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Remédios para asma podem diminuir dias da doença COVID? | Colunistas

Remédios para asma podem diminuir dias da doença COVID? | Colunistas

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Leonardo M. Hermont

7 min há 43 dias

Um estudo realizado pela Universidade de Oxford indica que a droga Budesonida, utilizada comumente para a asma, pode reduzir o tempo de recuperação em pacientes acima de 50 anos infectados com COVID-19 e que não necessitem de intervenção hospitalar.

A administração inalatória regular com Budesonida abreviou o tempo de reabilitação em uma média de 3 dias em pacientes com COVID-19 que possuem risco elevado de apresentar a forma grave da doença.

O que é a Budesonida?

A droga é um anti-inflamatório esteroide (Corticoesteroide) utilizado principalmente para o tratamento de manutenção da asma brônquica crônica e para aliviar sintomas associados à rinite alérgica. Ela age reduzindo a ação de células inflamatórias nos brônquios pulmonares.

A administração de corticoesteroides em doses farmacológicas inibe diversos tipos de células inflamatórias (Mastócitos, eosinófilos, linfócitos…) e mediadores da inflamação como a histamina e a citocina. A budesonida é administrada por inalação oral ou nasal. Estudos recentes também demonstraram que ela pode ser útil no tratamento para a Doença de Crohn.

Como foi realizado o estudo?

Denominado PRINCIPLE, o estudo em questão é o maior em nível mundial do tipo ensaio clínico controlado randomizado (Na fase 3, de um total de 4 fases de um ensaio clínico) para encontrar evidências efetivas de tratamentos para COVID-19 que possam ser usados na comunidade. O estudo é realizado no Reino Unido e possui classificação de prioridade nacional devido ao seu potencial para impactar o modo como a infecção pelo vírus é tratada em estágios iniciais em cenários não hospitalares.

Todos os pacientes selecionados possuíam mais de 50 anos e alguma comorbidade de saúde, o que os colocava em um maior risco de desenvolver formas graves da doença. Já os pacientes que possuíam mais de 65 anos não necessariamente possuíam alguma comorbidade.

Os participantes foram divididos em dois grupos: O primeiro com 961 pessoas (Dentre as quais 751 foram diagnosticadas com infecção por Coronavírus), selecionadas aleatoriamente para fazerem uso inalatório de Budesonida em casa. O segundo grupo, com 1819 pessoas (Dentre as quais 1028 foram diagnosticadas com infecção por Coronavírus), selecionadas aleatoriamente para seguirem as medidas de tratamento padrão de casos não hospitalares estabelecidas pelo sistema de saúde público do Reino Unido.

Os pacientes que utilizaram a Budesonida receberam duas doses diárias de 800 microgramas por 14 dias e tiveram sua evolução clínica acompanhada por 28 dias. Os desfechos dos dois grupos foram então comparados.

O que indicam os resultados do estudo com pacientes infectados com COVID-19?

A análise provisória dos dados coletados até 25 de Março de 2021 mostrou que o tempo médio da recuperação dos pacientes que utilizaram a Budesonida inalatória foi 3 dias menor, em comparação com o grupo que foi selecionado para receber os cuidados normais para casos não hospitalares (Como ingerir bastante líquidos, repousar e fazer uso de Paracetamol ou Ibuprofeno caso necessário).

A taxa de necessidade de hospitalização e óbitos no grupo que utilizou a Budesonida foi de 8,5% do total de pacientes do grupo. Já a taxa de necessidade de hospitalização e óbitos do segundo grupo foi de 10,3%.

O investigador-chefe adjunto da pesquisa, Professor Chris Butler, do Departamento de Ciências da Saúde de Atenção Primária da Universidade de Oxford, relata que o estudo encontrou indícios de que o medicamento, barato e difusamente disponível, ajuda as pessoas com maiores riscos de desenvolver a forma grave da doença a se recuperarem mais rapidamente. O pesquisador pede ainda que os médicos que cuidam de pessoas com COVID-19 na comunidade levem em consideração os achados do estudo para tomarem decisões de tratamento, ressaltando que a conhecida droga provoca poucos efeitos adversos.

Quais cuidados devemos ter ao interpretar os resultados deste estudo?

Os resultados publicados até o momento são preliminares. A pesquisa ainda não foi finalizada, e, portanto, ainda não foi revisada por pares (Modalidade de revisão realizada por especialistas da área, não participantes do estudo). Portanto, recomenda-se cautela ao interpretar os achados.

Ressalta-se também as condições em que o estudo foi realizado. O desfecho positivo aplica-se para casos leves e não hospitalares de COVID-19, com todos os participantes tendo idade de 50 anos ou mais (Com comorbidades) ou acima de 65 anos (Com ou sem comorbidades).

Conclusão

A sobrecarga dos sistemas públicos de saúde é o principal problema de infraestrutura que a grande maioria dos países vem enfrentando à medida que novas ondas de Coronavírus se iniciam. Portanto, estudos que procuram novos tratamentos para a doença são prioridade nos centros de pesquisa de universidades e laboratórios a nível mundial.

Os indícios de que a Budesonida pode encurtar o tempo de recuperação de pacientes não hospitalares acima de 50 anos são promissores para a possível adoção da droga como uma forma de manejo da infecção. Os pesquisadores responsáveis recomendam que médicos que se depararem com tais pacientes “levem em consideração” o uso do remédio (Já amplamente comercializado e com seus relativamente poucos efeitos adversos conhecidos). No entanto, resultados preliminares devem sempre serem lidos com cautela, principalmente quando as condutas interferem na saúde humana. Uma futura revisão por pares pode esclarecer se houve ou não vieses de aferição, seleção ou controle durante as fases da pesquisa.

O manuscrito original com os resultados preliminares do estudo PRINCIPLE pode ser acessado na página do MedRxiv.

Um outro estudo que avalia o uso da Budesonida em casos de COVID-19, denominado STOIC (também realizado pela Universidade de Oxford) foi abordado neste post publicado pela Sanarmed.

Para mais informações a respeito do Coronavírus e orientações, acesse a página oficial do Ministério da Saúde a respeito da doença.

Autor: Leonardo Hermont
Contato e Rede Social:LinkedInInstagram

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

YU, Ly-Mee et al. Inhaled budesonide for COVID-19 in people at higher risk of adverse outcomes in the community: interim analyses from the PRINCIPLE trial. MedRxiv, [s. l.], 12 abr. 2021. DOI https://doi.org/10.1101/2021.04.10.21254672. Disponível em: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.04.10.21254672v1.full. Acesso em: 26 abr. 2021.

NATIONAL HEALTH SERVICE. How to look after yourself at home if you have coronavirus (COVID-19). [S. l.], 15 abr. 2021. Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/coronavirus-covid-19/self-isolation-and-treatment/how-to-treat-symptoms-at-home/. Acesso em: 27 abr. 2021.

VADEMECUM. Budesonida. [S. l.], 16 jun. 2013. Disponível em: https://www.iqb.es/cbasicas/farma/farma04/b034.htm. Acesso em: 26 abr. 2021.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Coronavírus: O que você precisa saber. [S. l.], 8 abr. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/coronavirus/o-que-e-o-coronavirus. Acesso em: 27 abr. 2021.

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