Cirurgia do trauma

Recuperação do ex-BBB Rodrigo: o que é esperado pelos médicos?

Recuperação do ex-BBB Rodrigo: o que é esperado pelos médicos?

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Eu, Dr. Ricardo Zantieff, cirurgião geral, reuni tudo que você precisa saber sobre a recuperação do ex-BBB Rodrigo Mussi. Confira os desdobramentos do caso pelo viés da área me´dica!

Após sofrer um acidente grave de carro, o ex-BBB Rodrigo Mussi sofreu traumatismo cranioencefálico (TCE) e segue internado no hospitalizado no Hospital das Clínicas de São Paulo. O empresário, de 36 anos, que já passou por dois procedimentos cirúrgicos, segue na UTI em ventilação mecânica. 

Constantemente, os familiares e a equipe de comunicação de Rodrigo compartilham resumos dos boletins médicos em suas redes sociais. É comum lermos que ele tem reagido bem, “de forma milagrosa”, mas o que é isso quando trazemos para a realidade da área médica? 

*Atualização: Em coletiva de imprensa, o irmão de Rodrigo Mussi, Diogo Mussi, contou que o ex-BBB foi extubado neste domingo (17) e está falando e andando. Segundo o familiar, Rodrigo está se alimentando com comida pastosa e líquida e se continuar evoluindo. Nesta quarta-feira (20), o ex-BBB deixou a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas seguirá internado para acompanhamento médico.

Por quais procedimentos cirúrgicos o ex-BBB Rodrigo Mucci passou?

De acordo com informações passadas por familiares em sua rede social, a recuperação do ex-bbb tem sido positiva. É divulgado que rodrigo está evoluindo bem das duas cirurgias a que foi submetido: a da perna e a de neurocirurgia.

Cirurgia da perna

Na cirurgia da perna, Rodrigo colocou um fixador externo (conhecido como gaiola). Esses fixadores são utilizados em acidentes com fratura exposta, sendo um tratamento de urgência, nas primeiras 12h do trauma, para evitar que o paciente evolua com infecções locais, osteomielite e até o comprometimento total do membro, o que ocasionaria uma amputação. 

No dia 07/04, Rodrigo fez uma nova cirurgia na perna. Nessa segunda abordagem, foi tirado o fixador externo (gaiola) e inserido uma haste interna, para que o resultado funcional seja melhor.

Observação: em casos de fraturas fechadas, por não serem cirurgias urgentes, no geral, o paciente poderá ser estabilizado para depois realizar a operação. 

Neurocirurgia

Sobre a neurocirurgia, foi noticiado que o ex-bbb já cursa com retomada de consciência e retomada dos sentidos, demonstrando uma melhora neurológica gradual. Além disso, a sedação também está sendo diminuída. 

No entanto, vale lembrar que a melhora não está sendo tão rápida, pois ele já segue no décimo quinto dia na UTI, o que mostra que a lesão dele foi bastante significativa, um provável TCE grave.

O que preciso saber sobre neurocirurgia em caso de TCE? 

Em relação a neurocirurgia, alguns pontos são importantes. A cirurgia só ocorre quando há um edema que causa um aumento da pressão intracraniana. O efeito de massa é responsável por ocupar espaço e aumentar a pressão intracraniana. No entanto, a drenagem do hematoma para diminuição da pressão intracraniana não é feita em todos os casos de TCE. 

Para realizar esse procedimento é necessário entender em que local está ocorrendo esse sangramento. Não foi noticiado qual a localização da lesão específica de TCE de Rodrigo, mas essas lesões intracranianas no trauma crânio encefálico são divididas em focais ou difusas, embora as duas formas possam aparecer em conjunto.

Fonte: https://radiologyassistant.nl/neuroradiology/hemorrhage/traumatic-intracranial-haemorrhage#traumatic-hemorrhage-epidural-hematoma

Tipos de lesões

Focais

As lesões focais podem ser divididas em:

  • Hematomas epidurais (extradurais): são localizadas entre a dura-máter e o crânio e apresentam-se em forma biconvexa à TC. A causa mais comum desse tipo de hematoma é a ruptura da artéria meníngea média. Frequentemente cursam com intervalo lúcido (perda da consciência, seguida de melhora e posteriormente piora neurológica súbita).
  • Hematomas subdurais: é mais comum que o epidural (em cerca de 30% dos pacientes com TCE grave) e tem localização geralmente frontotemporopariental. Na TC se apresenta com aspecto côncavo-convexo, acompanhando a curvatura da calota craniana. Esse hematoma não cruza a linha média, mas pode estar localizado próximo às dobras durais, como a foice ou o tentório.
  • Contusões e hematomas intracerebrais: normalmente nos lobos frontal e temporal, embora possa acontecer em qualquer parte do cérebro.

