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Resumo de leucemia mielóide crônica: epidemiologia, fisiopatologia, quadro clínico e tratamento | Colunistas

Resumo de leucemia mielóide crônica: epidemiologia, fisiopatologia, quadro clínico e tratamento | Colunistas

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João Guilherme Melo

7 min há 7 dias

Definição

A Leucemia Mielóide Crônica (LMC) é uma doença maligna resultante de um distúrbio clonal de células-tronco hematopoiéticas que causam uma hiperplasia mielóide na medula óssea. A principal característica que difere das outras leucemias é a presença do cromossomo Filadélfia (Ph), uma mutação genética gerada a partir de uma translocação entre dois cromossomos. O Cromossomo Ph é capaz de gerar uma proteína tirosina-quinase que é capaz de fosforilar vias proteicas que desregulam a proliferação celular de progenitores granulocíticos e megacariócitos além de também diminuir a adesão das células leucêmicas ao estroma.

Epidemiologia

A LMC corresponde a cerca de 15% de todos os casos de leucemia, acometendo em sua maior parte adultos com uma ligeira preponderância do sexo masculino. A idade mediana observada é entre a 5° e 6° década de vida, sendo muito incomum em crianças. No Brasil, observa-se a incidência de 1,6 casos a cada 100.000 habitantes por ano. No mundo inteiro é estimado cerca de 100.000 a 120.000 novos casos por ano. Graças a terapia com os inibidores de tirosina-quinase foi possível reduzir a taxa de mortalidade anual foi reduzida de 10 a 20% para 2% da população acometida.

Fisiopatologia

A radiação ionizante é o único fator de risco conhecido para o desenvolvimento da LMC. A exposição constante a essa radiação gera uma mutação cromossômica onde ocorre um erro no processo de translocação recíproca entre os cromossomos dentro da medula óssea. O gene BCR do cromossomo 22 sofre um processo de translocação com gene ABL do cromossomo 9 dando origem ao oncogene híbrido BCR-ABL. A porção BCR do gene contém um domínio capaz de levar a ativação da porção tirosina-quinase do gene ABL, que por sua vez, ao ser ativada fosforila proteínas que induzem uma proliferação excessiva de progenitores granulocíticos e megacariócitos, liberação anormal de células imaturas na corrente sanguínea, degradação de proteínas inibitórias e inibição da apoptose das células leucêmicas permitindo um mecanismo de sobrevivência das mesmas.

Fonte: Robbins e Cotran. Bases Patológicas das Doenças, 8. ed.

Quadro clínico

A maioria dos pacientes a princípio tendem a ser de caráter assintomático e o seu diagnóstico costuma ser feito com base nos achados do hemograma completo de rotina e exame físico. Boa parte dos portadores são diagnosticados ainda na fase crônica da doença que costuma ser pouco sintomática, e quando apresenta os sintomas gerais costuma ser febre, mal-estar, perda ponderal, desconforto abdominal e sudorese noturna.

A Esplenomegalia é o achado clínico mais comumente observado em todas as fases podendo gerar grandes desconfortos ao paciente como compressão visceral, dor abdominal, saciedade fácil e plenitude ou dor no quadrante superior esquerdo. Em casos mais severos a organomegalia pode ser tão intensa que pode levar a um infarto esplênico.

Classicamente, a doença evolui em três fases: crônica, acelerada e crise blástica.

Fase Crônica

Na apresentação clínica, os pacientes comumente apresentam esplenomegalia volumosa, hepatomegalia, discreta anemia, trombocitose e leucocitose com desvio à esquerda com um predomínio de neutrófilos, tendo o aparecimento de células granulocíticas imaturas da sua linhagem. O número de megacariócitos pode ser normal ou aumentado. Não se costuma observar displasia medular nessa fase inicial da doença.

Essa fase clínica pode variar de 3 a 5 anos, posteriormente, evoluindo para uma fase mais severa da doença com um difícil controle chamado de “Fase Avançada”. Em alguns casos, a doença pode progredir rapidamente e ir direto para a fase final de “Crise Blástica”.

