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Revisão sistemática e metanálise: simplificando o padrão ouro de evidência médica | Colunistas

Revisão sistemática e metanálise: simplificando o padrão ouro de evidência médica | Colunistas

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Rafael Carreira

7 minhá 92 dias

O objetivo desse texto é simplificar o processo de uma revisão sistemática e de uma metanálise de forma geral e descomplicada. Para isso, explicaremos suas definições e seus respectivos papéis trazendo termos científicos esclarecidos para melhor compreensão do texto.

Introdução

Nos tempos de hoje, a medicina é movida por um importante princípio: “uso consciente, explícito e judicioso da melhor evidência clínica disponível ao tomar decisões sobre o tratamento de um paciente”. Esse princípio de uma medicina baseada em evidências cumpre sua importância de tal maneira que o número de estudos médicos publicados só cresce. Tal importância também está comprovada principalmente no ano atual de 2020, em que foram necessárias inúmeras evidências de estudos para disponibilizar métodos eficazes que combatam o coronavírus. No entanto, alguns estudos podem mostrar-se isentos de confiabilidade. De fato, resultados inconsistentes, por erros de amostras pequenas e muitos outros problemas podem tirar a qualidade de pesquisas individuais que, em vez de contribuírem com outras evidências que possuem estudos parecidos, acabam entrando em conflito e prejudicando a tomada de decisão no tratamento. Diante disso, as revisões sistemáticas e metanálises surgiram com o propósito de resolver esse problema.

Amostra: um subconjunto de uma população que, ao inseri-los na pesquisa, representarão a população toda. Amostras pequenas em uma pesquisa não conseguem enquadrar uma variedade que represente a realidade de uma forma adequada, correndo o risco de falsear o resultado.

O que é revisão sistemática?

O próprio nome já explica, é um estudo (secundário) que revisa sistematicamente outros estudos (primários). Para isso, formulam uma pergunta principal para deixar claro o objetivo da revisão (ex.: Máscaras faciais impedem a transmissão de covid?). Quando o objetivo da revisão se torna claro, reúnem, de forma criteriosa, estudos primários semelhantes que permitem serem inclusos nessa revisão, pois, através da análise crítica e estatística de suas metodologias, se possível, e da boa qualidade, acabam contribuindo para o resultado final, que é responder à pergunta principal e chegar em uma conclusão.Todo esse processo metódico faz desse estudo o melhor nível de evidência para tomadas de decisões sobre a terapêutica de um paciente, já que permite a resolução de estudos primários conflitantes. O bioestatístico Karl Pearson (1904), na busca da prevenção de febre entérica, foi um dos pioneiros a tentar reunir formalmente resultados de estudos.

Estudo primário e secundário: estudos primários sãos estudos originais, que buscam dados que não existiam para satisfazer os objetivos da pesquisa. Eles fazem parte da “linha de frente” nos estudos científicos e constituem a maioria das publicações encontradas nos periódicos médicos. Já estudos secundários são estudos que buscam dados que já existiam antes da pesquisa e que foram coletados por qualquer outro motivo que não o projeto atual. Logo, eles buscam conclusões através de estudos primários, registrando e resumindo achados comuns entre eles.

O que é metanálise?

O termo metanálise caracteriza-se como um método que, quando possível, aplica-se uma análise estatística aos estudos primários analisados na revisão sistemática, combinando-os para obter uma estimativa global dos resultados. Isso possibilita aumentar não só a precisão das estimativas, mas também aumenta o poder estatístico. Portanto, a metanálise serve para complementar a revisão sistemática, permitindo a discussão de heterogeneidade, que pode existir entre os resultados e a avaliação das evidências de forma crítica. 

Heterogeneidade: Cada estudo possui sua característica, mesmo sendo semelhante a outros estudos. Essas características, como participantes (critérios de inclusão e exclusão, diagnóstico etc.) e intervenções (tipo, dose, duração etc.) fazem com que exista uma diferença real entre eles. Isso se chama heterogeneidade.

Mas esse tipo de pesquisa é livre de viés?

