à tona: é essencial orientar pacientes, principalmente os que se mostram mais ansiosos, em relação aos efeitos adversos que podem ser resultantes da automedicação irresponsável.

Nesse aspecto, também há farmacêuticos envolvidos nas pesquisas dos estudos de eficácia. Ainda assim, as farmácias comunitárias são o ponto de aquisição de medicamentos e o controle das vendas deve estar ainda mais monitorado. Infelizmente as fake news são uma realidade e, antes mesmo de tomar dimensão, elas podem ser motivação da compra desenfreada de medicamentos. Quem lembra da Lei n° 13.021/2014? A farmácia é um estabelecimento de saúde!  

Lembra do ciclo da Assistência Farmacêutica? Agora pense na programação. Um dos medicamentos que teve impacto nesse processo foi o oseltamivir; a sua demanda, que sofre influência da sazonalidade, é mais aguardada a partir de maio, com o aumento das síndromes gripais. 

Atualmente, também é recomendado para casos leves da COVID-19.  O controle de estoques nas farmácias (também as hospitalares e da atenção primária) é outra atividade farmacêutica que está tendo repercussão. As formas de aquisição dos medicamentos e materiais hospitalares estão sendo revistas para atender as demandas de seus públicos. Essa análise é ainda mais precisa quando se diferencia saúde no setor público e privado no país.

E no laboratório também

Para farmacêuticos que atuam na área de Análises Clínicas, também se tornam perceptíveis as modificações nos fluxos e aquisição de materiais e reagentes. A adequação dos laboratórios à realização de novos testes também se destacou: RT-PCR, a transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase, passou a integrar o elenco de exames disponíveis.

Formas agudas de adoecimento, como infecções bacterianas e infarto agudo do miocárdio, além de monitoramento laboratorial de pacientes com doenças crônicas também continuam acontecendo.

Sendo assim, antibiograma, proteína C-reativa, creatinofosfoquinase (CPK), dosagem de troponinas, PSA (antígeno prostático específico), dentre outros, também estão sendo solicitados simultaneamente! Isso nos leva a pensar em outro problema: como atender a essas requisições, com a dispensa de parte dos colaboradores aliada a inserção de novas tecnologias?

Se empodere, você é farmacêutico, você é farmacêutica!

Não apenas esse setor está lidando com a redução dos postos de trabalho. Embora os serviços na saúde sejam prioritários, a recomendação do distanciamento social é prevista para evitar a exposição dos profissionais, podendo restringir ainda mais as escalas em caso de contaminação da sua maioria.

Agora feche os olhos por 10 segundos e pense: qual a comentário que aquele primo(a) ou parente, na noite de Natal, gosta de fazer por você ser farmacêutica ou farmacêutico? Pensou no crédito de celular ou no “vendedor de medicamento”?

Pois é, você pode trabalhar com pesquisa, manipulação, microbiologia, pode estar estudando para passar em um concurso das Forças Armadas, da Vigilância Sanitária ou de alguma prefeitura, mas certos comentários continuarão a existir.

O que não podemos é deixar que eles reduzam a relevância da atuação e inserção profissional pela qual tanto lutamos, e ainda há muito a ser feito. O momento atual é de transformação e também um espaço para que nossa profissão seja vista de outra forma; na verdade, como de fato é.

Confira o vídeo:

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