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Remdesivir para Covid-19: seria essa a solução? (Atualização)

Remdesivir para Covid-19: seria essa a solução? (Atualização)

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Sanar Medicina

8 min há 472 dias

Os EUA compraram quase todo estoque mundial do Remdesivir. A Droga é a primeira aprovada por autoridades de saúde americanas, mas sua eficácia ainda é questionada.

Um comunicado emitido pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, revelou um acordo para a compra de 500 mil ciclos de tratamentos da droga remdesivir para o combate a Covid-19. A negociação feita com o laboratório Gilead irá garantir que praticamente toda produção permaneça no país pelos próximos três meses. 

A nota divulgada pelo governo norte-americano ainda classificou o acordo como “incrível” e revelou o total de ciclos de tratamento adquiridos por cada mês. Serão 94.200 em julho, 174.900 em agosto e 232.800 em setembro. Isso representará 100% da produção do remdesivir da Gilead em julho, e 90% nos dois meses restantes. 

Segundo Alex Azar, secretário de saúde dos EUA, “na medida do possível, queremos garantir que qualquer paciente americano que precise de remdesivir possa obtê-lo. A gestão Trump está fazendo todo o possível para aprender mais sobre tratamentos para a Covid-19 que salvam vidas e garantir ao povo americano o acesso a essas opções”.

Início dos estudos do Remdesivir em humanos 

O estudo denominado Adaptive COVID-19 Treatment Trial (ACTT) é um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, desenhado para avaliar segurança e eficácia do tratamento de pacientes hospitalizados por COVID-19.

O estudo está sendo liderado por pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Nebraska, na cidade de Omaha, nos Estados Unidos. O patrocínio vem da National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), parte do National Institutes of Health (NIH).

Esta pesquisa clínica teve início no mês de fevereiro, e é o primeiro ensaio clínico conduzido para avaliar tratamento experimental na COVID-19 nos Estados Unidos.

Os primeiros resultados do estudo com o Remdesivir

Se você já leu nosso post sobre o assunto, ou se já está por dentro desse primeiro estudo publicado com os resultados preliminares, pode pular para a próxima sessão.

Em meados de Maio, os dados preliminares foram logo tornados públicos pelo NIH pela relevância dos resultados. A conclusão: o antiviral Remdesivir é superior ao tratamento padronizado da COVID-19. Vejamos de forma mais detalhada:

O número de participantes foi de 1063 pacientes, distribuídos em 10 países. Teve duração de 58 dias. Os pacientes foram divididos entre aqueles que receberam o tratamento padrão da instituição versus aqueles que fizeram uso do Remdesivir.

O estudo foi finalizado no dia 19 de Abril. Os resultados preliminares indicaram que pacientes que receberam Remdesivir tiveram tempo de recuperação 31% mais rápido do que o grupo placebo (p<0.001).

Em termos de dias, o tempo médio de recuperação foi de 11 dias para pacientes tratados com Remdesivir. Em contraste com aqueles que receberam placebo, este tempo foi de 15 dias.

Igualmente, os resultados também sugeriram benefício na sobrevivência, com taxa de mortalidade de 8% no grupo recebendo Remdesivir versus 11,6% do grupo placebo. Todavia essa diferença não foi estatisticamente significante (p=0.059).

Após o processo de revisão por pares, foi publicado no New England Journal of Medicine.

Etapa seguinte do estudo: Remdesivir associado

A etapa do estudo Adaptive COVID-19 Treatment Trial (ACTT) teve início no dia 8 de Maio. O objetivo agora é avaliar eficácia e segurança do uso combinado do Remdesivir com o medicamento anti-inflamatório Baricitinibe.

O Baricitinibe é uma droga aprovada nos EUA e em outros países (incluindo o Brasil) para o tratamento da Artrite Reumatoide. É uma medicação de uso oral, cujo mecanismo de ação consiste em inibir vias de sinalização responsáveis pela resposta inflamatória.