Mesmo com todo esse processo rigoroso que os estudos passam para resultar em uma boa revisão sistemática, e, se possível, sintetizá-los em uma metanálise, ainda é vulnerável a vieses que podem mascarar verdadeiros resultados do estudo. O viés trata-se do inimigo de todas as pesquisas. Com isso,deve-se tomar bastante cuidado para interpretar tais resultados para a garantia de sua precisão, já que, em todo delineamento de uma pesquisa, durante o processo de investigação, pode ocorrer alguma distorção (viés). Por isso a revisão sistemática inicia-se com a formulação de uma questão (o objetivo principal). Isso faz com que todos os métodos de seleção e análise de dados já estejam estabelecidos para conduzir a revisão. De fato, atualmente existe uma recomendação a ser seguida de forma precisa chamada PRISMA (Principais Itens para Relatar Revisões sistemáticas e Meta-análises) cujo checklist e o fluxograma das fases de uma revisão servem de guia para melhoria de todo o processo. Esse processo minucioso e estipulado para não ter erro, permite dar sequência a revisão e buscar o maior número de estudos que se relacionem com a questão principal. Por fim, os estudos que forem semelhantes e passarem por todo critério de avaliação, os resultados podem, finalmente, serem analisados estatisticamente e resumidos numa metanálise. 

Conclusão

Com isso prova-se o porquê de revisões sistemáticas e metanálises caracterizarem-se como o padrão ouro na medicina moderna e encontrarem-se no topo da pirâmide de evidências. Além disso, simplificá-las, para se ter uma base inicial de como funciona todo o processo, é relevante para esclarecer a verdadeira função dessas, ainda mais em uma época pandêmica cujos olhares estão voltados para pesquisas científicas. Por fim, trazer esse conteúdo nos mostrou muito além dos inúmeros processos rigorosos e sistemáticos que as pesquisas precisam passar; nos mostrou que a medicina moderna busca cada vez mais melhorar a tomada de decisões sobre o tratamento de um paciente.

Autor: Rafael Carreira

Instagram: @rafa_carreira

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

MURAD, Mohammad Hassan et al. Como ler uma revisão sistemática e meta-análise e aplicar os resultados ao atendimento ao paciente: guias do usuário para a literatura médica. Jama, v. 312, n. 2, pág. 171-179, 2014.

Como fazer uma Revisão Sistemática Cochrane. brazil.cochrane.org. Disponível em: https://brazil.cochrane.org/como-fazer-uma-revis%C3%A3o-sistem%C3%A1tica-cochrane.

ALMEIDA, Carlos Podalirio Borges de; GOULART, Bárbara Niegia Garcia de. Como minimizar vieses em revisões sistemáticas de estudos observacionais. Revista Cefac, v. 19, n. 4, p. 551-555, 2017.

Os quatro principais tipos de vieses nas pesquisas e como impedir que eles afetem a sua. Disponível em: https://pt.surveymonkey.com/mp/dont-let-opinions-sneak-survey-4-ways-avoid-researcher-bias/.

Baena, C. P. (2014). Revisão Sistemática E Metanálise: Padrão Ouro De Evidência? Revista Médica Da UFPR, 1(2), 70. https://doi.org/10.5380/rmu.v1i2.40706

Guimarães, C. A. (2009). Medicina baseada em evidências. In Revista do Colegio Brasileiro de Cirurgioes (Vol. 36, Issue 5, pp. 369–370). https://doi.org/10.1590/S0100-69912009000500002

José, E., Dos, F., & Cunha, M. (2013). Interpretação Crítica dos Resultados Estatísticos de uma Meta‐Análise: Estratégias Metodológicas. Millenium, 0(44), 85‐98-85‐98.

Souza, M. C. De. (n.d.). Métodos de Síntese e Evidência : Revisão Sistemática e Metanálise.

Principais itens para relatar Revisões sistemáticas e Meta-análises: A recomendação PRISMA. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília , v. 24, n. 2, p. 335-342, June 2015. Available from . access on 25 Jan. 2021. http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742015000200017.

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