Fase Acelerada

Quando a doença se encontra mal controlada pelo tratamento, os pacientes tendem a evoluir para a fase acelerada onde geralmente é definida pela presença de 15% ou mais de blastos, 30% ou mais blastos e promielócitos, 20% ou mais de basófilos e trombocitopenia com plaquetas menor que <100 × 109/μL. Também tem como característica um agravamento da anemia e um aumento das organomegalias.

Um outro quadro que pode vir acontecer e que passa a indicar um sinal de gravidade seria a medula óssea começar a sofrer alterações displásicas com o aumento de células jovens e também o início da formação de uma mielofibrose, onde as fibras que sustentam as células-tronco passam a se modificar ficam endurecidas e grossas formando uma espécie de cicatriz medular dificultando ainda mais a produção e liberação de células para o sangue. Muitos pacientes também podem vir a ter anormalidades cromossômicas adicionais (evolução clonal) tanto em fase acelerada quanto em crise blástica, como a duplicação do cromossomo Ph, trissomia do cromossomo 8 ou desenvolvimento do isocromossomo 17. Outro fato que significa um sinal de gravidade que marca a transição entre a fase acelerada para a crise blástica é a resistência à terapêutica citorredutora com inibidores de tirosina-quinase.

Crise Blástica:

A crise blástica só é diagnosticada quando 30% ou mais das células blásticas estão presentes na medula óssea e/ou sangue periférico ou quando o paciente passa a apresentar doença blástica extramedular. Além disso, os pacientes que entram nessa fase acabam tendo além do acometimento mielóide passam a ter acometimento linfóide, tendo sintomas e repercussões muito parecidas com a da Leucemia Linfóide Aguda.

A fase blástica extramedular da LMC pode vir a ocorrer em linfonodos, baço, meninges, ossos e pele. Infelizmente, pacientes que entram neste quadro mais grave estão associados a um pior prognóstico com um tempo de sobrevida médio de cinco meses.

Tratamento

A terapêutica adquirida para tratar os pacientes depende sempre da fase em que eles se encontram.

  • Fase Crônica: pode ser abordado o uso de um inibidor de tirosina-quinase oral de primeira (imatinibe) ou de segunda geração (dasatinibe, nilotinibe). Boa parte deles tem uma boa remissão hematológica e citogenética.
  • Fase Acelerada: é indicado o uso de inibidores de tirosina-quinase de segunda geração, mas a depender da situação já indicado o transplante alogênico de células-tronco.
  • Crise Blástica:  os pacientes são tratados, inicialmente, com quimioterapia de indução convencional, de acordo com o tipo de leucemia aguda em evolução, e, posteriormente, submetidos a transplante alogênico de células-tronco.

Autor(a): João Guilherme Pereira Melo – @_joaogmelo

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

Bortolheiro, Teresa Cristina e Chiattone, Carlos S.Leucemia Mielóide Crônica: história natural e classificação. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia [online]. 2008, v. 30, suppl 1 [Acessado 15 Setembro 2021] , pp. 3-7. Disponível em: . Epub 09 Dez 2008. ISSN 1806-0870. https://doi.org/10.1590/S1516-84842008000700003.

Goldman-Cecil Medicina, 184: As leucemias crônicas| Lee Goldman and Andrew I. Schafer,https://www.evolution.com.br/epubreader/9788535289947

Jameson, J. L. Medicina Interna de Harrison – 2 Volumes. Porto Alegre RS: Grupo A, 2019. 9788580556346. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788580556346/ Acesso em: 2021 set. 15.

Fred F. Ferri. Ferri Oncologia e Hematologia – Recomendações Atualizadas de Diagnóstico e Tratamento. Rio de Janeiro : Grupo GEN, 2019. 9788595150584. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788595150584/ Acesso em: 2021 set. 15.

V Kumar. Robbins & Cotran Patologia – Bases Patológicas das Doenças. Rio de Janeiro : Grupo GEN, 2016. 9788595150966. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788595150966/  Acesso em: 2021 set. 15.

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