Nesta nova etapa, os pacientes se dividirão entre aqueles recebendo Remdesivir versus aqueles recebendo Remdesivir + Baricitinibe. Os resultados ainda não foram publicados.

O estudo do Remdesivir em macacos com COVID-19

Um outro estudo do Remdesivir teve por objetivo avaliar o efeito do Remdesivir quando utilizado de forma precoce em macacos infectados com COVID-19.

Os macacos foram divididos entre os que receberam Remdesivir versus os que não receberam nenhum tipo de tratamento.

O primeiro grupo recebeu uma dose de Remdesivir 12 horas após serem infectados com o SARS-CoV-2, mais uma dose diária pelos próximos seis dias. O objetivo era tratá-los antes do vírus atingir níveis maiores de multiplicação nos pulmões.

Após 12 horas do início do tratamento, os pesquisadores examinaram os macacos tratados, e os encontraram em melhores condições do que os não tratados.

Isto é, dentre os seis macacos tratados, apenas um apresentava dificuldade moderada de respirar, enquanto que naqueles não tratados, todos os seis apresentavam respiração rápida e dificultosa.

Além disso, a quantidade do vírus no pulmão dos macacos tratados, bem como o dano causado no parênquima pulmonar foi menor em comparação com o grupo não tratado.

A conclusão dos pesquisadores é que os dados apoiam o início da terapia com Remdesivir o mais precoce possível, para que o tratamento possa atingir o seu efeito máximo. 

Custo do ciclo de tratamento nos EUA

O tratamento com uso do Remdesivir é feito com seis ampolas do medicamento. O Departamento de Saúde e Serviços Sociais dos Estados Unidos irá distribuir a droga aos departamentos estaduais e territoriais de saúde, levando em conta a situação epidemiológica de cada área, e a partir deste nível intermediário as doses serão distribuídas aos hospitais.

Contudo, vale lembrar que os Estados Unidos não contam com um sistema de saúde universal gratuita, dessa forma, os custos deverão ser arcados por pacientes ou planos de saúde, em média, US$ 3.200, cerca de 17 mil reais. O valor foi estipulado pela Gilead, que fará as entregas a cada duas semanas aos hospitais.

Atualização: Remdesivir em COVID-19 moderada

Recentemente um novo estudo com o Remdesivir foi divulgado. O objetivo do estudo foi avaliar o benefício do uso da droga na melhora do estado clínico em pacientes com COVID-19 moderada.

O estudo consistiu em ensaio clínico randomizado, de fase III, incluindo 584 pacientes com COVID-19. Os pacientes foram divididos em 3 grupos: tratamento com Remdesivir por 10 dias, por 5 dias e o grupo controle com tratamento padrão.

O desfecho primário foi medido por meio de escala de pontuação ordinal avaliando estado clínico, que variava entre 1 (morte) e 7 (alta hospitalar). O estado clínico foi avaliado no 11° dia de internação.

O estado clínico dos pacientes no grupo de tratamento com Remdesivir por 5 dias foi significativamente melhor quando comparado com o grupo de tratamento padrão.

Quando comparado com o grupo que recebeu tratamento por 10 dias, não houve diferença significativa entre estes e os que receberam tratamento padrão.

Conclusão

De fato, o estudo conduzido pelo NIH é de grande relevância. Isto porque o número amostral (mais de mil pacientes) e os resultados foram significativos.

Além disso, o estudo em macacos pode lançar esperanças de resultados ainda melhores naqueles tratados precocemente. A junção de todos estes dados pode ter sido a causa dos EUA recentemente comprar praticamente toda a produção do medicamento Remdesivir.

No recente estudo lançado, pacientes hospitalizados com COVID-19 moderada tiveram benefício clínico no uso do Remdesivir durante 5 dias de tratamento. Porém os próprios autores afirmaram que a diferença encontrada é de relevância clínica incerta.

A promessa do Remdesivir como medicamento eficaz para tratamento da COVID-19 permanece ainda como aposta fraca. Mais estudos serão necessários para comprovar claro benefício clínico do seu uso.

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