    Em aproximadamente 20% dos casos, dentro de horas a dias, as contusões se expandem e evoluem para um hematoma intracraniano ou para uma contusão coalescente com efeito de massa suficiente para exigir uma evacuação cirúrgica. O quadro clínico se assemelha ao do AVE isquêmico, com déficit neurológico focal.

Difusas

As lesões difusas podem ser divididas em:

  • Concussão: o indivíduo pode apresentar breve perda de consciência (<6 horas) e amnésia, retrógrada ou anterógrada.
  • Lesão axonal difusa (LAD): quadro grave, sendo causada por lesão dos prolongamentos axonais dos neurônios. O mecanismo do trauma parece estar relacionado à aceleração rotacional da cabeça.

O maior problema do sangramento intracraniano é o aumento da pressão intracraniana. Por isso, é necessário fazer uma drenagem. Geralmente, um catéter de drenagem externa (DVE) é deixado no cérebro para fazer uma monitoração da pressão intracraniana e para ajudar na drenagem.

Recuperação do ex-BBB: como é o tratamento de Rodrigo na UTI?

O tratamento é multiprofissional e complexo. Na UTI, todas as funções fisiológicas são coordenadas pelos profissionais, que buscam garantir uma melhor homeostase desse paciente. 

No geral, pacientes da UTI estão críticos, com uma resposta inflamatória muito grande. Por isso, os profissionais fazem uma terapia de suporte a esse paciente. 

No caso de Rodrigo, o suporte está sendo respiratório e neurológico. No suporte respiratório há uma ventilação mecânica, por meio da intubação, ele está entubado há 14 dias. 

Há pesquisas que mostram que a intubação por mais de 7 dias pode ser prejudicial, causando lesões deletérias, como na traqueia, que futuramente poderá evoluir para estenose de traqueia. 

No caso de pacientes entubados há mais de 15 dias, é necessário realizar o procedimento de traqueostomia. O procedimento consiste em um procedimento cirúrgico em que o médico realiza uma incisão no pescoço.

O objetivo é criar um orifício na traqueia para inserir uma cânula, permitindo uma via alternativa de ventilação prolongada para o paciente. Por isso, o ex-bbb, caso não seja extubado, deverá passar por esse procedimento nos próximos dias.

Na maioria dos casos, a traqueostomia é uma alternativa para contornar a obstrução das vias aéreas superiores ou outras condições que impossibilitem a respiração por vias normais.

O que é o  neurointensivismo feito pelos profissionais que cuidam de Rodrigo Mussi?

O neurointensivismo é um pacote de medidas que dão um suporte ao cérebro para que ele fique com o metabolismo mais baixo e consiga se recuperar. No geral, o paciente é induzido ao coma, para que haja um suporte maior e se evite um aumento da pressão intracraniana.

Durante esses cuidados, para avaliar o grau de sedação e agitação de um paciente que necessite de cuidados críticos ou esteja sob agitação psicomotora,  é aplicada a escala de agitação e sedação de Richmond (ou “RASS”, do inglês “Richmond Agitation-Sedation Scale”):

Segundo familiares, Rodrigo se apresenta agitado em alguns momentos. É normal que um paciente da UTI tenha flutuações no nível de consciência, pelo estado inflamatório e pelo trauma que sofreu. Esses atos são apenas uma resposta ao estresse que o corpo está passando. 

Na escala, o ideal é que o paciente se mantenha no zero, alerta e calmo. 

Recuperação do ex-BBB: Rodrigo voltará a ter uma vida normal?

O prognóstico neurológico de Rodrigo depende de qual foi o grau da lesão. A recuperação envolverá bastante reabilitação e cuidado multiprofissional. Por ser um paciente jovem e saudável, há possibilidade de retomada a uma vida normal.

Nesse caso, “normal” não significa dizer que o paciente viverá exatamente como vivia antes do acidente. Mas que ele terá qualidade de vida, mesmo que haja pequenas sequelas. 

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*Dr. Ricardo Zantieff é cirurgião geral, professor de Urgência e Emergência da UFBA e Coordenador Pedagógico SanarFlix.

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