Ser mãe e ser médica combina?| Colunistas

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Josiane França John
6 min4 days ago

A medicina é uma profissão repleta de beleza, apesar do enfrentamento diário de sofrimento dos pacientes, ter o conhecimento capaz de curar às vezes, aliviar, esclarecer, prevenir e compartilhar sentimentos na maior parte do tempo é extremamente gratificante. No Brasil em 2018 havia 466 mil médicos ativos, desses aproximadamente 200 mil são mulheres, elas optaram por participar como os homens, desse árduo e belo trabalho, de profunda dimensão humanitária, que é ser médico (a).

Contudo, nós mulheres desempenhamos, muitas vezes , um papel triplo: médicas, mães e esposas. Essa situação é potencialmente estressante e assim surge o questionamento: Como equilibrar essas esferas da vida?

Ser mulher e médica, já tem um peso diferente, apesar de toda a evolução humana, ainda não somos consideradas, em muitos casos, tão capazes quanto os homens e por isso muitas vezes “damos o sangue” para mostrarmos nossa capacidade.

Contudo, para isso ocorrer, não é incomum      sacrificarmos nossa saúde e  nossas relações interpessoais.      Há artigos mostrando que médicas apresentam duas vezes mais depressão que homens médicos e quatro vezes mais que a população em geral . Elas apresentam taxas maiores de burnout, suicídio e divórcio que outras mulheres. O auto-sacrifício das médicas é considerado algo “normal” tanto entre os colegas quanto entre os pacientes . Apesar de todas essas dificuldades a proporção de mulheres médicas menores de 29 anos, já suplantou o de homens médicos da mesma faixa etária

Essa crescente proporção de mulheres na medicina, equivocadamente, tem sido argumento para médicos poderosos e influentes expressarem que à perda de poder, influência e status profissional da medicina é devido a ascensão feminina. Não sou feminista e não estou escrevendo isso para instigar a guerra mulheres médicas versus homens médicos, apenas escrevo com o intuito de ter essa clareza nas relações interpessoais, para que possamos tomar cuidado, para não ficarmos submersas com essa rotulagem que se sacrificar é bom e para termos ciência que é uma questão cultural em evolução.

Somado a isso, vocês imaginam como é manejar toda essa demanda física e psíquica profissional somada a explosão de emoções e angústias da vivência e experiência   da maternidade.  Há artigos discutindo esse tema  e concluem sobre manter o equilíbrio profissional e pessoal, me pareceu tão simples essa conclusão e tão inatingível .

Eu sou médica há 12 anos, mãe e esposa, engravidei no último ano da faculdade, foi um susto, ficamos muito angustiados como iríamos dar conta da residência que para mim seria no próximo ano, do bebê que nasceria durante a residência e da vida de casada.

     Foi uma sensação completa de desequilíbrio emocional, mistura de amor, felicidade, angustia e muito medo. Eu queria tanto fazer residência, passei o ano estudando muito, a primeira coisa que o meu marido me disse, quando ficamos sabendo da gravidez foi “você não vai poder fazer residência“, mas depois repensamos e resolvi fazer, passei na prova, nas entrevistas eu estava grávida, ouvi “grávida só atravanca a residência”, percebo que de  certa forma é verdade.

Entrei na residência e nos primeiros dias, eu com 8 meses de gestação, uma paciente minha teve uma parada cardiorrespiratória na minha frente, um colega começou as compressões torácicas o desfibrilador chegou e eu imediatamente desfibrilei a paciente, foi tão rápido e reativo, que só após me dei conta do risco que coloquei meu bebê.

Cadê o equilíbrio, nisso? Um mês depois minha filha nasceu, bem à despeito das loucuras da mãe dela, eu voltei para a residência quando ela tinha 45 dias, deixei ela com uma “anja” que apareceu nas nossas vidas. Eu recém formada “faminta” por atuar como médica, acabei mantendo os planos prévios à gestação, no momento parecia ser o correto a fazer.

Foi tudo muito intenso 4 anos de residência, pouca grana, bebê pequeno, aquele mistura de demandas profissionais e pessoais parece que nada foi bem feito. Sempre tentei dar o meu melhor tanto na medicina quanto com a minha família, mas sempre ficava com a sensação que era pouco.  Percebi me conhecendo melhor, no decorrer dos últimos anos que, pelo menos para mim, ser médica e mãe será desequilibrado e estou muito tranquila com isso. Com o passar do tempo, minhas percepções, minha forma de viver a medicina e os relacionamentos mudaram.

Tive outro filho, agora em 2019, fiquei 7 meses com ele em casa, depois do final da licença reduzi 70% da minha carga horária de trabalho e nesse momento sou mais mãe do que médica, daqui um tempo provavelmente serei mais médica, porque amo a medicina também.

O importante para nós médicas e mães é ter clareza do que queremos e que consigamos manter o auto-cuidado emocional e físico,  cuidar das      relações interpessoais e  dos pacientes da melhor forma possível seja com 70% do tempo ou com 30%, mas com uma dedicação de 100%, nesse desequilíbrio.

Portanto, na minha ótica e de provavelmente a maioria das mães médicas, ser  mãe e médica combina sim , não há um modelo de qual é o melhor jeito de viver essas duas profissões, fácil não é, mas é uma opção, não somos ou fomos obrigadas a seguir esse caminho. Se estamos nessa é porque o prazer e a gratificação de cuidar de outros seres humanos, além dos nossos filhos, é positiva. Considero que ser honesta, comprometida e autêntica é ponto fundamental para que esse binômio mãe-médica funcione.


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Paciente do sexo feminino, 65 anos, com nódulo na tireoide identificado em exame físico, com 2,0 cm de diâmetro, endurecido, em lobo esquerdo. Realizada ultrassonografia da glândula tireoide, caracterizando nódulo sólido de 2,0 cm em lobo esquerdo e nódulo de 1 cm no lobo direito, e com laudo final de "bócio multinodular". A melhor conduta seria:

A
observação clínica.
B
tratamento com tiroxina em doses supressivas.
C
tomografia computadorizada para confirmar multinodularidade.
D
exame citológico de material obtido por punção biópsia aspirativa por agulha fina.
E
radioiodoterapia.
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